"A banca comercial não está preocupada em atender quem está a começar"

"A banca comercial não está preocupada em  atender quem está a começar"
Foto: César Magalhães

O presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Angola acredita que é possível dinamizar os pequenos negócios com o apoio da banca e a alteração da mentalidade dos empreendedores, apostando na formação com foco no investidor.

Nesta altura quais são os desafios do comércio em Angola?

Os desafios não são só para o comércio em Angola. São para o comércio mundial. A pandemia implica o confinamento e, infelizmente, para nós, a outra forma de fazer comércio hoje é a virtual, por via das tecnologias, com o recurso à internet. No País e na maior parte dos países africanos, há ainda uma grande dificuldade no acesso às tecnologias, porque nem sempre a internet chega aos pontos mais recônditos, o que dificulta este tipo de comércio. Mas a pandemia, embora esteja a crescer, não está tão disseminada como em outros países.

Mas está a afectar o País...

Infelizmente, hoje no País quase tudo depende de Luanda, que está em cerca sanitária. Quando Luanda está confinada é o País que está confinado. E Luanda depende do estrangeiro. Esta é uma situação difícil, sabemos que há uma interdependência no comércio. Ninguém é auto-suficiente neste aspecto, mas esta pandemia vai fazer-nos aprender que cada um, internamente, tem de estar devidamente organizado para, em situações semelhantes, poder sobreviver.

Falta um comércio organizado?

Primeiro temos de ter infraestruturas e a própria organização do comércio. Sensibilizar as pessoas para actividade comercial. Ou seja, temos de tentar direccionar as pessoas para o empreendedorismo. O grande problema é que, ao longo destes anos todos, metemos na cabeça que temos de ser empregados dos outros e mudar esta mentalidade não é fácil. E a mudança que está a ser feita nem sempre tem a qualidade devida. Já não podemos assumir a actividade empresarial de forma empírica. Hoje tudo é ciência para melhor organizar as coisas.

Falta ao empresariado nacional dedicação?

Nem tanto. O problema é que os factores colaterais que deviam facilitar a actividade empresarial não existem. E isso está relacionado com a organização. Podemos trabalhar muito e não ver resultados. É preciso organizar, planificar e esperar os resultados.

São estes os factores colaterais de que fala?

Também tem a ver com isso. Não vale a pena pensarmos que já tivemos tempo de formar. Temos um número alto de empreendedores e as ruas, sobretudo em Luanda, são uma amostra disso. Só que estes pequenos empreendedores não estão organizados. Precisam de ser organizados, assessorados... Este é o caminho que temos de percorrer. As pessoas começam já a ganhar alguma consciência de que precisam criar os seus próprios negócios e, assim, tornarem-se grandes empresários.

As associações podem contribuir para isso?

Este é um trabalho que as associações e o Estado podem fazer. Mas depois há o problema de integrar as peças que, muitas vezes, não estão integradas.

O que falta para a integração?

Por exemplo, a formação. Temos o caso do Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas (INAPEM), que está a formar pequenos empresários, mas devia haver aqui também a integração deste programa com pacotes financeiros. Ou seja, devia-se combinar o acesso a determinados programas financeiros com a formação. Quem faz formação deveria ter direito a um pacote financeiro e a acompanhamento na sua implementação, para que os resultados sejam os esperados.

Determinados sectores do comércio são dominados por estrangeiros. Como olha para esta situação?

Estamos num mundo globalizado e cada país tem de adoptar medidas de protecção, embora nem todas sejam permitidas por instituições internacionais, como a Organização Mundial do Comércio. O País pode adoptar medidas para prevenir uma imigração que não traga grandes benefícios. Mas não podemos esquecer que a ocupação deste pequeno comércio resulta muito da nossa pouca experiência comercial. Não nos habituámos a isso. E isto não é de hoje.

Este pequeno comércio não é atractivo?

O pequeno comércio é atractivo. O comércio faz a ponte entre o sector primário e os outros sectores. E, muitas vezes, o comércio consegue ter uma margem de lucro maior do que quem está no sector primário, como agricultura ou indústria, porque o investimento neste sector é de médio e longo prazo. No comércio, pode ser de curto prazo e bastante lucrativo. Nós é que não temos esta cultura. É preciso um trabalho mais profundo de sensibilização, formação e consciencialização dos nossos jovens.

Se é lucrativo, como diz, então como se explica que as cantinas estejam nas mãos de comerciantes estrangeiros?

Os estrangeiros que fazem o pequeno comércio encontraram o espaço aberto e assumem esta actividade de forma séria. E nós não fazemos ainda isso com afinco. Basta ver que nestas pequenas cantinas os vendedores permanecem regularmente na loja, com ou sem chuva. Mas nós não fazemos isso. Temos dificuldades de assumir este negócio, chegar cedo. Queremos ter um emprego, salário, e ficar descansados em casa. Mas temos de mudar esta mentalidade. E já há pessoas com muita vontade, mas com falta de meios.

Que meios?

Meios que têm a ver com recursos financeiros, materiais e humanos. O grande problema para quem vende nas ruas, por exemplo, é que muitas vezes recebem a mercadoria dos armazéns. E ficam apenas com uma pequena parte do valor das vendas e isso não lhes permite arrendar um espaço ou uma loja. O problema está só onde encontrar recursos para começar. E aqui posso também incluir as startups.

Falta financiamento no mercado?

Sim, falta. E quem disser o contrário não está a ser verdadeiro. Fala-se muito de financiamentos, mas este financiamento não é para quem está a começar. Para quem está a começar o financiamento tem de ter outra forma de estrutura. A banca comercial não está preocupada em atender quem está a começar.

Não está preparada para apoiar o pequeno negócio?

O problema aqui não é a banca estar ou não preparada para apoiar o pequeno negócio. Mas isso não se passa só com a nossa banca. A vocação da banca não é financiar este tipo de negócios, salvo aqueles casos em que os pequenos comerciantes já têm um histórico na banca.

(Leia a entrevista integral na edição 588 do Expansão, de sexta-feira, dia 21 de Agosto de 2020, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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