Energia solar ganha escala e redesenha o sistema eléctrico nacional
Com investimentos que já ultrapassam os 700 milhões de dólares, Angola está a transformar a aposta solar num pilar estruturante do sector energético, articulando financiamento internacional, participação privada e complementaridade com a energia hídrica para reduzir custos, expandir a electrificação e reforçar a resiliência do sistema.
A estratégia solar em Angola deixou de ser apenas uma aposta tecnológica para se transfor mar num verdadeiro programa de investimento estruturante, envolvendo centenas de mi lhões de dólares, consórcios internacionais e uma lógica clara de complementaridade com a produção hídrica - que continua a ser a espinha dorsal do sistema eléctrico nacional. Já estão operacionais cerca de 400 MW de energia solar, que deve rão ser aumentados a médio prazo para cerca de 650 MW.
Do ponto de vista financeiro, os primeiros grandes projectos dão bem a dimensão do esforço em curso. O parque solar do Biópio, com cerca de 189 MW, representou um investimento superior a 426 milhões de dólares, enquanto o da Baía Farta, com 96 MW, custou cerca de 152 milhões de dólares . Em conjunto, estes dois projectos ultrapassam os 570 milhões de dólares, sendo financiados por uma combinação de crédito internacional - incluindo instituições como bancos de desenvolvimento - e garantias públicas .
A estes valores soma-se o restante programa dos sete parques solares, que deverá elevar o investimento global do pacote para bem acima dos 700 a 800 milhões de dólares, considerando a construção das centrais adicionais nas províncias do Huambo, Bié, Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico . Só o projecto do Luena, por exemplo, representa cerca de 39 milhões de dólares para uma central de 26,9 MW , enquanto iniciativas como o Quilemba (35 MW) acrescentam mais 79 milhões de dólares ao pipeline .
Projectos descentralizados
A estratégia não se limita, contudo, à produção centralizada. Em paralelo, o Executivo está a desenvolver uma componente descentralizada baseada em mini-redes e sistemas híbridos solares com baterias. Há projectos em curso que prevêem a electrificação de dezenas de municípios e mais de uma centena de comunidades através de soluções off-grid, com uma capacidade combinada estimada em cerca de 220 MW .
O exemplo mais emblemático desta abordagem foi a inauguração, em 2025, do maior parque solar off-grid da África Subsaariana, no leste do país, concebido para fornecer energia contínua a mais de 130 mil pessoas em zonas isoladas Mas talvez mais relevante do que os valores seja a arquitectura institucional e empresarial que está a sustentar esta trans formação.
O modelo adoptado por Angola assenta em consórcios internacionais, com forte presença de empresas estrangeiras, mas sempre com participação do Estado e de entidades públicas. Entre os principais actores destacam-se o grupo por tuguês MCA (M. Couto Alves), responsável pela engenharia, procurement e construção de grande parte dos parques solares, a norte-americana Sun Afri ca, que assegura financiamento, estruturação e gestão dos projectos e instituições financeiras internacionais como o Banco Mundial (via BIRD) e a Agência Francesa de Desenvolvimento, que suportam o financiamento.
A estas juntam-se as empresas públicas como a PRODEL (pro dução) e a RNT (transporte), que assumem a operação e a integração da energia na rede nacional, e surgem agora novos actores privados, como a Total Eren, a Sonangol e a Greentech, no caso do projecto de Quilemba Este modelo híbrido - público no controlo, mas privado na execução e financiamento - é já um ensaio claro do que poderá ser o futuro do sector eléctrico angolano, com maior abertura ao capital externo e partilha de risco.











