"Não devemos nem podemos crescer economicamente além dos limites"

"Não devemos nem podemos crescer economicamente além dos limites"
Foto: César Magalhães

Investigadora, Fernanda Renée criou um detergente ecológico a partir de óleo de cozinha e fundou o projecto Otchiva, para a reflorestação de mangais em Luanda, Benguela e Kwanza Sul. Para ela, a economia tem de ser mais amiga do ambiente.

Foi reconhecida recentemente pela União Africana, pelo projecto de restauração dos mangais. Como recebeu a notícia?
A União Africana (UA) convidou-me para que o projecto de restauração e protecção dos mangais implementado em Angola, OTCHIVA, fosse apresentado na cerimónia do Dia Africano do Ambiente e de Wangari Maathai [ambientalista queniana e a primeira mulher africana a receber o Prémio Nobel da Paz], que foi realizado em Março, na Serra Leoa, na cidade de Freetown. Para nossa surpresa, fomos agraciados com o certificado de reconhecimento pela contribuição exemplar da sustentabilidade ambiental em África. O prémio foi-nos entregue pela vice-presidente da Gâmbia e comissária da União Africana para a Economia Rural e Agricultura, Josefa Sacko.

O que este reconhecimento representa para si e o que pode trazer para o projecto dos mangais?
Para nós, o reconhecimento da União Africana pelo Projecto OTCHIVA significa, por um lado, que a UA tem a noção exacta e real do problema da destruição dos mangais em África. E, por outro lado, é um sinal de que a UA não deve ser apenas um clube de Chefes de Estado e do Governo, mas também um clube de todas as organizações da sociedade civil africana, que, em conjunto com os governos, podem ultrapassar vários problemas que afligem África, do ponto de vista do desenvolvimento sustentável, bem como da erradicação da pobreza.

O que a motivou a lançar este projecto?
Nasci no Lobito, província de Benguela, na cidade dos flamingos. Cresci a vê-los pela minha cidade e, todos os dias, a caminho da escola e no regresso, ao fim da tarde, parava para apreciar os voos que os flamingos faziam. Daquele tempo para cá, começaram a surgir muitas infraestruturas no santuário dos flamingos. Chegou-se ao extremo de entulharem o seu habitat para construção. A poluição tomou conta dos mangais e, por conta disto, os flamingos passaram a ter dificuldade em pousar, no seu habitat natural, começaram lentamente a desaparecer da cidade e quase entraram em extinção. Era tempo de agir...

Porquâ a Fernanda?
Para mim, uma lobitanga de gema, que passou toda a infância a ver os flamingos e a conviver com eles, foi como se estivessem a extrair a minha identidade. Não gostaria que os flamingos, identidade da nossa cidade, ficassem apenas para a história, por causa da ganância e do egoísmo de poucas pessoas que decidiram entulhar os mangais. Em concomitância, há os impactos ambientais provocados pela destruição dos mangais, que são amortecedores costeiros naturais contra tempestades, calemas e inundações na cidade do Lobito. A falta deles está a causar terror, pois sempre que chove uma parte da cidade fica inundada e a outra não suporta as cheias.

Tem parceiros envolvidos nesta empreitada? Quem?
Temos tido o apoio, em primeiro lugar, da sociedade civil e da comunidade estrangeira residente em Angola. Temos o apoio dos governos locais (administrações municipais e distritais), das escolas nacionais e internacionais, como a LIS (Escola Internacional de Luanda), da Petrolífera Total e o apoio do Ministério das Pescas e do Mar.

Quantos mangais já foram plantados até ao momento?
Mais de 207.000 mangais já foram reflorestados. Destes apenas sobreviveram 180.000, o que já cobre hectares consideráveis e com resultados visíveis. Luanda tem a maior percentagem, mas o Projecto Otchiva pretende expandir as actividades de reflorestação a outras províncias da orla costeira, como Kwanza Sul, Bengo, Cabinda e fazer uma investigação sobre o Namibe, uma vez que mapas internacionais sobre a distribuição dos mangais, a nível mundial, não apontam a existência de mangais na Província do Namibe.

