Ressuscitemos Kalecki

Ressuscitemos Kalecki
Foto: D.R.

Até o Iº Trimestre de 2020, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), perto mais de 4,7 milhões de angolanos em idade activa estão sem empregos e à procura de emprego, sendo que mais de 108,2 mil foram adicionados só Iº Trimestre de 2020.

Por outro lado, na última semana, a Administração Pública, Trabalho e Segurança Social veio dar nota que mais de 7 mil pessoas poderão perder os seus empregos no IIº Trimestre, enquanto que só as instituições do Ensino Superior poderão suspender até 27 mil de contratos laborais.

Os rendimentos dos empregos são responsáveis por perto de 80% do rendimento das famílias, segundo dados do INE. Mais de 32% de pessoas desempregadas, para uma população avaliada em perto de 31 milhões de pessoas, com um agregado médio de cinco pessoas por famílias, é o equivalente a uma perda mensal acima de 370 mil milhões Kz no consumo privado, que representa no todo mais de 55% do PIB em 2020.

O sector privado concentra o maior número de empregos na economia, e deve garantir-se que continue a ser assim de modo a evitar-se, o máximo possível, a redução do nível de empregabilidade na economia, que já é baixo (68% no Iº Trimestre 2020). Pois, mais desemprego é sinónimo de menos poder de compra. Menos poder de compra é sinónimo de menos dimensão de mercado. Menos dimensão de mercado é sinónimo de reduzido incentivo para investimentos. Menos investimentos, associados a menos consumo, é sinónimo de menos crescimento económico. E menos crescimento deverá traduzir-se em todos os males que a economia vem experimentando desde, pelo menos, 2014.

E até 2017 os rendimentos representavam 23,9% do PIB, sendo que 68% do total eram referentes ao rendimento privado enquanto o remanescente era referente aos rendimentos do sector público. Porém, com as expectativas que se fazem sobre a evolução da economia - e com o histórico negativos dos últimos quatros anos -, as taxas de desemprego poderão manter a tendência ascendente o que vai certamente traduzir-se, primeiro num aumento da pobreza e da indigência, e segundo estaremos a aprofundar a crise económica e a torná-la cada vez mais desigual. Nestes termos, a possibilidade de recuperação será muito mais complexa. E quando ocorrer, poderá dar-se com desequilíbrios "gritantes".

É ponto ascendente que ninguém previu a Covid-19. Assim como ninguém consegue dizer que a mesma tem um fim a vista. Contudo, existem uma noção clara do que pode acontecer para uma economia desestruturada como a angolana, sem estabilizadores automáticas, sem uma base diversificada de rendimentos, com alto níveis de desigualdade, com um nível demográfico desafiador, se deixada que os mecanismos de correcção de mercado - os preços dos bens, salários, taxas de câmbios e de juros - se equilibrem e expulsem do mercado quem não detenha mercado/produtividade marginal alinhada ao nível de preços que o novo normal quer impor no mercado.

*Economista

(Leia o artigo integral na edição 585 do Expansão, de sexta-feira, dia 31 de Julho de 2020, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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