Inflação homóloga regressa a um dígito pela primeira vez desde 2015
É preciso recuar mais de uma década, até Maio de 2015, para encontrar uma taxa inferior aos 9,3% registados em Julho deste ano. A inflação volta, assim, a um dígito, travada por dois factores sob forte influência administrativa: os preços dos combustíveis, ainda subsidiados pelo Estado, e a gestão cambial do BNA, que tem contido a desvalorização do kwanza e, com ela, parte da pressão sobre os preços.
A inflação homóloga continua numa rota descendente e baixou 0,8 pontos percentuais para 9,3% em Julho face a Junho, fixando-se assim em um dígito pela primeira vez desde 2015, segundo cálculos do Expansão com base no Índice de Preços no Consumidor Nacional (IPCN), divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Trata-se da taxa homóloga mais baixa desde dos últimos 11 anos, seria necessário recuar 134 meses, concretamente até Maio de 2015 quanto a taxa de inflação homóloga se fixou-se em 8,9%, para encontrar um taxa de inflação mais baixa do que a registada em Julho deste ano.
Isto não significa que os preços estejam a baixar, pelo contrário, os preços continuam a subir, mais a um ritmo mais baixo do que no ano passado, que se traduz numa queda da taxa de inflação. Por exemplo, um cabaz de bens que custava 100.000 Kz em Julho de 2025 custaria agora cerca de 109.300 Kz, considerando a inflação homóloga de 9,3%.
Este ritmo da inflação em Angola contrasta com o cenário internacional, marcado por pressões energéticas persistentes, tensões geopolíticas e taxas de juro elevadas nas economias avançadas, factores que continuam a alimentar riscos inflacionistas globais. Na base da actual desaceleração da inflação estão, entre outros factores, mecanismos de controlo administrativo que têm limitado a transmissão de alguns choques externos para os preços internos.
Um dos principais é o controlo dos preços dos combustíveis, nomeadamente da gasolina e do gasóleo, que continuam a beneficiar de subvenções do Estado. Esta política impede que a subida dos preços dos derivados do petróleo nos mercados internacionais tenha um impacto directo e imediato sobre os preços praticados internamente. Mas este mecanismo tem custos significativos para as contas públicas e externas, tendo em conta que Angola importa cerca de 75% dos combustíveis consumidos internamente. Só para se ter uma ideia, no primeiro semestre deste ano, o País gastou mais na importação de combustíveis do que ganhou com o aumento das exportações de crude.
Assim, um aumento significativo dos preços dos combustíveis teria efeitos em cadeia sobre vários sectores da economia, desde os transportes à distribuição e à produção, acabando por pressionar a inflação. Esse impacto tem sido, até agora, amortecido pelo controlo dos preços e pelas subvenções.
Outro factor relevante é o controlo administrativo da taxa de câmbio do kwanza face ao dólar. A moeda nacional tem-se mantido em torno dos 912 Kz por dólar desde Dezembro de 2024. Embora o Banco Nacional de Angola (BNA) continue a defender que a taxa de câmbio resulta das forças do mercado, a estabilidade observada nos últimos meses ocorre apesar da persistência de um backlog no mercado cambial. Num regime de câmbio flexível, este desequilíbrio tenderia a traduzir-se numa maior depreciação do kwanza.
Assim, a combinação destes dois factores levanta, por isso, questões sobre a sustentabilidade da actual trajectória de desinflação, segundo especialistas. Coincidência ou não, o facto é que estes cenários ocorrem em períodos eleitorais, tal como aconteceu em 2022, que ficou marcado por uma apreciação da taxa de câmbio e por um movimento desinflacionista. No entanto, o BNA, que tem como missão garantir a estabilidade de preços, de forma a assegurar a preservação do....











