A transição energética e a descarbonização em Angola
Para o mercado nacional, a sustentabilidade financeira de amanhã constrói-se com a conformidade técnica de hoje - os que liderarem a agenda da governação e os modelos de gestão focados nas matérias de sustentabilidade e do relato de dados ESG estarão certamente na vanguarda do futuro próximo de Angola.
O debate global em torno da agenda climática e da descarbonização tem trazido clareza sobre o quão urgente (e inevitável) é cuidar do meio ambiente para garantir maior equilíbrio social. Para Angola - um país cuja economia se tem vindo a desenvolver, nas últimas décadas, ancorada à indústria do petróleo - a transição energética representa, para além de um desafio ambiental, um estímulo a novas formas de gestão nas empresas e um convite à mudança de perspectiva por parte das entidades reguladoras.
O mercado global de capitais está cada vez mais orientado para um mercado "verde", razão pela qual o tecido empresarial precisa de acelerar a maturidade no que concerne à estratégia de sustentabilidade (por outras palavras, a estratégia "ESG" que envolve as componentes ambiental, social e de governação). Isto só é possível garantindo regulação e acesso a financiamento.
Existem vários relatórios internacionais que apresentam dados comparativos entre países no que respeita ao compromisso com a construção de um futuro sustentável e de carbono reduzido, ao desempenho ambiental, climático e de transição energética. São exemplos, o Green Future Index - onde Angola a ocupa o 59.º lugar (em 76) na mais recente classificação geral divulgada e o Envi - ronmental Performance Index (2026), e m q u e Angola a subiu da 124.º posição mundial, para a 96ª entre os 177 países avaliados
. Independentemente dos resultados numa escala comparativa com outros países, há um aspecto muito positivo em Angola - a matriz eléctrica nacional é maioritariamente proveniente de fontes renováveis, com a energia hídrica a representar mais de 60% da electricidade gerada no país. Isto contribui para que a emissão de CO2 percapita seja relativamente baixa (e, por isso, positiva).
Contudo, não significa um acesso pleno à energia eléctrica, sem assimetrias regionais e sem desafios. A Estratégia Nacional de Angola sobre Mudanças Climáticas (ENAC 2022-2035), aprovada pelo Decreto Presidencial N.º 216/22, representa um avanço na efectiva promoção de uma transição o energética equilibrada.
Ainda assim, este cenário não pode gerar uma falsa percepção de complacência no meio institucional. O verdadeiro desafio continua a residir na dependência estrutural do sector petrolífero e no designado "risco de activos obsoletos", assim como nos problemas provocados pela desflorestação e pela alteração do uso das terras. Inevitavelmente, as indústrias extrativas e as respectivas cadeias de fornecedores locais estão expostas ao escrutínio de investidores internacionais.
É precisamente aqui que se torna crucial o papel dos modelos de gestão empresarial e de governação (um dos pilares da sustentabilidade - o "G" de "ESG"). A atracção de investim ento e a confiança institucional dependem da transparência e da apresentação de dados rigorosos e auditáveis, integrados no reporte financeiro e que sigam normas e padrões de referência estabelecidos pelo mercado global ( como as normas IFRS Foundation).
Algumas empresas já começam a traçar os seus planos estratégicos rumo à descarbonização; o sector bancário começa a apresentar reportes e dados de sustentabilidade, mas este movimento carece de robustez. Se as pequenas e médias empresas não souberem medir e mitigar riscos e impactos ESG facilmente perdem espaço nas relações comerciais com os grandes operadores.
Para o mercado nacional, a sustentabilidade financeira de amanhã constrói-se com a conformidade técnica de hoje - os que liderarem a agenda da governação e os modelos de gestão focados nas matérias de sustentabilidade e do relato de dados ESG estarão certamente na vanguarda do futuro próximo de Angola.
Sofia Moreno, Country Manager PKF Angola














