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Gestão

Angola como mercado sustentável

EM ANÁLISE

No plano internacional, o ESG deixou de ser uma opção reputacional para se tornar um critério decisivo na alocação de capital. Investidores, bancos e outras instituições avaliam cada vez mais os riscos ambientais, sociais e de governação antes de financiarem um projecto e alocarem o seu capital. Esta tendência começa a reflectir-se em Angola...

Durante anos, a sustentabilidade em Angola foi associada sobretudo ao ambiente e à responsabilidade social. Hoje, o debate é mais amplo e exigente. O conceito de ESG - Ambiente, Social e Governação - começa a ser visto não apenas como uma tendência internacional, mas como um factor económico capaz de atrair investimento, acesso a financiamento e competitividade empresarial.

O ESG é uma realidade inquestionável em Angola, o desafio será perceber como e com que rapidez será adoptado pelo mercado para não perder competitividade. O ESG trata-se de um conjunto de princípios que orientam a actuação das empresas para além dos resultados e indicadores financeiros, avaliando como as instituições gerem questões ambientais, o impacto nas pessoas e a qualidade de gestão. Mais do que um conceito, é hoje uma ferramenta usada para medir riscos, reforçar a confiança e promover um crescimento sustentável a longo prazo.

No plano internacional, o ESG deixou de ser uma opção reputacional para se tornar um critério decisivo na alocação de capital. Investidores, bancos e outras instituições avaliam cada vez mais os riscos ambientais, sociais e de governação antes de financiarem um projecto e alocarem o seu capital. Esta tendência começa a reflectir-se em Angola, onde empresas que adoptam práticas alinhadas com os critérios ESG tendem a beneficiar de melhores condições de financiamento, maior credibilidade junto de investidores e instituições internacionais, bem como, a melhorar o seu posicionamento, tornando-o mais competitivo no acesso a novos mercados. No contexto nacional, os desafios são evidentes. A economia angolana continua fortemente dependente do sector petrolífero, o que levanta questões relevantes no plano ambiental, sobretudo num cenário global de transição energética e descarbonização.

Concomitantemente, persistem desafios sociais significativos, nomeadamente no acesso aos serviços básicos e na redução da pobreza, pilares fundamentais para um crescimento mais inclusivo e sustentável. Na verdade, segundo o KPMG CEO Outlook 2025, os CEOs destacam a complexidade da descarbonização das cadeias de abastecimento (33%) e os custos associados (40%) como os principais obstáculos.

Não obstante o enquadramento actual, Angola tem vindo a dar passos relevantes nesta matéria. Quase metade dos CEO em Angola (47%) afirma já ter integrado a sustentabilidade nos seus negócios, encarando-a como um factor essencial para o sucesso a longo prazo. Ainda assim, permanecem desafios, sobretudo na incorporação destes critérios nas decisões de investimento, sendo que apenas 60% em Angola indicam que estas práticas estão plenamente integradas (KPMG CEO Outlook 2025).

Actualmente, sente-se a exigência do mercado para a implementação das políticas alinhadas com os princípios ESG, quer a nível da pressão regulamentar com a publicação dos Princípios de Sustentabilidade pelo Conselho de Supervisores do Sistema Financeiro Angolano (Setembro de 2023), quer pelo lançamento da Agenda da ONU de 2015 até 2030, a qual desencadeou uma série de planos, agendas e políticas desenhadas para os vários contextos geográficos, inclusive Angola.

Verificou-se, igualmente, que o enquadramento regulatório tem vindo a evoluir, reflectindo uma maior atenção às matérias de sustentabilidade. Um exemplo recente é a Carta Circular n.º 04/2025 do Banco Nacional de Angola anunciada em Dezembro de 2025, que incentiva as instituições financeiras a reforçarem a divulgação da informação não financeira, nomeadamente através da elaboração de relatórios de sustentabilidade. Esta directiva estabelece orientações para o "Guia de Implementação do Princípio III", promovendo o desenvolvimento de parcerias estratégicas como forma de reforçar o conhecimento e a adopção de práticas sustentáveis no sector financeiro.

Além destes factores, em 2025, Angola publicou o seu segundo Relatório Nacional Voluntário sobre a implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável com o apoio das Nações Unidas, no qual foi instituída a Plataforma dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável. Neste relatório destacam-se os objectivos sociais, económicos e sustentáveis, pilares esses que vão de encontro aos objectivos do ESG.

É neste contexto que as oportunidades associadas ao ESG em Angola se revelam particularmente relevantes. A economia angolana continua significativamente dependente do sector petrolífero, que representa cerca de 30% do PIB, 65% das receitas do Estado, mais de 95% das exportações de bens, sendo acompanhado pelo sector mineiro, onde os diamantes assumem um papel central como segunda principal fonte de receitas externas.

Esta realidade coloca o país no centro do debate global sobre a sustentabilidade, na medida em que a transição energética e a pressão por cadeias de valor mais responsáveis podem afectar directamente estes sectores. Mais do que um risco, esta transformação representa uma oportunidade para Angola reposicionar a sua economia, apostando em sectores emergentes, promover uma exploração mais sustentável dos seus recursos naturais e atrair investimento alinhado com os critérios ESG.

A nota que gostaria de deixar é que o país dispõe de um potencial para diversificação económica, nomeadamente através do aproveitamento dos seus recursos minerais, do desenvolvimento da agricultura e da expansão de sectores não petrolíferos. A integração de princípios do ESG nestas áreas pode contribuir para aumentar a transparência, melhorar práticas ambientais, sociais e reforçar a confiança dos investidores. Factores esses cada vez mais determinantes na captação de capital internacional.

Assim, o ESG não deve ser visto apenas como uma exigência externa e numa perspectiva de compliance, mas como um instrumento estratégico para impulsionar o desenvolvimento sustentável em Angola, permitindo reduzir a dependência do petróleo e criar uma economia verde mais resiliente, diversificada e preparada para o futuro.

*Maria Dias, Audit Corporate Manager da KPMG Angola

Edição 871, sexta-feira, 10 de Abril de 2026

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