"A cultura da mão estendida tem de sair da cabeça das pessoas"
Com um percurso ligado ao cinema e ao audiovisual, o director-geral da ANICC explica os projectos que estão a ser implementados e defende a transformação do sector cultural em indústria criativa, numa lógica de mercado.
Acredito que muitos ainda não conhecem a ANICC - Agência Nacional das Indústrias Culturais e Criativas, nem os objetivos que levaram à sua criação, mas a inclusão da palavra "indústria" no próprio nome remete para a ideia de mercado, de negócio relacionado com as actividades criativas. Quais são as atribuições da ANICC?
A ANICC é um instituto público do Ministério da Cultura, criado para regular, fomentar e estabelecer as políticas para o cinema, a literatura, o artesanato, a gastronomia, a moda, e para todo um conjunto de artes criativas que podem alavancar e podem contribuir para o aumento das receitas, gerar rendimento para os artistas e criar emprego. Nós estamos a trabalhar há dois anos, ainda somos uma criança, sendo que a ANICC nasce da fusão do IACAM (Instituto Angolano do Cinema, Audiovisual e Multimédia) e do INIC (Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas).
Que balanço faz até ao momento?
Estamos a tentar pôr em andamento todo um conjunto de políticas para o sector, este é o nosso trabalho. A cultura, ou a indústria cultural e criativa, pode contribuir muito para as finanças públicas, para a geração de receitas, e ajudar a criar uma série de empregos. É transversal.
Quando se fala de diversificação da economia, que é um tema central para o País, pensa-se logo em agricultura, indústria transformadora. Mas normalmente não se considera a cultura, enquanto sector, como um elemento importante.
Sim, esta mentalidade de que a cultura tem de andar com a mão estendida, sempre a viver do Orçamento Geral do Estado, tem de sair da cabeça das pessoas. A nossa gastronomia, a moda - hoje já vemos pessoas vestidas com obras criadas pelos nossos estilistas - tem possibilidade de mostrar ao mundo aquilo que nós somos. E é isso que temos de fazer. As artes plásticas, como a pintura, se repararem, são as que mais valorizam em menos tempo. Se você faz hoje um quadro, daqui a um mês, dois meses ou daqui a um ano este quadro vale muitíssimo mais do que vale agora. Nós temos de incentivar isto.
É por isso que muitos endinheirados investem em arte?
Os bancos fazem isso, porque é património, são activos. E nós temos de começar a pensar dessa forma. Por exemplo, os nossos jogos tradicionais: por que razão, agora com as novas tecnologias, não podemos digitalizá-los e metê-los num mercado, em que você mete num tablet ou telefone, e pode jogar? Devemos incentivar e financiar todos esses jovens, todas essas pessoas. Nós temos, por exemplo, o cinema. Neste momento, é o que está mais à mão para poder financiar todas as outras actividades - não sei se é por ser cineasta, talvez seja um defeito profissional.











