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Opinião

Assédio no ambiente corporativo Risco jurídico, falha cultural ou cegueira sistémica?

CAPITAL HUMANO

Muitas empresas proclamam tolerância zero, mas, na prática, protegem perfis fortes ou produtivos que intimidam equipas, porque dão resultados imediatos. Quando isso acontece, a organização ensina, sem querer, que o desempenho compra imunidade - e o assédio torna-se cultura.

Durante muito tempo, o assédio no ambiente corporativo foi tratado como um problema individual: um "excesso de personalidade" de um superior, um conflito mal gerido ou um mal-entendido entre colegas. Hoje, essa leitura é insuficiente. O assédio - moral ou sexual - é, muitas vezes, um sintoma de falhas estruturais na cultura organizacional, com custos reais para o negócio. Para o meio empresarial, importa dizê-lo com clareza: assédio não é apenas um tema "humano" ou "social". É também risco jurídico, risco reputacional e risco de productividade.

Um ambiente onde se humilha, intimida ou "aperta" pelo medo pode até gerar resultados no curto prazo, mas cobra a factura em rotatividade, absentismo, baixa inovação e perda de confiança. Os dados internacionais ajudam a tirar o tema do campo das opiniões. Um estudo global da OIT, da Lloyd"s Register Foundation e da Gallup concluiu que cerca de 23% dos trabalhadores, em 121 países, já experienciaram alguma forma de violência ou assédio no trabalho.

A forma mais reportada foi a psicológica - incluindo insultos, ameaças, bullying e intimidação - com 17,9% a referirem esse tipo de experiência; 8,5% relataram violência física e 6,3% violência ou assédio sexual, sendo as mulheres particularmente expostas neste último ponto. (Fonte: Gallup/OIT, 2022) Há outro dado que interessa especialmente aos gestores: para a maioria das vítimas, não foi um episódio isolado.

No mesmo estudo, 61% disseram ter vivido essas experiências três ou mais vezes ao longo da vida profissional, o que indica padrões culturais repetidos, e não "casos pontuais". E metade das vítimas, globalmente, nem sequer chegou a partilhar o que viveu com canais formais; as razões mais comuns para o silêncio foram "perda de tempo" e "medo pela reputação". (Fonte: OIT, 2022)

O que está por trás disto?

Edgar Schein, referência incontornável em cultura organizacional, explica que as organizações operam em três níveis: o visível (políticas, códigos e processos), o declarado (valores que se afirmam) e o invisível (pressupostos básicos, crenças e medos). É neste nível invisível que o assédio ganha espaço - quando o sistema normaliza o abuso de poder, a humilhação como "método" ou a ideia de que "aqui sempre foi assim".

Chris Argyris acrescenta uma lente decisiva: a diferença entre o que as organizações dizem fazer e o que realmente fazem. Muitas empresas proclamam "tolerância zero", mas, na prática, protegem perfis "fortes" ou "produtivos" que intimidam equipas, porque dão resultados imediatos. Quando isso acontece, a organização ensina, sem querer, que o desempenho compra imunidade - e o assédio torna-se cultura. E há ainda uma realidade dura: quando o assédio vem de cima. Quando o próprio gestor, director ou administrador é o agressor, a assimetria de poder bloqueia a denúncia.

A vítima teme perder o emprego, ser afastada de oportunidades, ou sofrer represálias subtis. Nestas situações, a empresa precisa de ter mecanismos independentes - caso contrário, não há confiança, nem relato, nem correcção. Em Angola, esta conversa é particularmente urgente. O país vive a necessidade de atrair investimento, profissionalizar práticas de gestão e, ao mesmo tempo, alinharse com exigências globais de sustentabilidade, governação e responsabilidade social.

Não há governação credível onde se tolera abuso de poder. Angola ratificou a Convenção n.º 190 da OIT sobre violência e assédio no mundo do trabalho, um passo importante que sinaliza compromisso institucional. (Fonte: MAPTSS/OIT) O custo do assédio é, muitas vezes, invisível nos relatórios, mas evidente no chão da empresa: equipas que evitam reuniões, talentos que saem em silêncio, líderes médios que "desligam", colaboradores que deixam de propor ideias para não serem ridicularizados. Uma cultura assim não é apenas injusta - é ineficiente. Também importa lembrar que a exposição ao assédio tende a ser maior entre trabalhadores mais jovens.

No estudo global, a prevalência nos últimos cinco anos subiu para 23% entre os 15 e os 24 anos, com jovens mulheres a reportarem níveis particularmente elevados de assédio sexual. Isto significa que empresas que mantêm culturas permissivas ao abuso perderão talento mais rapidamente. Para além do risco humano, há o risco económico. Ambientes tóxicos elevam o absentismo, aumentam os custos de substituição de colaboradores e reduzem o envolvimento. Estudos sobre bullying no trabalho, conduzidos por Gary e Ruth Namie, demonstram que o impacto na produtividade é significativo e que culturas permissivas ao abuso têm maior probabilidade de enfrentar litígios. Como agir? Primeiro, políticas claras e aplicadas sem excepções. Segundo, canais de denúncia seguros, confidenciais e, se possível, independentes. Terceiro, formação obrigatória para líderes sobre abuso de poder e gestão ética. Quarto, avaliações regulares de clima organizacional. Quinto, responsabilização real, independentemente do cargo. Combater o assédio não é apenas cumprir a lei. É estratégia de governação, maturidade institucional e visão de futuro. Organizações que enfrentam o problema com transparência fortalecem a cultura, aumentam a confiança interna e protegem a reputação. Assédio não é um incidente isolado. É um espelho da cultura. E culturas saudáveis não se constroem no silêncio - constroem-se na responsabilidade, na coerência e na coragem de agir.

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