A indústria das suspeitas e as armadilhas pré-eleitorais
Mesmo quando a disputa envolve diferentes candidatos oriundos da mesma força política governante, persistem divergências e contestação em torno do processo eleitoral. São sintomas que vêm caracterizando os últimos ciclos eleitorais e que, por vezes, acabam por resvalar em episódios de violência. Esta narrativa persistente, segundo a qual os africanos são inaptos e incapazes de conduzir processos eleitorais com lisura, conferindo menor credibilidade às instituições dos seus próprios países, continua a minar a imagem de África e dos africanos.
Na semana passada, o presidente eleito da Zâmbia, Hakainde Hichilema, foi reeleito para mais um mandato de cinco anos, envolvido em inquietações quanto à lisura e transparência do processo eleitoral, marcado por contestações e desconfianças da oposição, principalmente do seu principal opositor, Brian Mundubile. A oposição zambiana, em quase todos os pleitos realizados nos últimos anos, tem manifestado preocupações semelhantes, independentemente de quem seja o candidato do partido no poder.
Mesmo quando a disputa envolve diferentes candidatos oriundos da mesma força política governante, persistem divergências e contestação em torno do processo eleitoral. São sintomas que vêm caracterizando os últimos ciclos eleitorais e que, por vezes, acabam por resvalar em episódios de violência. Esta narrativa persistente, segundo a qual os africanos são inaptos e incapazes de conduzir processos eleitorais com lisura, conferindo menor credibilidade às instituições dos seus próprios países, continua a minar a imagem de África e dos africanos.
Em 2024, assistimos a um cenário semelhante em Moçambique, marcado por muita violência, que destruiu uma parte significativa da economia. Esse enredo de auto-armadilhas de alguns líderes políticos tende a generalizar-se. A tudo isso somam-se interesses escusos de algumas Organizações Não Governamentais patrocinadas pelo exterior que, longe de se distanciarem das narrativas políticas, fomentam uma indústria de suspeitas, criando tensões premeditadas, alimentando a instabilidade.
Algumas dessas armadilhas começam a dar sinais cada vez mais evidentes. Aqui em Angola, as recentes acusações da UNITA relacionadas com um caso que envolveu militantes desse partido e a Polícia Nacional, no Uíge, bem como determinadas informações veiculadas por uma ONG angolana com raízes nos Estados Unidos da América e que conta, igualmente, com o apoio financeiro de uma entidade daquele país, merecem ser analisadas com particular atenção.
Esse discurso ganha especial relevância neste contexto, sobretudo quando um meio de comunicação, neste caso a RTP África, veicula uma informação segundo a qual existe uma ameaça iminente da Rússia e da China aos interesses ocidentais no Corredor do Lobito.
Mais do que simples declarações isoladas, a convergência entre determinados discursos políticos, actos e informações produzidas por organizações, lideradas por angolanos, com ligações externas e a crescente disputa geopolítica em torno do Corredor do Lobito constituem indícios que não devem ser ignorados. É precisamente neste cenário que determinadas narrativas sobre alegadas ameaças externas devem ser examinadas com espírito crítico.
A alegação de que a Rússia e a China representam perigos iminentes cria percepções que podem servir para justificar determinadas posições políticas ou preparar a opinião pública para futuras iniciativas. Não se trata de afirmar, sem provas, que exista uma operação coordenada ou que todas essas iniciativas tenham necessariamente a mesma origem ou finalidade.
Trata-se, antes, de reconhecer a existência de sinais que justificam atenção, sobretudo quando estão em causa os interesses estratégicos de países que hoje, ontem e amanhã nos ajudam, nos ajudaram e nos ajudarão, como parceiros fundamentais em momentos críticos, particularmente num momento sensível que antecede as eleições de 2027.
É justamente por isso que devemos olhar para esses acontecimentos com prudência, espírito crítico e capacidade para distinguir entre informação, interpretação, premeditação e uma eventual guerra silenciosa. Só assim será possível compreender se estamos perante ameaças efectivas, disputas legítimas de interesses ou a construção deliberada de uma narrativa destinada a influenciar o processo político em período pré-eleitoral.












