Director Carlos Rosado de Carvalho

A economia no jornalismo ou o jornalismo económico de Angola (I parte)

A economia no jornalismo ou o jornalismo económico de Angola (I parte)
Foto: César Magalhães

O jornalismo económico realiza-se na entrevista, no comentário e na reportagem mais do que na notícia ou na resenha.

Assistimos ao aumento do espaço e conteúdos do noticiário económico, em toda a media em Angola e, por isso, importa saber qual é o conceito de jornalismo económico que temos e qual tem sido a narrativa apresentada.
De acordo com Maria Jacobini (investigadora da Sociedade Brasileira de Jornalismo) "no seu conjunto, o jornalismo económico pode ser definido como uma "divulgação de factos e questões relacionadas com a economia e o sector financeiro". Entretanto, a observação mais significativa do conceito de jornalismo leva-nos a colocar em evidência o jornalismo económico como um tipo diferente do jornalismo, mais do que em qualquer outra especialidade temática - desportivo, cultural, político, etc. Porquê?
Por um lado, porque, não só única e exclusivamente reforça a dimensão informativa, mas principalmente valoriza a componente explicativa. Por isso, acreditamos que o jornalismo económico se realiza na entrevista, no comentário e na reportagem mais do que na notícia ou na resenha.
Por outro lado, o jornalismo económico estabelece uma relação com a lógica capitalista, ao olhar para a empresa de comunicação social cujo produto principal é a informação (olhemos para centrais de informação financeira como a Bloomberg e a Reuters). Se, para alguns, esta lógica pode afectar a credibilidade, pois coloca dúvidas sobre a veracidade e rigor da informação, outros autores acreditam que este factor em nada afecta a sua credibilidade, usando a afirmação dos conglomerados como uma prova do seu valor e credibilidade. Entretanto, temos para nós que o jornalismo económico está igualmente ao serviço do público, embora com um olhar sobre o ciclo económico de uma região, havendo uma separação entre a componente empresarial e a componente jornalística das empresas de comunicação social. Esta é a ética teleológica.


