Director Carlos Rosado de Carvalho

Coreia do Sul - Que país é este? Quem é este país?

Coreia do Sul - Que país é este? Quem é este país?

Regressei dia 30 de Abril de uma magnífica visita à República da Coreia (Coreia do Sul ou simplesmente Coreia), com a duração de uma semana (22 a 28 de Abril), a convite das autoridades diplomáticas deste país asiático em Angola, em nome do Korea Foundation, um Fundo Nacional vocacionado para fomentar a cooperação internacional em diferentes áreas, com vista a intensificar a abertura internacional do país e a dar a conhecer as suas experiências e realidades, negativas algumas, positivas na maior parte dos casos.

Estive integrado num grupo internacional de representantes de 17 países, intitulado "Distinguished Guests in Education", reitores e directores de Universidades e Institutos de Pesquisa da China, Espanha, Estados Unidos, África do Sul, Botsuana, Croácia, Belize, Colômbia, Nicarágua, Guatemala, Hungria, Jamaica, México, Paraguai, Uruguai, Vietname e Angola. As relações estabelecidas entre estes representantes proporcionaram troca de informação e pode representar oportunidades de relações futuras entre as diferentes instituições nacionais de educação.
A organização geral do programa e a realização das visitas às diferentes instituições do sistema educativo e de investigação do país foram absolutamente impecáveis na opinião de todos os convidados. Esta capacidade de fazer funcionar as coisas, em tempo e com elevada qualidade (o grupo de jovens intérpretes e acompanhantes foi de um esmero inultrapassável) está relacionada com a cultura da responsabilidade, humildade e eficiência características dos coreanos e que tão excelentes resultados têm dado na economia e na sociedade. Desde Universidades (Universidade Nacional de Seoul, com um orçamento anual para ensino e pesquisa de 3,5 mil milhões de USD) e Institutos de Pesquisa Avançada (de onde destaco o Korea Education and Reserch Information Service (cujo briefing nos informou sobre a introdução do E-Learning System desde a escola primária) e o New ICT Experience Centre (uma viagem extraordinária, com simuladores, ao mundo das novas tecnologias de informação e comunicação). Para mim, para a UCAN/CEIC a quem transmitirei esta experiência e as tremendas possibilidades de cooperação na educação e na investigação, foi absolutamente extraordinário, apesar das 12 horas de viagem (24 nos dois sentidos) a partir de Londres e da diferença de fusos (oito horas). Depois desta curta permanência fiquei, então, a entender as razões dos seus sucessos, em todas as frentes do desenvolvimento económico e do progresso social.
A Coreia do Sul é a quarta maior economia da Ásia e a décima primeira do mundo: PIB 1986 biliões (taxa média de crescimento em 2017 de 2,7%, taxa média de crescimento de 9,1% entre 1980 e 1993), PIB por habitante USD 39276 (USD 100 em 1963), sector primário com 2,7%, secundário com 39,8% e terciário com 57,5%, inflação 1,1%, coeficiente de Gini 30,2, taxa de desemprego 3,1%, força de trabalho 2,6% na agricultura, 39,2% na indústria e 58,2% nos serviços. Principais indústrias: electrónica, telecomunicações, produção de automóveis, produção de aço, produtos químicos, informática, construção naval e construção. Exportações USD 526720 milhões em 2016 para China, EUA, Japão, Arábia Saudita e Austrália (é a 7ª maior economia de exportação do mundo e as grandes empresas exportadoras são a Samsung, a Hyundai, a Daewoo e a Lucy Gold Star), dívida externa USD 436900 milhões. Moeda won sul-coreano 1 USD = 986 WON.
O processo de reconstrução do país logo a seguir ao final da guerra mundial 1939-1945 e à desocupação colonial do Japão, com uma moldura política bastante autoritária, mas porventura útil para os que haviam de ser as exigências de organização, disciplina, competitividade e competência, deu lugar, depois dos primeiros passos para a democracia representativa, ao que ficou conhecido na História Económica Mundial como o milagre sul-coreano (milagre do rio Han(1), como é conhecido no país, rio que atravessa a capital Seoul e que foi radicalmente transformada numa urbe moderna), cuja síntese pode ser dada pela afirmação de que a economia sul-coreana cresceu praticamente sem parar, de quase zero (tal o estado em que os japoneses, a segunda guerra mundial e a guerra da Coreia deixaram o país) para mais de 1 bilião de USD em menos de meio século.
