Dentro do sector transformador que indústrias apoiar? Que critérios de escolha? (segunda parte)

Dentro do sector transformador que indústrias apoiar? Que critérios de escolha? (segunda parte)
Foto: César Magalhães

Antes de retomar o fio da meada do artigo anterior sob o mesmo tema, convém chamar a atenção para a necessidade de se discutir que industrialização está em causa em Angola, num tempo de Terceira Revolução Industrial mundial em transição para a quarta (que está a acelerar a mudança total dos países mais desenvolvidos) e de configuração de um novo modelo industrial para a Europa - mais autocentrado e baseado no aprofundamento das relações intra-comunitárias - onde muito pouca coisa fora das novas tecnologias e da inteligência artificial contribuirá para a diversificação das exportações e incremento sustentável da produção, quando se ultrapassar o limiar da capacidade de absorção interna das economias.

Dizer igualmente que os processos de industrialização no mundo se aceleraram muito depois da Primeira Revolução Industrial 1760-1840 (Inglaterra com o kick-off, Europa Ocidental e Estados Unidos), cujo resultado essencial foi a substituição do trabalho artesanal pelo trabalho assalariado e a introdução de maquinaria em todas as cadeias de produção.

A Primeira Revolução Industrial (1760-1860) confinou-se à Inglaterra e caracterizou-se pelo aparecimento de indústrias têxteis (algodão proveniente da Índia e lã da Escócia) e da introdução de teares mecânicos nos processos de produção.

A Segunda Revolução Industrial foi territorialmente mais extensiva (Alemanha, França, Rússia e Itália), ocorreu entre 1860 e 1900 e caracterizou-se pelo uso do aço, da energia eléctrica e dos combustíveis derivados do petróleo, a invenção do motor a explosão, da locomotiva a vapor e o desenvolvimento de produtos químicos. A Inglaterra beneficiou de um conjunto de condições que lhe conferiram a liderança da industrialização em massa: existência de uma burguesia rica e com consciência de classe e do seu papel nos processos de transformação do país, domínio da mais extensa e importante zona de livre comércio da Europa e do mundo, êxodo rural em massa para as cidades onde se localizavam as indústrias (passando a dispor de uma mão-de-obra barata explorada, que assumiu um papel central na Teoria Marxista do Valor e da queda tendencial do sistema capitalista) e a localização privilegiada junto à costa (propiciando facilidades de acesso aos mercados ultramarinos).

A Terceira Revolução Industrial iniciou-se durante o século XX e ocorre actualmente, caracterizando-se pela adopção do computador no comando e programação do funcionamento das cadeias de produção e na vida social em geral, da engenharia genética, do celular e da inteligência artificial.

Onde é que Angola está neste momento? O novo Plano de Industrialização 2020-2022 não apresenta esta avaliação, nem tão pouco se debruça sobre a História da Industrialização do País, que a tem e onde se podem recolher informações úteis e importantes para o delineamento de estratégias sustentáveis. Via de regra, assegura-se, até à exaustão, a existência e disponibilidade de recursos naturais para a industrialização do País sem se equacionarem as importantes questões do capital humano, da investigação (a agricultura angolana só será competitiva e inserível eficientemente no processo de industrialização de "traz-para-diante" se recorrer à investigação em massa sobre produtos, métodos de produção e organização do trabalho) e da organização dos espaços.

Por outro lado, convém não esquecer que a industrialização no mundo acelera as desigualdades entre países e só os mais aptos a introduzir novas tecnologias e processos de destruição criadora sobreviverão.

*Economista

(Leia o artigo integral na edição 590 do Expansão, de sexta-feira, dia 4 de Setembro de 2020, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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