Lições em tempo de crise

Lições em tempo de crise

Esta crise veio confirmar que há muitas coisas que, afinal, eram possíveis de fazer e que, na verdade, foram adiadas ao longo do tempo por falta de empenho e vontade de quem decide e de quem executa.

Percebemos todos que, afinal, podemos ter mercados informais organizados, que podemos ter hospitais a funcionar melhor e com melhor atendimento, que podemos ter forças de segurança a trabalhar sem a pressão das "gasosas" e que até podemos cortar no Orçamento da Assembleia Nacional sem qualquer contestação. E que também pode haver regras na contratação pública, que as diversas unidades orçamentadas podem existir e prestar contas de forma regular, que se podem fazer obras sem ultrapassar os orçamentos em 15% e, mesmo, que os dirigentes podem sobreviver sem comprar carros todos os anos.

Esta é uma oportunidade para colocar rigor e transparência nas contas públicas, de implantar sistemas racionais de gestão, de fazer perceber às empresas a importância da eficiência, da rentabilidade e da poupança e de explicar aos cidadãos o valor do emprego. E também das prioridades. Afinal, o que é importante para cada um, em termos individuais, e para o País, na generalidade?

Vamos iniciar mais um período de estado emergência. Que durará até às 24 horas do próximo dia 10 Maio. Vai haver problemas, claro. Nenhum país está preparado para ter 45 dias com a actividade económica suspensa e Angola não é diferente.

Vai aumentar o desemprego quando for levantado o estado de emergência. Muitas empresas estão já sem capacidade de pagar aos trabalhadores e à espera deste momento. Outras vão sobreviver e, nestas, o diálogo entre empregadores e trabalhadores vai certamente tornar-se mais forte. Uns vão perceber a importância dos que lhe garantem a rentabilidade, os outros vão perceber o valor de ter um emprego.

Acredito que este nunca será recordado como um período bom para a vida dos angolanos, mas também coloca outros desafios e dá outras oportunidades. A forma de viver pós-Covid 19 será certamente diferente. A forma como as limitações forem sendo levantadas também será de extrema importância e vai ajudar a definir o modelo para o futuro.

A lição que fica é que o importante são as pessoas. Possivelmente muitos de nós precisavam de voltar a acreditar nisto. Aplica-se também à economia. Se todos perderem parte do seu egoísmo em prol do interesse comunitário, se a ostentação "tola" der lugar a uma solidariedade responsável, então, poderemos voltar a recuperar rapidamente. Se o Estado se tornar mais humilde na sua relação com os cidadãos, também irá ajudar. Ninguém vai sobreviver sozinho. Espero que todos tenhamos aprendido as lições que nos trouxeram esta crise.

(Editorial da edição 571 do Expansão, de sexta-feira, dia 24 de Abril de 2020, já disponível em papel ou em versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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