Director Carlos Rosado de Carvalho

"Se é preciso dinamizar ou diversificar a economia, comecemos pela cultura"

"Se é preciso dinamizar ou diversificar a economia, comecemos pela cultura"
Foto: Bruno Fonseca

Artista multidisciplinar, Kiluanji Kia Henda conta ao Expansão como retrataria a crise: uma tela em branco. Fala ainda do seu mais recente trabalho, "In the Days of a Dark Safari", e da importância da cultura para a diversificação da economia o País.

É um artista multidisciplinar, expressando-se através das Artes Visuais, do Teatro, da Música, entre outros. O que o leva a adoptar diferentes plataformas?

Ter trabalhado em diferentes disciplinas não partiu de uma decisão consciente, foi mais um acaso da vida, e não trabalhei em todas estas áreas como artista. No teatro, em Luanda, por exemplo, dediquei mais tempo na produção e iluminação de algumas peças, embora nos dois anos que vivi em Johannesburgo, no final da década de 90, o teatro fazia parte do currículo escolar. Foi uma experiência muito intensa e essencial para emergir na literatura anglófona, que possui uma riqueza imensa no universo da dramaturgia. Mas tanto o teatro, tal como a música, tornaram-se linguagens bastante úteis para o trabalho que faço hoje. É uma grande felicidade poder trabalhar no universo das artes plásticas, pois no final, todas estas linguagens não se perderam, mas foram transformadas.

A especialização num formato pode tornar-se limitadora?

De maneira alguma. Conheço artistas especializados em certas disciplinas tal como a pintura ou a representação, e para mim são artistas brilhantes, sem qualquer tipo de limitação. Costumo dizer que tudo o que fiz foi uma desculpa para chegar ao cinema. A nossa compreensão sobre o que é arte, felizmente, tem sido cada vez mais ampla. Existe uma maior promiscuidade, leia-se cumplicidade, entre as várias disciplinas. Hoje, nos espaços e eventos concebidos para as artes visuais, tem-se tornado cada vez mais comum apresentar-se cinema ou até mesmo documentário. Os meus trabalhos que mais têm circulado neste momento são as curta-metragens.

A semana passada, inaugurou a exposição "In the Days of a Dark Safari", em Lisboa (Portugal). Um trabalho de pesquisa histórica, fotografia, mas também de cinema. O que nos conta este trabalho?

Há alguns anos atrás fui convidado para fazer parte do projecto Palanca Parade. O projecto consistia basicamente em intervir sobre uma reprodução em fibra de uma Palanca em tamanho quase real. Confesso que na altura não achei um desafio tão interessante, e não mostrei muito entusiasmo. Mas com o tempo fui pensando que, em vez de intervir sobre a Palanca, poderia sim usá-la para um filme. O importante factor simbólico que a Palanca tem na nossa cultura contrasta com a sua verdadeira história, pois como sabemos todos, a Palanca foi quase extinguida durante a guerra civil. Isso levantou em mim várias questões sobre a nossa história, ou seja, a história que consideramos legitimas. Assim surgiu a ideia de realizar uma curta-metragem que foi apoiada pela Jahmek Arte Contemporânea e produzida pela Geração 80. Um dos locais mais importantes para produção deste projecto foi o Museu de História Natural. Este Museu representa bem a dimensão fictícia da história, pois encontramos animais empalhados e exibidos há 70 anos, com a pretensão de contar uma história que é supostamente natural.

Nesta série, uma Palanca Negra empalhada, recusa-se a ser documento histórico de um Museu para regressar ao passado, onde acredita "residir a sua glória", ou casa. Falta regressar ao passado e contar uma história que não a colonial?

Tal como disse o escritor jamaicano Marlon James, "não podemos confiar na História, pois a História tem uma agenda". Por outras palavras, a História foi, e é, muitas vezes manipulada consoante os interesses de quem a regista. Por isso, é de extrema importância que sejamos nós, angolanos, a investigar, a "escavar" o nosso passado, de forma a tentarmos encontrar a essência da nossa cultura, que foi em grande parte subvertida durante o processo de colonização. Eu sou um grande admirador da História, mas como artista não me limito simplesmente em tentar recuperar factos históricos, prefiro inventar a minha própria história e criar futuros possíveis, pois este exercício de deslocação temporal entre o passado e o futuro, mesmo que seja fantasioso, é legitimo nos campos da ficção.

O exercício da memória pode ainda recuperar uma identidade "real", em oposição ao "safari" que se costuma fazer pelo passado?

