Director Carlos Rosado de Carvalho

Empresarial e sustentabilidade

Empresarial e sustentabilidade

É notória a crescente complexidade observada nas últimas décadas na relação das empresas com a sociedade.

O ambiente de negócios vem constante e progressivamente passando por mudanças que requerem, com equivalente constância, modelos de gestão que lhes sejam adequados.

A tradicional cadeia de produção fabril, que considerava apenas fornecedores, de um lado, e consumidores, de outro, foi significativamente ampliada. Aos poucos, aos agentes considerados neste processo foram acrescentados outros, relacionados com mudanças de modos de produção e de relações laborais, e com os requerimentos crescentes de capital.

A gestão das empresas passou então a considerar novos grupos de interessados, incluindo organizações de trabalhadores, accionistas e agentes financeiros. Este é o modelo de gestão que, ainda hoje, dá suporte à maioria das empresas.

Por este modelo, as empresas, como as do passado, visam oferecer produtos adequados aos clientes e honrarem compromissos com fornecedores, mas adicionam ao conjunto de suas obrigações a adequada remuneração do capital nelas investido e condições razoáveis de trabalho aos colaboradores.

Muitas outras variáveis concorrem actualmente para tornar esta visão insuficiente e, em muitos casos, obsoleta. Movimentos sociais iniciados na década de 1960, em especial os de carácter ambientalista, que justificaram a criação do Clube de Roma, em 1968 - marco da introdução do tema ambiental no mundo dos negócios -, animaram a proliferação, quase simultânea, em muitos países, de agências ocupadas com o ambiente e com legislações ambientais complexas.

Animaram também o surgimento de incontáveis organizações da sociedade civil. Assim, se a inclusão dos direitos dos trabalhadores à visão das empresas resultou de longo processo de conquista social, iniciado pelo esforço reivindicativo trabalhista europeu do século XIX, ampliado actualmente pela sedimentação de concepções modernas orientadas pela Organização Internacional do Trabalho, os movimentos sociais iniciados na década de 1960 resultaram na necessária inclusão da pauta socioambiental no planeamento estratégico das empresas, tornando ainda mais complexa sua relação com a sociedade.

Esta pauta socioambiental tornou-se ainda mais importante por ter sido adoptada por instituições multilaterais de crédito, como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a Corporação Andina de Fomento, tendo sido, posteriormente, incorporada por bancos privados que, de forma crescente, estão aderindo aos Princípios do Equador, critérios para a concessão de crédito criados em 2002, baseados em rigorosos parâmetros ambientais e sociais.

A resposta empresarial aos requerimentos sociais contemporâneos vigentes no mundo dos negócios pode ser chamada de gestão da sustentabilidade. Ela trata tanto da gestão interna, relacionada com os seus trabalhadores, quanto da externa, que inclui as pessoas que residem nas áreas de influência das suas actividades e do ambiente natural onde quer que se se situem. No âmbito do ambiente interno das empresas, a gestão da sustentabilidade trata primordialmente da segurança e da saúde ocupacional dos trabalhadores.

No tocante à segurança do trabalho, as empresas determinam rigorosas normas a serem respeitadas por todos. São oferecidos equipamentos de protecção colectiva e individual aos trabalhadores e visitantes, estabelecidos limites para a ocorrência de eventos acidentais e monitorizadas ocorrências.

Uma equipa qualificada é dedicada à gestão da segurança, que visa a manutenção da integridade física de todos. No tocante à saúde ocupacional, são observadas as condições de salubridade e ergonomia dos ambientes e instrumentos de trabalho oferecidos aos colaboradores. Aí estão incluídos os ambientes de trabalho propriamente ditos, os ambientes de hospedagem e alimentação, bem como os de circulação.

São também controladas situações ambientais adversas à saúde do trabalhador, como a presença de agentes a ela nocivos ou a existência de doenças endémicas na sua região de trabalho.

A pronta resposta a situações acidentais de emergência também é tratada neste âmbito. Para a gestão da saúde, são igualmente estabelecidas metas e limites para uma série de parâmetros, monitorizados e, quando pertinente, corrigidos continuamente. Aqui também é empregada uma equipa qualificada e especialmente dedicada.

No âmbito externo, a gestão da sustentabilidade trata das condições do ambiente natural em que está inserido e das pessoas que habitam a região influenciada pelos seus negócios. As metas da gestão da sustentabilidade no âmbito externo incluem: (i) a preservação dos recursos naturais usados ou postos em risco pela actividade exercida; (ii) o absoluto respeito pelas comunidades e seus indivíduos por ela afectadas; (iii) a preservação do património cultural, material ou imaterial de sua área de influência.

A indústria da construção civil, por exemplo, trabalha com projectos e empreendimentos que, por definição, implicam datas de início, períodos de execução e datas de finalização. Trata-se de uma indústria que lida constantemente com alterações ambientais e sociais significativas que mudam, de um momento para o outro, várias das características de um lugar e que estão no topo das actividades geradoras de impactos.

Desta forma, a construção civil é uma actividade para a qual o desafio da sustentabilidade inclui todas as suas vertentes. A gestão sustentável da construção civil implica o conhecimento prévio das condições naturais e culturais do ambiente a ser alterado. Implica também a previsão das alterações decorrentes da actividade e a proposta de soluções para os impactos considerados negativos.

A elaboração de estudos de impacto ambiental é ponto fundamental do processo. Conhecidas as condições precedentes e previstos os impactos e as medidas para sua correcção, a gestão do processo é perfeitamente possível - e dela se encarregam equipas capacitadas e dedicadas. As tarefas da gestão sustentável dos projectos também tratam da comunicação com as partes interessadas.

Aí estão as agências governamentais, que normalmente requerem relatórios periódicos dando conta do tratamento e destino dado a efluentes, emissões e resíduos; estão os agentes financiadores, que requerem informações sobre os impactos ambientais e sociais dos projectos; estão accionistas, que exigem o cumprimento de directrizes; estão organizações da sociedade com finalidades específicas; e estão as pessoas directamente afectadas por suas actividades.

Complementarmente, a gestão sustentável dos projectos pode estabelecer metas adicionais para as suas actividades. Iniciativas espontâneas, de ordem ambiental ou social, podem ser adoptadas, em benefício de uma região ou de sua população. Trata-se de projectos que estabelecem objectivos de desenvolvimento social, recuperação ou preservação ambiental, protecção ou recuperação de património cultural.

Em resumo, a gestão da sustentabilidade das empresas é a resposta dada por elas aos desafios e requerimentos contemporâneos estabelecidos pela sociedade de forma cumulativa, para suas relações internas e externas, que trata da integridade e bem-estar de seus colaboradores e do total respeito pelas condições naturais e culturais das regiões que lhes dão suporte.

*Director de Sustentabilidade - Odebrecht Angola

 

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