"Não vejo o Estado preocupado com os artistas, muitos estão a passar fome"

"Não vejo o Estado preocupado com os artistas, muitos estão a passar fome"
Foto: D.R.

O artista plástico diz-se "encurralado" pela pandemia da Covid-19. Teve de adiar projectos internacionais e o clima de medo retirou-lhe inspiração. Em Angola, a cultura "não pode dar qualquer contributo à economia", enquanto houver necessidades básicas sem resposta.

Tinha projectos em agenda que foram afectados pela Covid-19?
Tinha agendado para o CCBA (Centro Cultural Brasil\Angola) o projecto Expand | Hildebrando de Melo, agora em Maio. A minha agenda de exposições pelo mundo teve de ser toda cancelada. Já estava com contactos muito avançados para a Bienal de Havana. Tinha de ir a Utah, nos EUA, prorrogar o meu contrato com a New Vision Artists, galeria de Salt Lake City. Depois desta cidade ia para Los Angeles, tenho bastantes pessoas interessadas na minha obra no estado de São Francisco. Mas tudo teve de ser adiado e, para já, não sei quando voltamos à normalidade. Eu dependo, de certa forma, do estrangeiro. Com o espaço aéreo fechado fico encurralado, as opções diminuem. Neste cenário, não vejo o Estado preocupado com os artistas. Não houve, até agora, qualquer preocupação com a classe. Aproveito aqui para deixar esse apelo.

A pandemia veio alterar toda a sua agenda de trabalho?
Sim, alterou tudo. Ainda que façamos teletrabalho, há coisas que temos de ir pessoalmente apresentar e, sem se poder viajar, fica difícil. Faço votos que logo, logo, se desenvolva uma vacina, para que possamos voltar à vida normal. Porque criámos uma economia interdependente, como está tudo agregado, sofremos todos. O mundo sofre.

A pandemia pode inspirar novos trabalhos seus?
Esta pandemia só veio confirmar o que, há muito, eu previa: se acontecesse um desastre desta natureza, o mundo não estaria preparado, porque as atenções têm sido centradas no crescimento do PIB, em vez de nas pessoas e eu sabia que pagaríamos uma factura pesada. Está tudo como visualizei e previ. Nacional e internacionalmente, os serviços de saúde não estão preparados, nem nós, nem ninguém. Com todos estes reflexos não. Isto não é um tempo de criação, é mais de preocupação.

O medo tomou conta de nós?
Ainda que eu não queira, sou aterrorizado pelos mass media todos os dias. A psique joga um papel fundamental no ser humano. É-me difícil criar, com tantas notícias de morte, a todo o momento. "Morreram 500 em Itália! Em Portugal 200, não sei onde 1.000, os EUA já vão com mais de um milhão de infectados. O vírus já chegou a Angola. O nosso sistema de saúde não está preparado, vamos morrer como insectos". Quem é que consegue trabalhar ou inspirar-se? Tudo isto fica impresso no cérebro, não há alma que aguente, julgo eu. O medo começa a matar mais do que a Covid-19.

É uma pessoa de gastos?
Não, felizmente não. Tenho bastantes encargos, porque tenho de ter uma equipa de, aproximadamente, 10 pessoas. Mas basicamente não sou pessoa de muitos gastos e que sejam supérfluos. Tento viver sempre com o mínimo indispensável, porque tenho filhos e o exemplo vem de mim. Ainda há pouco, estive a dar educação financeira à minha filha mais velha. Um dos conselhos que lhe dei foi precisamente "poupar". Temo, nesta altura, por nós, famílias angolanas.

Como é que a cultura pode contribuir para a economia?
A cultura não pode dar qualquer contributo, visto que não há um sistema na arte. Falo efectivamente da minha área, mas também sei que as demais áreas da cultura têm o mesmo problema. Não existem espaços para a arte, por exemplo, galerias, museus, financiamento, etc.. A cultura precisa que muitas áreas do tecido social estejam em funcionamento, sem isso nada feito. Se nos ativermos ao conceito da Pirâmide de Maslow, há necessidades básicas a suprimir: comida, bebida, água, saneamento básico, infraestruturas. Só muito depois as pessoas procuram coisas de complemento espiritual, como a cultura. No nosso caso, Angola, nós estamos muito abaixo de qualquer rácio de quase normalidade.

Como assim?
Só o facto de não termos água potável é mau, agricultura. Sem as coisas básicas, a cultura é espezinhada. O povo vai pensar em buscar água para se lavar ou vai pensar em arte? Vamos pensar em literatura ou na alimentação? Sem turismo, como é que a cultura pode florescer? Recuando ao período anterior à pandemia, temos um bom ambiente atractivo para negócios? Eu prefiro só fazer perguntas, porque se der sentenças ou fizer afirmações dirão que sou do contra. Mas não, só estou a ser básico. É preciso muito trabalho.

De que forma a crise económica afecta o seu trabalho?
Afecta pela falta de mobilidade, por um lado, e pela falta do que já exemplifiquei, das necessidades básicas asseguradas. A pintura não é um bem de primeira necessidade. Vamos ver agora que apoio o Estado dará aos artistas, muitos já estão a passar fome, deve ser algo que o Executivo deve ter em conta. Ressalvo que o Estado somos todos nós. Esta crise veio fustigar-nos ainda mais. Mas, como já afirmei, várias vezes, a crise económica em Angola não deriva de mundo. É uma crise económica angolana. (...)


O artista que desconstrói para depois organizar

Hildebrando Teixeira Mesquita de Melo, ou simplesmente Hildebrando de Melo, de 42 anos, teve de adiar e cancelar projectos no exterior, devido ao isolamento, imposto pela pandemia da Covid-19. Natural do Bailundo, Huambo, o artista plástico aproveita os tempos livres para fazer jogging, ler, ir ao teatro e cinema e estar com a família.

Nos tempos livres também pratica natação. Autodidacta, é um dos artistas mais reconhecidos internacionalmente, com obra dispersa por vários países. Pai de quatro filhos, tem na Bíblia o seu livro de cabeceira. O artista é conhecido na classe pela sua crítica feroz ao sector cultural. Hoje, sente-se sem inspiração, porque, como explica, as notícias com que somos bombardeados diariamente não criam qualquer vontade de criar, tão pouco inspiração. O mundo - lamenta - está tomado pelo medo.

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