A economia da depressão

A economia da depressão
Foto: D.R.

Com frequência, os economistas e os media dizem que a economia está em recessão. De facto, estão certos, em parte, porque, ao usarmos este termo para situar a economia no ciclo de negócios, é como se estivéssemos a suavizar a magnitude da crise. A meu ver, o mais correcto é dizer que a economia está em depressão, embora não haja um pleno consenso entre os economistas quanto à diferença.

Uma recessão é comummente caracterizada por uma quebra no Produto Interno Bruto (PIB) em, pelo menos, dois trimestres consecutivos. Normalmente a recessão é antecipada por desacelerações constantes no PIB, antes de se tornar negativo, conforme ocorreu a partir de 2009, ano em que a economia cresceu 0,86% quando havia crescido, em anos antes, isto é, 2007 e 2008, cerca de 14% e 11%, respectivamente. Depois de 2009 a economia não mais voltou a registar taxas de crescimento acima de dois dígitos, e a recessão, que começou praticamente naquele ano, só foi confirmada em 2016 com a contracção de 2,58%.

Onde estamos no ciclo de negócios?

Uma das formas mais rápidas de se perceber se estamos em recessão ou em depressão é olhar para o ciclo de negócios.

A depressão económica é caracterizada por perdurar anos e até décadas com consequências devastadoras. Na grande depressão de 1929, o PIB contraiu em 6 de 10 anos. No caso da economia angolana, o produto já contraiu em 4 de 10 anos, haja vista que para se começar a falar em depressão o PIB precisa cair no mínimo em 4 anos (dentro de um horizonte temporal, isto é, uma década ou menos) e a economia já caminha para a quinta recessão consecutiva.

Em termos acumulados (2016 a 2019), a economia já contraiu em cerca de 6% e até final de 2020 poderá chegar aos dois dígitos, caso se comporte conforme a previsão do Centro de Estudos e Investigação Científica (CEIC) da Universidade Católica de Angola (-6,8% para 2020).

Em períodos de depressão, a economia cresce muito abaixo da sua taxa de crescimento tendencial. Segundo os meus cálculos usando dados de 1999 até 2019, a taxa média de crescimento tendencial está próxima dos 7% (ver gráfico). Assim, de 2002 a 2008, a economia cresceu acima da tendência. No entanto, desde 2009 que o hiato do produto tem sido negativo, confirmando-se, deste modo, a ideia de Alves da Rocha de que a crise começou em 2009. Assim, facilmente se consegue perceber que, em termos práticos, estamos em crise já há 10 anos, sendo que as dores começaram a ser mais visíveis em 2016 e com a confirmação da quarta recessão em 2019 a economia afirmou-se como depressiva.

Um olhar por alguns fundamentais macroeconómicos?

Diferente da recessão, a depressão é acompanhada com deterioração na maioria dos fundamentais (indicadores) macroeconómicos. A forte crise que temos vivido tem impactado negativamente a maioria dos fundamentais.

Inflação

Desde 2009 até ao momento, os preços fixaram-se acima dos 179,46%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). Durante estes anos, o pico do nível geral de preços foi atingido em 2016, altura em que a taxa de inflação acumulada se fixou em 41,12%. Embora os cálculos do INE provem o contrário, costuma dizer-se que a economia angolana é hiperinflacionária. Actualmente, o nível de inflação está avaliado em cerca de 23,41%, o que não é hiper, é galopante. Apesar disto, ainda é considerada muito alta e é um nível de inflação típico de períodos de depressão.

As actuais expectativas de inflação, entre outros factores, irão favorecer mais inflação no futuro. Assim sendo, para os próximos anos, talvez em 2023, a economia deverá assumir-se como hiperinflacionária.

*Economista e docente Universitário

(Leia o artigo integral na edição 593 do Expansão, de sexta-feira, dia 25 de Setembro de 2020, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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