Director Carlos Rosado de Carvalho

Para quê uma nova refinaria em Angola? Para ser subsidiada?

Para quê uma nova refinaria em Angola? Para ser subsidiada?

Há muito se discute o tema da necessidade, ou não, de se construir uma nova refinaria, e as opiniões divergem pelos mais variados motivos - umas contra, outras a favor.

Neste caso, os meus amigos, velhos amigos de há muitos anos, com opiniões contrárias à minha que me perdoem, mas estou plenamente convencido de que não é possível rentabilizar uma refinaria em Angola nas actuais condições de mercado.

E não é possível, porque a sua sustentação e sobrevivência estão completamente dependentes de subsídios do Estado. Tal como, de resto, sempre aconteceu com a Refinaria de Luanda. O argumento mais utilizado pelos defensores da nova refinaria é que "somos um país produtor de petróleo, é inaceitável que importemos os produtos de que precisamos (gasolina, gasóleo, lubrificantes, asfalto e outros)", esgrimindo-se muitas vezes o exemplo da Arábia Saudita, que faz gala das suas próprias refinarias.

Não concordo, obviamente, com esse tipo de argumentos, pois os investimentos que se fazem para diversificar a economia devem ser rentáveis, isto é, devem pagar os seus custos de operação e permitir a amortização do capital investido com juros.

E, para isso, não interessa se o investimento é privado, de uma empresa pública ou do Estado, pois estamos a falar de investimentos na área económica e não na área social. Partindo do princípio de que a construção de uma refinaria em Angola custa, no mínimo, três vezes mais do que na Europa ou nos EUA, há alguns indicadores que devemos ter em conta:

Operar a refinaria e fazer a sua manutenção em Angola terá inevitavelmente um custo-país ainda superior.

Num mercado tecnicamente evoluído, uma refinaria trabalha com um mínimo de pessoal operativo.

Todo o trabalho de manutenção é feito por empresas especializadas.

O resultado é que precisa, no geral, de um quadro fixo de 50 pessoas.

Em Angola, terá algumas centenas de trabalhadores porque precisa em permanência de quadros técnicos, muitos dos quais expatriados.

A economia da refinação hoje, não se faz com a gasolina e o gasóleo, mas com os produtos mais leves, para utilizações químicas, farmacêuticas, perfumaria ou outras. São estes produtos que em larga medida financiam a refinação e lhe conferem sustentabilidade.

Caso contrário, estaríamos a admitir que as refinarias de que se fala para Angola não incluem nenhuma sofisticação para a produção de produtos de especialidade, logo seriam de viabilidade questionável.

Temos de nos lembrar de que, ao colocar 200 mil barris/dia na refinaria, o País perderia hoje 10 milhões USD/dia de exportações, o que significa que a refinaria teria de gerar no mínimo esse valor de retorno, considerando um valor acrescentado de zero.

A venda dos produtos obtidos na refinação, deduzida dos custos de produção e reembolso dos capitais investidos, não consegue fazê-lo. Dito de outra forma, com o valor da exportação do petróleo poderemos importar todos os produtos de que precisamos e ainda temos um saldo positivo, sem agravarmos a nossa dívida externa na ordem dos 10 mil milhões USD com o financiamento para a construção aos valores que hoje são referenciados.

Sabemos que um investimento como este é de grande interesse para empresas construtoras, de engenharia, de equipamentos, de fiscalização de obras, de certificação e formação ou de logística. E elas não estão por certo paradas à espera de que o negócio lhes bata à porta!

Cabe a nós decidir no interesse do País e alertar para as consequências de se construir um elefante branco que vai custar milhões a manter. O interesse para o País será ter combustíveis ao menor custo, e isso só é possível se continuarmos a importar os produtos e a dar atenção aos preços de importação.

Podemos, para isso, operar de diversas formas:

Vendendo o petróleo a uma empresa em troca de produtos refinados.

Pagando a uma refinaria no exterior para refinar o nosso petróleo, repatriando os produtos que precisamos e vendendo no mercado internacional o excedente.

Podemos também considerar a hipótese de comprar uma refinaria no exterior e não deixaria de ser "A NOSSA REFINARIA".

Muitas das refinarias europeias são detidas por empresas de diversos países, pois podem ser atractivas e responder a estratégias dessas empresas compradoras. Só para referência, registe-se que, nos últimos anos, algumas refinarias na Europa, com petroquímica e capacidade superior à proposta para Angola, foram transaccionadas a valores na casa dos 2 mil milhões USD.

Sublinhe-se que as refinarias vivem com margens muito limitadas, que variam entre 0,5 USD e os 5 USD por barril processado, podendo chegar a 10 USD em períodos curtos e muito bons. Considerando que, com bastante optimismo, pagaremos à Refinaria do Lobito 10 USD por barril/dia para processar o petróleo, ela obterá uma receita bruta de 700 milhões USD/ano, ou 2 milhões USD/dia.

Acontece que só o reembolso dos capitais investidos custa 1.000 milhões USD se reembolsado a dez anos, ao qual se juntam os juros desse capital e todos os custos de operação. Qualquer um gostaria de promover um projecto como a construção de uma refinaria, mas o que me preocupa é que os 'números não somam' e a conta é sempre negativa em desfavor do nosso País.

Não me parece sensato que deixemos para o futuro o peso de uma dívida que sangrará ainda mais a nossa economia e hipotecará a geração dos nossos filhos.

 

Arnaldo Lago de Carvalho - empresário

 

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