Narrativa, Media e Economia
Nos tempos que correm, estamos marcados de modo indelével pelo impacto das novas tecnologias na informação e comunicação (TIC) e este fenómeno interfere na produção, gerando aquilo que alguns sociólogos chamam de inflação informativa, ou seja, há um excesso de informação face à procura ou capacidade de consumo. Qualquer um de nós, hoje em dia, fruto das TIC, terá dificuldades em consumir no imediato o volume de oferta informativa que temos disponível, impondo-se cada vez mais uma rigorosa selecção da informação que consumimos.
Mas repito, nem sempre há essa capacidade de os destinatários consumirem, daí que haja uma selecção nalguns casos e, noutros, mesmo uma dificuldade de apreensão e de consumo, um clipping que geralmente privilegia as notícias de especialidade. Daí, então, que as pessoas ligadas às finanças e negócios tenham maior propensão para consumir matérias de índole económica e financeira, sem prejuízo de outras que possam gerar interesse e que interfiram muitas vezes na própria actividade profissional.
Num ambiente de concorrência atroz entre os meios de comunicação, importa perceber quais são aqueles que vingam. São aqueles que têm maior capacidade de gerar o agendamento (agenda-setting), influindo no espaço público, ou seja, aqueles que, tendo um facto, conseguem torná-lo noticioso e dominar a agenda pública. Para que uma matéria consiga dominar o espaço público deve conter em si os factores de noticiabilidade: factos relevantes ganham amplitude e consonância, explorando a proximidade geográfica e cultural. O facto não é independente, a acção do jornalista dá-lhe a projecção devida.
No entanto, há outros factores subjectivos que interferem na noticiabilidade: a organização jornalística; a linha editorial; o jornalista e as suas convicções, conhecimento sustentável das questões (no jornalismo especializado) e ideologia, etc.
Sobre os pressupostos enunciados acima, gostaria de destacar o jornalista, pois este imprime um olhar sobre os factos, determinando o interesse que estes possam ter ou não para o público. Embora se considere a existência de uma cadeia (repórter, redactor, editor, etc), a verdade prova-nos que certos factos poderão ter menos interesse, poderão ser menos apelativos que outros que merecem maior atenção. Os editores têm um peso importante na definição do que devemos ou não publicar, porque aqui é preciso fazer uma destrinça, que a notícia, não o facto em si, é veiculada com um certo conteúdo. O que nos coloca diante da questão seguinte: quais são os factos (ou o conteúdo) de interesse para o jornalismo económico.
Terá a ver necessariamente com a difusão, a interpretação dos factos ou temas de cariz económico e financeiro, assim como outras especialidades do jornalismo que se debruçam sobre assuntos específicos: jornalismo desportivo, jornalismo cultural, jornalismo político e jornalismo social. E, no jornalismo económico, encontramos a dicotomia entre a lógica mercantil/empresarial e a lógica comunicacional que procura desmistificar conceitos, medidas de política e fenómenos com impacto na vida das pessoas. No fundo, por exemplo, fazer com que as pessoas percebam o impacto da inflação nas suas vidas.
Mas interessa-nos sobretudo olhar para a lógica empresarial, pois torna a notícia num produto, e esta é a lógica que preside às agências de notícias económicas e financeiras (tipo Bloomberg e Reuters), cujo métier é produzir e vender notícias, e este é uma realidade pouco comum entre nós. De resto, no processo de reforma das empresas do sector público de comunicação social, não é descabido pensarmos que esta poderia ser uma das saídas empresariais para a agência ANGOP. O que notamos, entretanto, é que tenderemos a caminhar por aí incontestavelmente, na medida em que a informação cada vez mais é um factor de interesse nos mercados, determina preços e opções empresariais, condiciona e determina a lógica e os fluxos dos mercados.
Um dos elementos do sistema económico e financeiro que joga de forma directa com a informação é o Mercado de Capitais. Este funciona numa lógica da informação e transparência; informação sobre a economia, mas também sobre política e questões sociais. Todos sabemos o impacto que gera sobre os mercados uma eleição presidencial, por exemplo; a divulgação de alguns indicadores macroeconómicos, como taxas de câmbio e taxa de desemprego, os resultados financeiros das empresas mais significativas do País; etc.


Subsídios para a história
A informação económica deve reflectir o contexto. E, portanto, o jornalismo angolano é muito marcado por vários momentos, pois acompanha o contexto político do País: tivemos um jornalismo económico no período colonial com um pendor colonialista, porque obedecia a uma lógica de regime/de Estado colonial; seguiu-se-lhe o mono-partidarismo, onde o jornalismo seguia ou se adequava ao tipo de organização política do Estado de economia centralizada e planificada; por fim, é na economia de mercado que o jornalismo económico se realiza por excelência, e portanto nós sentimos esta viragem em Angola desde o final dos anos 1980.
O jornalismo económico, no Estado pós-colonial, começou a ganhar corpo desde o lançamento do SEF (Programa de Saneamento Económico e Financeiro), cuja implementação iniciou na segunda metade dos anos 80, mas que acabou por ser abandonado, por várias razões que não importa aqui aflorar, mas podem ser revistas nas obras de Jonuel Gonçalves. Num artigo intitulado "Angola 40 anos de Finanças Públicas", publicado na edição de Novembro de 2015 da revista Finanças Públicas, do Ministério das Finanças, o economista António da Cruz Lima considera este período como sendo "Adolescência Económica da República - 1985-1994", tendo como traços marcantes os seguintes:
"As finanças públicas de então viram desaparecer a taxa de câmbio fixa, os preços fixados subsidiados acima dos 90% e as isenções aduaneiras para as importações do Estado, enquanto a inflação atingia os 1491% ao ano. Nesta década da incerteza (...) a população concentrou-se na capital, fugindo aos horrores da guerra urbana. Luanda ditava o ritmo da inflação e do câmbio. Os programas eram muito curtos, indo dos 8-12 meses. Os orçamentos revistos a cada cinco meses". (LIMA, 2015).

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