"Somos todos consumidores de cultura, cada um à sua maneira"

"Somos todos consumidores de cultura, cada um à sua maneira"

Artista plástico são-tomense, René Tavares estreia-se com a primeira exposição individual em Angola, depois de partilhar projectos com vários angolanos. A Covid-19 obrigou os artistas a reinventarem-se, mas não altera as suas motivações, nem as suas fontes de inspiração.

O que significa a exposição "Migrações e coisas, retalhos de uma história só", que está patente até 27 de Maio na galeria do Banco Económico?
A exposição é resultado de uma trajectória que marca o início das minhas pesquisas sobre o património imaterial são-tomense. Em 2002, começo a trabalhar sobre o Tchiloli, uma peça de teatro relevante para S. Tomé e Príncipe, que abriu as portas e um caminho de possibilidades para questionar outros temas e levantar inquietações presentes nesta exposição. O tema - Migrações - é um dos questionamentos que retiro do Tchiloli, peça de origem europeia que se torna símbolo de resistência contra o regime colonial português, e é hoje o património que melhor identifica a cultura de S. Tomé e Príncipe.

É a 1ª exposição individual em Angola. Qual a sensação?
É de estar a fortalecer um percurso como artista. Não posso deixar de dizer que faz mais sentido para mim a projecção em África e depois a comunicação com o mundo. E Angola é um País onde também busco inspiração e motivação devido à envolvência e à partilha histórica com S. Tomé e Príncipe. Além disso, o mercado da arte tem vindo a emergir, com artistas influentes e de enorme potencial. Faz parte do meu ideal contribuir para o crescimento de mercado de arte no continente africano.

Teve oportunidade de trabalhar com artistas angolanos. Foi possível ensinar e aprender?
Sim, há sempre uma troca de aprendizagem. A riqueza dos projectos colectivos e das residências artísticas tem este foco de partilha e de interacção.

Como vê o intercâmbio entre as duas culturas?
A arte contemporânea tem uma particularidade interessante: os artistas buscam discursos variados e, por mais que haja semelhanças, existem diferenças no contexto histórico. S. Tomé e Príncipe e Angola têm muita coisa em comum e ainda hoje partilham essa história e herança, que marcam o dia-a-dia e o questionamento dos artistas sobre identidade. Mas acho que em Angola os artistas são mais interventivos na política (global e africana) e utilizam maior variedade de meios artísticos. Em S. Tomé, há poucos artistas que exploram videoarte, ou técnicas variadas de fazer a fotografia. Talvez pela falta de referências, sempre houve mais artistas na área de escultura e pintura.

O que as culturas angolana e são-tomense têm mais em comum?
A ligação entre Angola e S. Tomé e Príncipe é muito mais forte do que pensamos. Têm um passado comum (até com outros países de língua português) que se tornou muito importante na construção de uma identidade cultural nova entre os dois povos. Devido também à proximidade, podemos ver "famílias angolanas são-tomenses" e "famílias são-tomenses angolanas".

Como a pandemia da Covid-19 alterou a sua agenda?
Foi surpresa para todos. Obviamente que alterou, não só a minha agenda, como a agenda de todos os que trabalham comigo. Vai ser preciso reagendar e pensar em alternativas ou outras perspectivas de trabalho. Acredito que vai voltar tudo à normalidade muito em breve e haverá um reajuste deste tempo.

A pandemia pode inspirar novos trabalhos seus?
Não. Altera a minha agenda, mas não altera as minhas motivações e interesses. Como em tudo na vida, uma situação com esta gravidade causa transtornos, faz pensar noutras alternativas. A questão do isolamento social já existia para mim, enquanto africano na europa, um retrato do ocidente, que a pandemia veio agravar. Poucos dias antes do alerta sobre a pandemia, tinha terminado uma obra que retrata a relação entre a China e África, e que reflecte sobre esta relação de alguma dependência e de aproveitamento de recursos, de pouco poder devido ao endividamento para com a China. Isso sim preocupa-me

É uma pessoa de muitos gastos?
Acredito que não. Vivo com o essencial e faço bastante investimento no material de trabalho.

Como é que a cultura pode contribuir para a economia?
A cultura é um enorme factor de desenvolvimento social e, logo, económico. Sendo o sector que gera serviços de natureza artística e de potencial intelectual acaba por ser um grande apoio para a economia. Somos todos consumidores de cultura, cada um à sua maneira. Entre livros, música, moda, design até a arquitectura, cada vez mais se verifica que, na sociedade contemporânea, é no consumo que as pessoas se expressam e constroem a sua identidade própria.

De que forma a crise económica afecta os seus trabalhos?
Afecta todos. A verdade é que há também quem tire proveito das crises e se torne inventivo. É uma mudança de visão e de modo de viver e isso trás também perspectivas novas que fazem parte do nosso crescimento individual, dentro de um contexto à escala mundial.


Um artista plástico atento às questões sociopolíticas

René Tavares é um artista plástico são-tomense que usa a política cultural nos seus trabalhos. O artista, de 36 anos, divide a sua residência entre Lisboa e S. Tomé e Príncipe, estando agora a frequentar o mestrado. O seu livro de cabeceira é o bloco de notas onde aponta coisa que os inspiram, ideias e os compromissos profissionais e pessoais.

Nos tempos que tem livres, aproveita para estar com a família e não liga muito a desporto. Considera-se um agente cultural, mas que se interessa pelas questões sociopolíticas, justificando, assim, o contributo do seu trabalho para a valorização da cultura, através da arte. Não é a venda que o motiva - "nem consigo pensar desta forma". É, antes de tudo, "uma forma de estar que está dissociada da questão comercial". O interesse situa-se, como acrescenta, "precisamente no discurso de cada artista e na forma como faz valer este discurso através do seu trabalho".

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