Jovens angolanos vivem de Promessas
A Geração Z angolana não quer caridade; quer oportunidade. O fim do ciclo de frustração depende de uma transição de uma economia de importação e compadrio para uma economia de produção e mérito. Só quando o Kwanza for reflexo do trabalho nacional, e não apenas do preço do petróleo, é que estes jovens poderão finalmente deixar de viver de promessas e começar a construir um legado.
A grande maioria dos jovens da Geração Z em Angola afirma que o que ganha não chega para viver como deseja. Em muitos casos, os seus gastos mensais superam largamente o saldo médio das suas contas.
Os jovens angolanos nascidos entre 1997 e 2010 anseiam por mudanças profundas face a um sistema económico que não responde aos desafios contemporâneos da sua geração. Com as eleições cada vez mais perto, eles enfrentam hoje uma inflação galopante acompanhada de uma precariedade acentuada.
As maiores preocupações da geração Z incluem o elevado custo de vida (a perda constante do poder de compra do Kwanza), o bem-estar mental e o desemprego (que atinge níveis alarmantes) assim como a falta de perspetivas de futuro.
Tudo isto tendo em conta que lhes tinha sido prometido um futuro próspero uma vez finda a guerra..., mas não foi isso que encontraram. Pelo contrário, depararam-se com uma sociedade composta por instituições que não os representam e que não fazem face às suas exigências. A Geração Z angolana foca-se hoje, numa mudança estrutural de paradigma e num sistema que lhes garanta dignidade financeira.
O poder de compra enfraquecido
O gasto com as rendas de casa elevadas, com os dados de internet que rapidamente se esgotam e com o consumo de bens básicos, acompanha a dificuldade que esta Geração Z tem em poupar kwanzas. Pouco adianta poupar se o dinheiro desvaloriza... por conseguinte, o jovem inclina-se tendencialmente para o gasto imediato digital.
As redes sociais são os meios cada vez mais usados por esta geração para adquirir produtos associados ao luxo como se consumir de um anestésico se tratasse. Muitos desses jovens consumidores frequentam o ensino superior (em universidades como a Agostinho Neto ou a Católica), e enfrentam um mercado de trabalho complexo e saturado.
O consumo supera a frustração em que vivem face a um futuro hipotecado. Este cenário de "consumo anestésico" não é um ato de irresponsabilidade, mas sim um grito de quem, não conseguindo planear o amanhã, decide sobreviver ao hoje A Geração Z em Angola herdou um país em paz militar, mas em guerra económica constante contra a desvalorização cambial. O fosso entre as competências adquiridas nas universidades e as exigências de um mercado de trabalho rígido e, muitas vezes, baseado no nepotismo empurra os jovens para as margens da economia formal.
A Geração Z angolana não quer caridade; quer oportunidade. O fim do ciclo de frustração depende de uma transição de uma economia de importação e compadrio para uma economia de produção e mérito. Só quando o Kwanza for reflexo do trabalho nacional, e não apenas do preço do petróleo, é que estes jovens poderão finalmente deixar de viver de promessas e começar a construir um legado.
*Marta Bickel, Professora na LAIS-British School of Angola













