"Excesso de liquidez dos bancos exerce efeitos perversos sobre a estabilidade de preços"

"Excesso de liquidez dos bancos exerce efeitos perversos sobre a estabilidade de preços"
Foto: César Magalhães

O homem-forte do BNA aponta o caminho à recuperação da economia angolana, que passa, sobretudo, pelas reformas que estão em curso. Continua a defender as fusões e nega que haja dois pesos e duas medidas para bancos grandes e pequenos, apesar de ter concedido uma moratória ao Banco Económico para adiar o aumento de capital.

É a segunda vez que está à frente do banco central, desta vez num contexto de um País intervencionado pelo FMI. Isto trouxe-lhe desafios acrescidos?

Eu não diria que estamos a ser intervencionados. Estamos com o programa com o FMI, que foi pedido pelas autoridades angolanas. Não é necessariamente uma intervenção. Os pilares desse programa faziam já parte do processo de reforma que as autoridades angolanas se propunham para este mandato. Mas, sim, é um contexto diferente. O meu primeiro mandato no BNA também foi exigente, vínhamos de uma crise de 2008, mas que, no caso de Angola, os efeitos foram mais sentidos a partir de 2010. E foi possível naquela altura fazer algumas reformas interessantes que permitiram ao BNA atingir o seu objectivo principal, que era trazer a inflação para baixo. Quando terminei a minha primeira passagem pelo BNA, tínhamos os níveis mais baixos de inflação desde que o INE iniciou a compilação do Índice de Preços no Consumidor (IPC). Em finais de 2014, tínhamos a inflação a rondar os 7%.

Essa foi a primeira crise dos preços do petróleo. Entretanto estamos na crise que se iniciou em 2016...

O tema continua a ser o peso que o sector petrolífero tem na nossa economia. E o facto de termos, neste momento, não apenas um preço de petróleo mais baixo do que aquele que era desejável para o equilíbrio, inclusive das próprias contas públicas, mas também um sector que tem estado a regredir. A contribuição do sector petrolífero para o PIB tem estado a cair, e ele representa ainda cerca de 95% das nossas exportações. Daí que qualquer variação nesse sector acaba por ter um impacto em toda a nossa economia. Como se não bastasse, temos também, neste momento, um contexto difícil e complexo, provocado pela pandemia da Covid-19, que acabou por alterar o curso que se previa de retoma da economia. Não apenas da economia angolana, mas da economia mundial, o que, para o nosso principal produto de exportação, é mais um elemento de pressão.

De alguma forma, estando cá o FMI, isto condiciona o papel do banco central?

Não. Longe disso. O FMI tem sido também uma força em todo o processo de mudanças que estamos a conduzir, e "força" no sentido de apoio, inclusive técnico. A esse nível, podemos dizer que a presença do FMI tem sido bastante útil ao reforço do papel do BNA, quer no domínio da condução da política monetária, como ao nível da regulação e supervisão do sistema financeiro.

(Leia o artigo integral na edição 597 do Expansão, de sexta-feira, dia 22 de Outubro de 2020, em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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