Director Carlos Rosado de Carvalho

Verónica José: A mulher que transformou vidas a criar negócios em zonas de conflito

Verónica José: A mulher que transformou vidas a criar negócios em zonas de conflito
Foto: Lídia Onde

Há mais de duas décadas, Verónica José enfrentou a guerra para ajudar mulheres a desenvolveram pequenos negócios, tornando-se pioneira na concessão de microcrédito em Angola. Conheça a sua história e de outras mulheres, no dia que lhes é dedicado. Uma iniciativa da Sparknews, rede de jornais internacionais, que integra o Expansão. Ao longo do mês, veja como várias mulheres ajudaram a mudar vidas, no especial Dia da Mulher, que pode consultar no menu Iniciativas.

Verónica José tem um currículo invejável que se mistura com um percurso de activismo social. Nas últimas duas décadas, transformou a vida de milhares de angolanos, desde que decidiu dedicar-se a um projecto de microfinanças que deu os primeiros passos em 1999 e que, nas duas décadas de existência, já deu microcrédito a mais de 20.000 pessoas, a maioria mulheres.

Licenciada em Contabilidade e Auditoria, enfrentou a família para levar pequenos empréstimos ao interior do país, numa altura em que a guerra civil desaconselhava viagens. Enquanto milhões de pessoas fugiam para Luanda, capital de Angola, por ser a zona mais segura, Verónica andava pelas províncias a fornecer "ferramentas" de trabalho para que as mulheres pudessem pôr comida em casa. Os homens e rapazes engrossavam as fileiras das forças que se confrontavam. Verónica comandava um outro exército. O dos que ajudavam a criar e a desenvolver negócios, a partir de pequenas actividades informais.

O percurso de Verónica José no activismo social começou aos 19 anos. Em 1991, entrou para a organização não governamental Development Workshop (DW), como activista comunitária. Em 1995, a ONG DW decide fazer um estudo do mercado informal para entender a posição das mulheres neste sector. O trabalho tinha como alvo o mercado do pescado, no Sambizanga, paralelo ao Roque Santeiro, um dos maiores mercados africanos, localizado no subúrbio de Luanda.

É desenvolvido o programa de apoio às mulheres no mercado informal e nasce, assim, o primeiro programa de microcrédito, financiado pela embaixada francesa. Quinze mulheres participam na experiência piloto.

Vencer o cepticismo

"Lembro-me que as pessoas estavam cépticas. Diziam que era dinheiro perdido, porque as mulheres não iriam reembolsar", recorda. A experiência mostrou o contrário. Entre as vendedoras, o interesse aumentou e o grupo de clientes foi alargado, passando de 15 para 60 mulheres.

Com os resultados positivos, a ONG DW consegue outro financiamento, desta vez do governo britânico. Nasce então o Programa de Subsistência Sustentável (SLP), com o apoio de três ONG - a DW, a Care International e a Save the Children - que apoia famílias da periferia de Luanda.

Em 1999, uma especialista zimbabueana vem dar formação aos primeiros gestores do programa. Verónica José é a primeira a receber formação em microfinanças.

"Foram dias difíceis", reconhece a activista e empreendedora, detentora de uma pós-graduação em Gestão Estratégica de Recursos Humanos. Não se conhecia as pessoas e o risco estava sempre presente. Mas é nesta fase que o projecto deixa o asfalto da cidade e passa para as zonas suburbanas da capital. "Deixámos de actuar apenas no Roque Santeiro e envolvemos mais mercados informais nas zonas periurbanas", diz, orgulhosa.

Avançar para zona em guerra

Em finais de 2000, o Programa de Subsistência Sustentável chega ao Huambo, graças à determinação de Verónica. Mesmo sabendo que aquela era a zona mais crítica decide partir para o Planalto Central, a 600 quilómetros de Luanda, ignorando os conselhos de familiares e amigos. Angola vivia uma guerra intensa. Entre o cepticismo e a vontade de querer ajudar, aceita o desafio. Não se intimida e deixa os dois filhos menores entregues aos cuidados de um irmão e à cunhada, que viviam em casa dos seus pais.