O milagre do Rio Han, tal como foi explicado, refere-se ao acelerado crescimento económico movido pelas exportações, graças à rápida industrialização, avanço tecnológico, "boom educacional", acelerada urbanização (o país dispõe de uma elite de arquitectos imaginativos, competentes e comprometidos com o acasalamento tradição/modernidade nos fácies dos edifícios, pontes, aquedutos, autoestradas, museus, habitações, construção de arranha-céus), aumento exponencial dos padrões de vida (a taxa de pobreza extrema está avaliada em menos de 10%, valor justificado pelas sucessivas apostas na educação de qualidade que facilita a obtenção de emprego com remunerações aceitáveis e dentro de padrões mínimos de vida). O milagre sul-coreano refere-se ao período de 35 anos - entre 1961 e 1996 - que transformou o país numa das maiores e mais dinâmicas economias mundiais, sendo o seu modelo de crescimento/transformação/desenvolvimento - assente nas exportações, na competitividade e na produtividade - tomado como inspiração por muitas economias em desenvolvimento de África, mas sem resultados semelhantes, pela dificuldade em dar à tradição o papel de incentivação ao desenvolvimento e à integração cultural (conseguido por este país). A sua infraestrutura foi dizimada durante a guerra da Coreia e milhões de pessoas viviam em condição de pobreza extrema. Seoul, em menos de 40 anos, foi completamente transformada numa cidade global, ocupando o papel de um dos maiores centros de negócios, comércio e tecnologia do mundo.
A população total no final de 2016 era de 51,25 milhões de habitantes (a capital Seoul com praticamente 25%), sendo uma das mais homogéneas, étnica e linguisticamente, do mundo (a única minoria é uma pequena comunidade chinesa), com uma taxa de urbanização geral de 82%.
A Coreia do Sul apresenta excelentes indicadores sociais proporcionados pelo espectacular crescimento económico e industrial do passado entre 1970/1993 (tendo merecido o epíteto de "tigre asiático"), entretanto tornado sustentável pelas permanentes reformas realizadas e convenientemente transformado em desenvolvimento e progresso: IDH 0,877 (12º lugar no ranking mundial, do grupo de muito elevado desenvolvimento humano), a taxa de mortalidade infantil é uma das mais baixas do mundo (4 óbitos por cada mil nascidos vivos), a eficácia do sistema educacional, os serviços de saúde e os serviços de saneamento ambiental. A educação neste país é considerada como o principal aspecto/factor do seu desenvolvimento e progresso e a rapidez com que esse processo aconteceu e se instalou (tornando-se sustentável) confere-lhe um dos lugares cimeiros nos rankings internacionais (as suas Instituições de Ensino Universitário ocupam posições entre as 40 melhores mundiais. A educação é considerada pelo Governo como a primeira prioridade da sua função de preferência, porque compreendeu que a elevada competitividade que o país apresenta se deveu e deve a este importante factor de crescimento do país e da sua participação activa na globalização e no comércio internacional. A República da Coreia foi o primeiro país do mundo a fornecer banda larga em todas as suas escolas.
Eu bem que gostaria que o que acabo de escrever se referisse a Angola, com uma guerra de 27 anos, mas que não foi capaz de fazer o que a Coreia do Sul fez num período de tempo comparável (a paz já tem 16 anos). A educação (ou a falta dela) no meu País é dos piores entraves ao desenvolvimento. Não se pense que a diversificação, seja do que for (do tecido produtivo interno ou das exportações) se faz apenas com os investimentos e as infraestruturas. Enganado quem assim pensa.

(1) Expressão retirada do milagre do Reno que igualmente simboliza o renascimento económico da Alemanha após a quase completa destruição pós-segunda guerra mundial.

Alves da Rocha escreve quinzenalmente

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