Director Carlos Rosado de Carvalho

Economia e cultura viabilizam relação improvável

Economia e cultura viabilizam relação improvável

A responsabilidade social corporativa é uma filosofia empresarial que tem vindo a ganhar grande popularidade em todo o mundo e que consiste na construção de mecanismos de auto-regulação que permitem às empresas controlar e garantir o cumprimento eficiente, dentro do espírito da lei, das normas internacionais e dos padrões éticos.

E aproxima as organizações dos seus públicos, com benefícios para todos.

Economia e cultura são, à partida, duas realidades opostas e, muitas vezes, a economia é criticada por ser um entrave à visão e à criação artísticas. Todavia, o sistema económico parece ter encontrado uma forma de conciliar aquilo que parecia inconciliável.

Os projectos de responsabilidade social e os programas de mecenato que as empresas abraçam representam um exemplo de que a aliança é possível, e até desejável, entre os dois sectores.

Os gestores são responsáveis pelo cumprimento de metas dentro das suas organizações, mas também assumem compromissos com vista a alcançar benefícios para a sociedade. E existem muitas áreas onde estes podem esforçar- se para cumprir os objectivos organizacionais e, simultaneamente, beneficiar a sociedade.

Trata-se de um compromisso contínuo que as empresas assumem para desenvolver um comportamento ético e contribuir para o desenvolvimento económico, melhorando a qualidade de vida dos trabalhadores e suas famílias, bem como da comunidade local e da sociedade em geral. As empresas privadas têm cada vez mais uma intervenção no desenvolvimento da cultura, através do financiamento de projectos culturais.

A cultura integra já as actividades económicas de muitas empresas angolanas, que não renegam as suas responsabilidades, como meio de estabelecer uma presença activa na sociedade, acrescentando valor à actividade principal da instituição e criando uma vantagem competitiva no mercado.

E é cada vez mais necessário que as empresas entendam a aplicação destes conceitos como algo benéfico não só para a organização da empresa, como também para captar novos clientes, colaboradores e accionistas. Este posicionamento permite desenvolver uma relação próxima e duradoura com os seus clientes, oferecendo- lhes uma variedade de produtos e serviços que satisfaçam as suas necessidades.

Neste sentido, a prática de programas de responsabilidade social surge também como uma das acções de marketing que as empresas aplicam para promoverem e melhorarem a sua imagem.

Dessa forma, conseguem não só captar diferentes públicos (possíveis clientes) como melhoram o seu desempenho e o seu impacto na sociedade, tomando consciência da sua responsabilidade social.

As empresas reforçam também a sua imagem, o que lhes possibilita construir uma reputação sólida e alargar a sua influência social. E esta influência social permite construir uma relação mais próxima com todos aqueles que colaboram, de forma directa ou indirecta, para o seu funcionamento.

Responsabilidade social não é filantropia

O que distingue responsabilidade empresarial de filantropia corporativa é o envolvimento que as instituições colocam na implementação de políticas e programas que, mais do que apenas devolver os investimentos à comunidade, modificam as práticas de gestão.

A filantropia e o mecenato são altamente desejáveis e apreciados, mas, de facto, exigem um grau de envolvimento menor e, por conseguinte, têm menos importância do que o investimento realizado em responsabilidades éticas, legais e económicas.

RSE (responsabilidade social empresarial), RSC (responsabilidade social corporativa) ou CSR (em inglês corporate social responsibility) são siglas que se referem ao mesmo conceito, pese embora existam algumas diferenças entre eles: trata-se, no fundo, da obrigação de tomar medidas de gestão para proteger e melhorar o bem-estar da sociedade como um todo, e fazer alinhar o interesse global com os interesses da organização.

No passado fim-de-semana, realizou-se em Benguela o festival internacional dedicado ao rock, que contou com a participação de artistas da música nacional e outros provenientes do estrangeiro - África do Sul, Cuba e Cabo Verde. Na linda marginal do rio, o evento reuniu milhares de amantes da música e inseriu- se nas festividades do jovem mas dinâmico município da Catumbela.

Criar eventos como este, fora da capital, com o objectivo de aproximar a comunidade, com atractivos para satisfazer todas as faixas etárias e com acesso livre de qualquer custo para os espectadores, é uma tarefa árdua que foi possível apenas por este ser um programa integrado nos planos de responsabilidade social da Soba Catumbela, um dos mais importantes núcleos empresariais instalados na região.

Esta foi a terceira edição de um festival que é já uma referência no panorama musical, mas, acima de tudo tratou-se de um espaço ecléctico, com outros estilos musicais a conviver e interagir entre si e constituindo, na realidade, uma celebração da música e da cultura de um povo. Para além da vertente cultural, o evento criou uma plataforma para a empresa mentora do projecto poder integrar outras vertentes de responsabilidade social, reforçando o seu compromisso no desenvolvimento da comunidade local.

A parceria criada com a ACPA, uma associação que trabalha na área da prevenção do alcoolismo em Angola, permitiu realizar uma acção de angariação de fundos para a construção do Centro de Reabilitação e Tratamento do Alcoolismo em Angola (CRTAA), para além de possibilitar o desenvolvimento de actividades de promoção para um espírito de responsabilidade social, direccionado para a reciclagem, junto da população.

Num espaço próprio no local da festa, foram desenvolvidos jogos de solidariedade, doações voluntárias e recolha de latas e copos - num espírito de promoção para a educação ambiental.

Benefícios de longo prazo

As organizações que reconhecem a sua obrigação em serem socialmente responsáveis perante os seus públicos e que implementam práticas e projectos nesta área obtêm vários benefícios, por oposição a empresas que apenas vivem direccionadas para o lucro, sem qualquer sentido de responsabilidade face ao desenvolvimento adequado da sociedade.

O objectivo é direccionado para o longo prazo, e as empresas têm ganhos evidentes de reputação para as suas marcas e de crescimento do respeito dos seus clientes. Nenhum colaborador ou accionista gosta de ser associado a um negócio que não cumpra as regras legais, legítimas e dignas de fazer dinheiro.

É aí que entra a responsabilidade social corporativa. As empresas com espírito responsável também desempenham um papel importante no desenvolvimento local das comunidades em que se inserem, efectuando doações para projectos de beneficência e ajudando a elevar as condições de vida da população.

As organizações socialmente responsáveis têm como objectivo o lucro das suas operações, como todas as outras, mas não a qualquer custo: estes são realizados de uma forma que não prejudique o tecido social e ambiental do país onde operam e os seres humanos estão no topo da sua lista de preocupações.

Geralmente, as empresas socialmente responsáveis têm níveis de satisfação e motivação muito alta de empregados e, a longo prazo, acabam por reduzir os seus custos. São organizações com uma melhor reputação, o que significa que há uma imagem positiva da empresa aos olhos do público que se converte em fidelidade do cliente.

Também acabam por atrair cada vez mais investidores, aumentando assim o acesso das empresas ao capital. As organizações que realizam actividades de responsabilidade social corporativa recolhem daí diversos benefícios, pelo que devem esforçar- se para prestar a devida atenção a este conceito, implementando-o como uma prática contínua.

(*)Director comercial da Sociedade de Bebidas de Angola SOBA Catumbela (Cuca)

 

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