"Foi um momento desafiante, por ser mulher e ir para uma zona de conflito", lembra a gestora.

As palavras do pai ressoam-lhe na cabeça: que não podia ir para o Huambo por causa da guerra, que a cidade estava toda destruída e sem infra-estruturas. Avisos repetidos por amigos que, antes da viagem, lhe ligaram a dizer para não ir. Mas Verónica estava determinada. Sabia que as pessoas precisavam da ajuda financeira da Kixi Crédito.

"Foi a maior aventura da minha vida. Tive de lutar contra a vontade de pessoas que me eram próximas para ir para uma terra onde a guerra tinha destruído tudo", revela. Para a dissuadirem diziam-lhe que, na região sul do País, as pessoas não tinham cultura de negócios e que não ia conseguir fazer nada.

Hoje reconhece que foi um período de grande tensão, mas o mais importante é que as comunidades no Huambo mostraram que sabiam fazer negócios e rentabilizar o dinheiro. A taxa de retorno chegou aos 90%.

Viveiro de negócios

Três anos depois, Verónica José regressa a Luanda com uma carteira de clientes que ultrapassa os 15 mil. No regresso do Huambo, é promovida a assistente de operações de crédito. Deixa de trabalhar directamente com os clientes e passa a integrar a administração, onde assume, há 10 anos, a gestão dos recursos humanos. A equipa cresce e o número de agências também.

Apesar de crescer na instituição, sente saudades dos tempos em que dava a cara e contactava as pessoas. "Essa é a minha essência, o meu DNA", justifica.

Quando olha para trás, Verónica tem consciência que transformar a iniciativa comunitária em viveiro de negócios foi um dos maiores desafios da sua vida. "Em Angola, não havia nenhuma instituição vocacionada para as microfinanças. Fomos os primeiros a acreditar nas pessoas e a afirmarmo-nos num mercado cada vez mais competitivo, com a entrada de novos operadores a conceder o microcrédito.

Tudo isto dá-lhe um sentimento de pertença e aguça o espírito de missão que abraçou quando há mais de 25 anos se lançou neste projecto. Já foi tentada a deixar a Kixi Crédito, mas chegou à conclusão que ajudar as pessoas vale mais do que qualquer tipo de remuneração. E uma certeza tem: em nenhum outro projecto encontra tanta satisfação e sentido de dever cumprido. É o que sente em cada abraço que recebe quando regressa ao terreno e encontra alguém a quem ajudou a mudar a vida.

Grupos solidários asseguram reembolso

A Kixi Crédito é uma instituição que concede microcrédito a pessoas que queiram iniciar ou desenvolver um negócio, mesmo que seja numa actividade informal, num montante máximo de um milhão de kwanzas (o equivalente a 3.900 EUR). Os montantes atribuídos e os períodos de reembolso dependem da capacidade que os clientes demonstrem na gestão do negócio.

"Temos dois tipos de clientes, nomeadamente os grupos solidários, que funcionam em rede auxiliando-se uns aos outros, e os individuais", revela Verónica José.

Em termos de compromissos, o cliente deve fazer a devolução do dinheiro e ter capacidade de desenvolver o negócio e melhorar a vida da comunidade.

"Trabalhamos com grupos solidários e criamos nas pessoas o espírito de entreajuda e confiança mútua", explica e exemplifica: "Se for um grupo de três interessados no crédito têm de ter garantia mútua, isto quer dizer que se um dos membros tiver dificuldades em pagar, os outros devem reembolsar o dinheiro e isso traz união à comunidade".

A instituição tem uma política de juros que não ultrapassa os 4% do valor emprestado e não financia negócios proibidos por lei, como é o caso das "kinguilas", ou seja cambistas de rua.

Partilhar no Facebook

Comentários

Destaques

ios Play Store Windows Store
 
×

Pesquise no i