Linguagem cor-de-rosa

Linguagem cor-de-rosa

A linguagem cor-de-rosa que a comunicação social pública utiliza para descrever a realidade económica do País não ajuda em nada à resolução dos problemas e desafios que temos de superar. Não é maquilhando os números, assumir como concluídos projectos que estão apenas a ser apresentados, noticiar produções que são apenas estimativas, que se está ajudar ao desenvolvimento.

Isto porque, além de não ser verdade, e depois de repetido várias vezes, dá aos responsáveis aquela sensação de dever cumprido, de objectivos alcançados, quando na verdade ainda se está apenas a iniciar o "trabalho". Esta ilusão desresponsabiliza os gestores e os ministros, cria uma almofada que inviabiliza a discussão dos métodos e procedimentos utilizados, porque o argumento do "nós somos muito bons", vejam o que dizem os jornais, as rádios e as televisões, supera qualquer outro questionamento. E é também por isso que muitas das reformas, das obras, dos projectos, acabam por nunca chegar ao fim.

Obviamente que os assessores de imprensa dos diversos ministérios e instituições adoram esta abordagem, dá para mostrar ao "chefe" que estão a trabalhar bem, e mais do que isso, o seu ministério ou instituição está a mostrar uma "dinâmica única". Mas isso só serve para os olhos, não ajuda o estômago dos angolanos, porque o País está apenas a desenvolver-se numa atmosfera comunicacional ou no mundo virtual. E cria também um efeito preservo, coloca o assessor de imprensa no centro da estratégia de cada entidade, uma vez que acreditam que a avaliação do sucesso pelo "chefe do governo" é feita nestes meios e não pela apresentação de "obra feita". O que muitas vezes não é verdade.

Todos sabem que a diferença entre a realidade económica do País que é relatada nos "media" públicos e aquele que é o dia a dia dos cidadãos e das empresas leva à quebra de confiança, desmobiliza, e a médio e longo prazo, resulta no afastamento das pessoas. Hoje pede-se cada vez mais franqueza e transparência nas abordagens. Por isso não é de crer que este desfasamento resulte de uma estratégia centralizada pré-definida, antes de uma cultura e de uma prática nos meios que tem já muitos anos, mas que na última década se veio a agravar.

A este propósito, destacar a frontalidade com que a ministra Vera Daves respondeu aos deputados durante a discussão na especialidade do OGE. Quando confrontada com o facto de faltarem verbas para apoiar alguns projectos que estes consideravam fundamentais, Daves respondeu que não fechava a porta à entrada dos mesmos, mas que eles indicassem os projectos que deviam ser substituídos. Não deixou dúvidas que o dinheiro que existe é este, o País tem de honrar o serviço da dívida, e que para gastar mais num lado vai ter de se abdicar do outro. Curiosamente, os media públicos não deram destaque a estas declarações.

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