Receitas fiscais dos jogos crescem à custa das vítimas do azar
O número de jogadores compulsivos ou patológicos tende a aumentar com as dificuldades sociais e económicas das famílias, que perseguem renda extra no "azar" camuflado de sorte. O azar de milhares alimenta o negócio milionário das casas de apostas e casinos. O Estado, esse, recolhe o tributo alheiro ao problema real.
À sombra de uma árvore, uma cadeira azul e uma máquina de apostas de uma operadora numa mesa de plástico. À volta, homens de todas as idades fazem roda. Conversam sobre o início da temporada das ligas europeias, mas há um nervosismo que a conversa corriqueira, no meio de sorrisos contidos pela ansiedade, não disfarça. Uns assinalam em fichas de papel os palpites traduzidos em odds (probabilidades), calculadas em laboratórios equipados que processam milhares de operações matemáticas por segundo. Outros, mais sofisticados, fazem o mesmo no ecrã do telemóvel: a tela sobe, desce, sobe outra vez, é o ritual de quem recarrega a esperança falsa a cada instante. Todos convencidos de que desta vez é que é. É o jogo do azar camuflado de sorte.
Entre eles está o José Manuel (nome fictício). Técnico informático com emprego e uma renda que sempre lhe permitia pagar o básico. Desta vez não está na roda. Após dois anos inteiros de rotina fiel, foi acolhido pela Remar (Reabilitação de Marginalizados), uma organização não-governamental fundada em Angola em 1996 e que trabalha na reabilitação e na reinserção de toxicodependentes e alcoólicos. Esta poderá ser a maior sorte de José nos últimos anos, já que em Angola quase não existem centros de reabilitação especializados para apostadores patológicos.
A aposta entrou como entretenimento através de um amigo ainda em Viana, Luanda, onde até então vivia, com a esposa e a filha, que garantia a energia do dia com um "sorriso descontaminado da consciência adulta", revela ao Expansão, passando as mãos sobre os olhos na tentativa de travar o inevitável.
"Logo no primeiro ano ganhei 1 milhão Kz, após várias tentativas, e comecei a ver que seria uma forma de ter rendimento extra", diz, como que a justificar a entrada e permanência, que se interrompeu há sete meses, quando os familiares optaram por interná-lo no centro de dependentes da Remar em Viana. Depois da "sorte de principiante" em 2024, José trocou computadores, cabos de rede e roteadores por fichas e, mais tarde, por póquer em casinos online, o que lhe roubou o tempo e depois o emprego, e alimentou a consciência de abundância. "Vi que o póquer ia rapidamente mudar a minha condição financeira, podia ganhar milhões numa só tentativa, apostando o meu salário."
Naquela altura, o jovem de 24 anos estava certo de que tudo ia mudar. E mudou mesmo: primeiro refugiou-se no silêncio em todos os cantos da casa onde morava, nem mesmo o sorriso inocente da filha, que agora deverá ter três anos, rompeu o muro que os separava. Mais tarde, a casa começou a esvaziar-se de móveis para procurar "a tentativa" mágica. Com a casa vazia, apenas lhe restou o buraco negro...











