Comunicação oficial
Existe um equívoco estratégico que parece escapar aos arquitectos da comunicação oficial. A comunicação política não serve para convencer quem já está convencido, mas os outros
Comunicação oficial
A comunicação social pública está a cometer um erro enorme na forma como está a tratar as notícias do País. Quase tudo é "histórico", "estratégico", "transformador", "sem precedentes" ou "visionário". Os ministros raramente inauguram uma obra, lideram um momento histórico. O Presidente não visita um projecto, impulsiona uma nova etapa do desenvolvimento nacional. Uma estratégia pensada para outros tempos já passados, nada adaptada à nossa realidade actual.
O problema não está em comunicar as boas notícias. Pelo contrário. Um governo tem o dever de explicar o que faz, justificar as suas opções e mostrar os resultados alcançados. O erro surge quando a comunicação deixa de servir os factos para passar a servir uma narrativa previamente construída, onde os aspectos menos positivos desaparecem e onde o futuro ocupa sempre mais espaço do que o presente. Não há perguntas, não há dúvidas, está tudo perfeito.
Essa opção produz um efeito perverso. Em vez de reforçar a confiança, desgasta-a. Em vez de valorizar as realizações, tira-lhes importância. E, talvez o mais injusto, acaba por retirar valor às medidas que podem efectivamente ser importantes para o desenvolvimento do País. Quando tudo é apresentado como extraordinário, o extraordinário deixa de existir. Existe ainda um equívoco estratégico que parece escapar aos arquitectos da comunicação oficial.
A comunicação política não serve para convencer quem já está convencido, mas os outros. Os primeiros mantêm-se, independentemente dos factos. Quem decide eleições são, normalmente, os cidadãos que observam à distância, que comparam versões, que mantêm dúvidas e que ainda procuram razões para acreditar.
É precisamente esse eleitor mais exigente que reage mal ao excesso de propaganda. Não porque seja necessariamente da oposição. Nem sequer por uma questão ideológica. Reage porque sente que estão a tentar vender-lhe uma realidade mais cor-de-rosa do que aquela que encontra todos os dias.
Paradoxalmente, esta estratégia pode acabar por oferecer à oposição um presente inesperado. Não porque esta apresenta melhores soluções, mas porque a saturação comunicacional transforma qualquer discurso alternativo numa lufada de ar fresco. A rejeição nasce menos da política e mais da forma como a política é apresentada.
Talvez esteja na altura de descobrir uma ideia revolucionária: comunicar com normalidade. Explicar sucessos, reconhecer dificuldades, admitir atrasos, corrigir erros e celebrar resultados apenas quando eles existem. A credibilidade não nasce dos superlativos, nasce da coerência entre aquilo que se anuncia e aquilo que o cidadão consegue ver. Não se ganham eleições sem gerar confiança nos cidadãos. E a manter esta estratégia, a exclusão é cada vez maior...














