Contradições
O malparado parece ter decidido não acompanhar o optimismo geral. Talvez ainda não tenha recebido as últimas estatísticas, ou esteja à espera de confirmação por via administrativa.
Angola está a conseguir aquilo que poucas economias no mundo conseguem: melhorar quase todos os indicadores e, ao mesmo tempo, aumentar alguns dos problemas que essas melhorias deveriam resolver. O crescimento económico acelera, a inflação desacelera, os dólares reaparecem, os juros baixam e a liquidez aumenta. Em contrapartida, o crédito malparado volta a crescer. É quase como se a economia estivesse a ler um guião, e a realidade um outro completamente diferente.
Seria de esperar que empresas e famílias encontrassem mais facilidade para cumprir as suas obrigações num ambiente de maior crescimento económico e de condições monetárias menos apertadas. Mas o malparado parece ter decidido não acompanhar o optimismo geral. Talvez ainda não tenha recebido as últimas estatísticas, ou esteja à espera de confirmação por via administrativa.
Outra área onde os números revelam uma vitalidade invejável é a dos ajustes directos. Num país onde os discursos oficiais continuam recheados de referências à transparência, à concorrência e à boa gestão dos recursos públicos, os ajustes directos triplicam. É uma evolução notável!
Mas o fenómeno mais curioso dos últimos tempos está na memória. Ou, mais concretamente, na forma como ela desaparece quando convém. Parte da comunicação social e das redes sociais parece ter iniciado um interessante exercício de reabilitação da imagem de Isabel dos Santos. Aos poucos, multiplicam-se entrevistas, reportagens e comentários onde a empresária surge quase como um caso exemplar de sucesso empresarial, uma visionária incompreendida ou uma vítima das circunstâncias. Com o episódio da lata de Nido para aumentar o drama social.
Naturalmente, cada um é livre de rever opiniões. O problema surge quando a revisão se transforma em amnésia. Porque o percurso empresarial da antiga mulher mais rica de África não aconteceu do nada, não começou no comércio de ovos, como ela insiste. Houve participações estratégicas, concessões, privilégios e oportunidades que não estavam disponíveis para o comum dos empresários angolanos. E houve também episódios ligados a sectores como o dos diamantes ou da fundação da Unitel que parecem ter desaparecido de certas narrativas com uma rapidez surpreendente. No fundo, talvez tudo isto faça parte da mesma lógica nacional.
A economia melhora, mas alguns problemas agravam-se. Fala-se de transparência enquanto os ajustes directos disparam. Reescreve-se o passado enquanto se pede rigor na análise do presente. E assim seguimos, num país onde os indicadores económicos, a contratação pública e a memória colectiva parecem obedecer a regras próprias. Regras que desafiam a lógica, ignoram as expectativas e transformam as contradições numa das poucas actividades verdadeiramente sustentáveis da economia angolana.