Por mais que tentemos fazer esse exercício da memória, é impossível recuperarmos uma identidade que se possa considerar autêntica ou "real". O paralelo que criei no filme entre a Palanca empalhada e o indivíduo colonizado, tem semelhanças, acima de tudo, na crueldade e na frieza de como o processo de aculturação foi levado a cabo durante o período colonial, do mesmo modo como matamos um animal para preservar a história. Toda a tentativa de reconstituirmos o que é parte da nossa memória, o nosso passado, será sempre susceptível de ser influenciado por uma narrativa fictícia. É preciso termos plena consciência disso, entendermos que não existem identidades autênticas, mas podemos sempre nós próprios construir uma versão do que acreditamos ter sido o nosso passado. A História nunca se limita somente em registar o passado, mas também cria uma interpretação dos diferentes eventos históricos. A arte faz este exercício da memória, podemos sempre aprender com ela, mesmo que não acreditemos absolutamente no seu conteúdo.

A narrativa cultural nacional é neocolonialista?

Toda tentativa de termos uma versão oficial da História, sem que haja espaço para questionamentos, dúvidas e debates, terá sempre uma índole neocolonialista. Essa narrativa cultural nacional com um tom neocolonialista, também está muito presente nos discursos dos movimentos nacionalistas que têm surgido por todo lado, até em sociedades supostamente civilizadas. O que perdemos quando não questionamos a História? Acho que não faria sentido nenhuma das disciplinas artísticas desde o teatro ao cinema, da música à pintura, se não existir um questionamento sobre a história. O artista não pode limitar-se a seguir uma agenda estabelecida. Entendo que a arte esteja mais conectada com o universo onírico, mais do que o político ou o social, mas não podemos esquecer a sua eficácia como ferramenta de intervenção para uma sociedade mais justa e equilibrada. Por isso, questionar a história significa também sermos livres para repensar sobre o nosso presente, sobre certos padrões que nos foram ensinados como sendo legítimos e, muitas vezes, damos conta que não fazem o menor sentido.

Se tivesse que retratar a crise económica através de um trabalho seu, como o faria?

Acho que uma tela em branco também seria o mais apropriado para retratar uma crise económica, tal como uma crise criativa (risos)... Mas como o artista sobrevive a todas as crises, criar algo sobre a crise é só deixar falar o nosso lado mais humano, ser um espelho perante aquilo que nos rodeia seria suficiente. Está tudo aí.

Pode a Cultura ajudar à diversificação da economia?

Existem vários exemplos pelo mundo de como um único museu ajudou a dinamizar uma cidade mesmo em termos económicos. Um dos casos mais conhecidos é Guggenheim de Bilbao, que alterou completamente a vida da cidade de forma positiva. Tudo o que vendemos é cultura, o objecto, desde o seu desenho à sua concepção. Por isso, se é preciso dinamizar ou diversificar a economia, comecemos então pela cultura. Por certo, a construção de uma identidade nacional também passa muito pela indústria. O que consumimos diz muito daquilo que somos como um colectivo, e o colectivo define aquilo ao que chamamos de cultura.

A crise económica teve algum impacto na sua carreia?

Sim, teve um impacto moderado. Foi importante nos últimos dez anos ter-me focado na internacionalização da minha carreira. Acho que um artista, independentemente da sua cor, religião ou nacionalidade, tem que investir na internacionalização da sua carreira, até por motivos que vão muito mais além da autonomia económica. Mas além do lado negativo, existe também um aspecto positivo em toda a crise (desculpem-me pelo meu excessivo optimismo), no caso da cultura em Angola, foi a queda dos preços no sector imobiliário. Há uns anos atrás, era quase impossível pensar em ter um espaço para trabalhar na cidade de Luanda, houve mesmo espaços culturais que desapareceram no crescimento impiedoso da cidade. Por exemplo, com a situação actual, o Elinga Teatro é capaz de sobreviver mais alguns anos, quem sabe. É de tamanha importância termos em conta que sem espaço não há cultura.

"É fundamental pensar em fundos para a criação"

Kiluanki Kia Henda nasceu em 1979 e é um autodidacta da nova geração de artistas nacionais. Multidisciplinar, já apresentou trabalhos em Veneza, Lisboa, Cidade do Cabo, Guangzhou (China), várias cidades brasileiras, México e muitas outras.

Quando questionado sobre o estado actual das artes no País, Kiluanji aponta que já "houve um avanço, sobretudo no que diz respeito à parte comercial da arte" e que "surgiram algumas galerias e marchands de arte, que são vitais também para o crescimento do movimento artístico". Considera, no entanto, que ainda "resta muito por fazer no que diz respeito às instituições sem fins lucrativos, que apoiem a arte não pelo seu valor comercial, mas sim pelo seu importante papel na dinâmica colectiva e o seu engajamento social". Com esse objectivo, Kiluanji Kia Henda integrou, em Janeiro deste ano, uma mostra independente de vário artistas no Hotel Globo, a terceira edição do Fuckin" Globo. "Nas três edições do Fuckin" Globo, tentamos chamar a atenção a um universo artístico que pode prevalecer acima dos interesses comerciais na sua forma mais primitiva. Seria fundamental pensar em fundos institucionais que permitissem ao artista ter mais tempo e meios para investigar e, quem sabe, mesmo para criação de novas obra", explica.

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