O que representam os mangais, em termos sociais e económicos?
Geram riqueza, através da extracção, transformação e distribuição de recursos naturais, bens e serviços, tendo como finalidade a satisfação de necessidades humanas, como educação, alimentação, segurança, entre outros. São sequestradores de carbono e retêm maior quantidade de carbono do que qualquer outra floresta terrestre. Em termos sociais, os mangais também são importantes, como locais para a prática de várias actividades económicas, incluindo a pesca, a aquacultura, o ecoturismo, a apicultura, entre outras.

Este não é o primeiro projecto pró-ambiente que desenvolveu. Criou o detergente ecológico. Este produto já é um negócio?
O detergente ecológico é um produto produzido a partir dos óleos de cozinha usados dentro da empresa que criámos, a AmbiReciclo, que tem como finalidade promover a economia verde para o combate à pobreza a partir da valorização dos resíduos sólidos urbanos. Já é um negócio e tem gerado emprego para jovens e mulheres em Angola.

Tem mais projectos na manga?
Tenho vários projectos em carteira e todos eles estão virados para a sustentabilidade. Mas, de momento, temo-nos focado na restauração dos mangais, uma vez que o que mais desejamos é a criação de uma lei específica sobre a protecção dos mangais.

Como é que se pode relacionar mais o ambiente e a economia?
A economia global actual foi formada por forças de mercado e não por princípios de ecologia. Isso criou uma economia distorcida, fora de sincronia com os ecossistemas da terra, uma economia que está a destruir todos os sistemas naturais de suporte. Portanto, o crescimento económico deve ser revisto, pois não pode ser praticado à custa dos recursos naturais explorados ao extremo. Economia e ambiente, juntos, podem representar uma via de acesso às melhorias que levam ao almejado padrão de bem-estar social, numa parceria sem exploração voraz, mas sim numa sintonia de contemplação.

É possível pensarmos num ambiente económico mais desenvolvido se melhorarmos a consciência ecológica?
Sim, é possível, é só começarmos por pensar que não estamos na terra, somos a terra. Portanto, não devemos nem podemos crescer economicamente além dos limites. E continuar a exploração sem respeitar os limites implicará sérias perdas para todos, pois a terra não aumentará de tamanho, estejamos certos disso.

Quando olha à sua volta, gostava de ver mais projectos empresariais amigos do ambiente?
Claro que gostaria, coisa que infelizmente é difícil ver aqui em Angola, pois destrói-se tudo quando o assunto é construção de infraestruturas. Não se tem assegurado a harmonia entre a construção e a natureza, ao contrário do que se vê noutros países. Espero um dia poder ver isto aqui, mas espero que não seja muito tarde, pois, os recursos naturais são finitos, vão acabar.

Engenheira de petróleo preocupada com o ambiente

Natural de Lobito, Benguela, Fernanda Renée é formada em Engenheira de Pesquisa e Produção de Petróleo. O seu interesse pelo ambiente leva-a ocupar o seu tempo com investigações científicas, até nos tempos livres. Por essa razão criou a AmbiReciclo, com colegas, e dentro dessa actividade criou o sabonete repelente e o ecoOmo, tudo com recurso a produtos reciclados, como o óleo de cozinha já usado.

Aos 27 anos, Renée disse não ser uma pessoa poupada e o seu livro de cabeceira é a Bíblia. Gosta de praticar exercício físico ao ar livre. Neste momento, Fernanda Renée, pela AmbiReciclo e outras startups nacionais, desenvolve uma campanha de recolha de óleo usado para produzir sabão em barra para distribuir por pessoas mais carenciadas, por forma a prevenirem-se da Covid-19 com a lavagem das mãos.

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