Recredit recuperou apenas 12% do crédito malparado do BPC
Conhecida como "banco mau", a Recredit foi criada em 2016 para gerir os activos tóxicos do BPC e para maximizar a recuperação do crédito que afundou o maior banco público. Calculadas a valores de 2013, por exemplo, as duas carteiras de malparado do BPC valiam 12.300 milhões USD, enquanto a valores de hoje valem apenas 1.300 milhões USD.
Desde que deu início à recuperação dos créditos malparados do Banco de Poupança e Crédito (BPC), a Recredit apenas recuperou 139,1 mil milhões Kz dos 1,2 biliões Kz que valiam as duas carteiras de crédito em incumprimento adquiridas ao banco público por 288,2 mil milhões Kz. Contas feitas, o "banco mau" do BPC apenas conseguiu resgatar 12% do valor total das carteiras, de acordo com cálculos do Expansão.
De acordo com o Balanço da Recuperação relativo a 2025, publicado no site da instituição, no ano passado foram recuperados quase 30,8 mil milhões Kz, superior aos 30,0 mil milhões que a Recredit tinha estabelecido como meta para o ano. Ao todo, a Recredit recebeu 476 processos para recuperar os 1,2 biliões Kz que valiam as duas carteiras de crédito do BPC.
O sector do comércio, com 74 processos de um total de 544,5 mil milhões Kz em incumprimento, é o sector que liderava o malparado das duas carteiras de activos tóxicos adquiridos pela Recredit ao maior banco público. Segue-se o sector da construção, com 38 processos e 218,2 mil milhões Kz em incumprimento e o sector da prestação de serviços, com 103 processos de um total de 148,4 mil milhões Kz em créditos malparados.
No final de 2025, um total de 235 processos estavam em negociação e 132 encontravam-se em contencioso, ou seja, em situação de litígio, o que significa que quase um terço dos créditos das duas carteiras do BPC estão ainda em conflito, totalizando 88,0 mil milhões Kz. Há que ter em conta que estas carteiras de crédito são relativas a anos em que o kwanza era mais robusto do que é hoje. Por exemplo, hoje, esses 88,0 mil milhões Kz são equivalentes a 96 milhões USD, mas em 2014 valiam cerca de 900 milhões USD.
Desde 2020, foram celebrados 67 novos contratos (acordos de pagamento), e foram liquidados um total de 41 processos desde que as carteiras foram adquiridas - a primeira entre Dezembro de 2017 e Agosto de 2018 por um total de 231,1 mil milhões Kz (a Recredit pagou ao BPC o valor facial da carteira de crédito em incumprimento há muito tempo, o que analistas admitem ter sido um erro), e a segunda em 2020, pagando 57,1 mil milhões Kz por uma carteira avaliada em 950,1 mil milhões Kz.
A Recredit procedeu ainda a um write-off (limpo dos livros) de um processo avaliado, contabilisticamente, em 3,0 mil milhões Kz, "por razões especificas", que não são reveladas no relatório. Apesar de ter conseguido resgatar 12% do objectivo para que foi criada, a comunicação institucional da Recredit tem passado mais por enaltecer a recuperação que foi feita face ao valor que pagou pelas duas carteiras, que no final de 2025 era equivalente a 48% dos 288,0 mil milhões Kz pagos ao BPC.
Contas feitas, dois terços do valor dos créditos recuperados foi feito através de dação, um acordo jurídico no qual o credor aceita receber uma prestação diferente da que foi originalmente combinada para quitar uma dívida. Em vez de pagar com o objecto ou valor inicial (geralmente dinheiro), o devedor entrega um bem como um imóvel ou uma viatura, por exemplo.
"Evidencia-se o esforço e desempenho da empresa a nível da rentabilidade do negócio, com enfâse para a recuperação por via de dação em cumprimento, perfazendo 64% do total recuperado, quando comparado com o total recuperado em numerário e compensação de créditos, correspondendo a 22% e 14%, respectivamente", revela o Balanço da Recuperação relativo a 2025. Conhecida como "banco mau", a Recredit foi criada em 2016 pelo Estado para gerir "exclusivamente" os activos tóxicos do BPC com novos procedimentos operacionais para avaliar créditos, maximizar a recuperação e minimizar os custos.
Entretanto, em Agosto de 2023, e contrariando indicações que o FMI foi dando ao longo dos anos, o Governo autorizou a Recredit a prestar serviços de cobrança de crédito à banca comercial privada, com o objectivo de contribuir para a estabilidade e crescimento do sistema financeiro, bem como o desenvolvimento da economia nacional.
É nesse sentido, que o então presidente do Conselho de Administração, Valter Barros, na mensagem que consta no relatório e contas de 2024, afirmava que o alargamento do âmbito de actuação deverá já ter efeitos concretos a partir de 2025. "Com o alargamento do âmbito de actuação, a Recredit manteve contactos com várias instituições financeiras bancárias e não bancárias para a prestação de serviço de recuperação de crédito e de dívidas, que deverão começar a produzir efeitos concretos no ano de 2025", sublinha.
Entretanto, em Outubro do ano passado, em entrevista ao jornal Economia & Finanças, Valter Barros revelou que a Recredit já rubricou acordos de confidencialidade com algumas instituições bancárias que terão mostrado interesse em entregar carteiras de malparado à instituição.











