Nem todas as empresas podem ser recuperadas
O verdadeiro desafio não está em recuperar empresas a qualquer custo, mas em criar mecanismos capazes de identificar rapidamente quais empresas ainda são economicamente viáveis e quais devem sair do mercado de forma organizada.
Em muitos processos de recuperação de crédito, o problema não está apenas no incumprimento da empresa, mas sobretudo na incapacidade de distinguir, em tempo útil, empresas viáveis de empresas inviáveis. Esta distinção é fundamental, porque tentar recuperar empresas sem viabilidade económica apenas prolonga perdas e acelera a destruição de valor.
Na prática, bancos, fornecedores, trabalhadores e o próprio Estado possuem interesses diferentes perante empresas em dificuldade financeira. Os bancos procuram recuperar o crédito e reduzir perdas, os fornecedores tentam preservar a liquidez, os trabalhadores defendem os seus postos de trabalho e o Estado procura assegurar a cobrança dos impostos.
O problema é que, muitas vezes, o sistema continua excessivamente focado em reacções tardias, negociações prolongadas e ausência de decisões rápidas sobre a real viabilidade económica da empresa. Quando uma empresa ainda possui capacidade operacional, mercado, activos funcionais e potencial de geração de receitas, a preservação da actividade pode representar a melhor solução para maximizar a recuperação do crédito e reduzir perdas para todos os intervenientes. Nestes casos, preservar o valor económico torna-se mais eficiente do que avançar imediatamente para liquidações precipitadas ou execuções desorganizadas.
Contudo, também existem empresas cuja deterioração financeira e operacional já atingiu um nível irreversível. Nestes casos, insistir artificialmente na manutenção da actividade não protege credores, não protege trabalhadores e não protege o mercado, apenas prolonga a destruição de valor e reduz ainda mais a capacidade de recuperação dos créditos e das obrigações fiscais.
O verdadeiro desafio não está em recuperar empresas a qualquer custo, mas em criar mecanismos capazes de identificar rapidamente quais empresas ainda são economicamente viáveis e quais devem sair do mercado de forma organizada. Sem esta distinção, o sistema torna-se ineficiente, as empresas viáveis acabam destruídas por falta de coordenação e demora nas decisões, enquanto as empresas inviáveis permanecem artificialmente activas, consumindo tempo, recursos e capacidade de recuperação.
A recuperação de crédito exige, acima de tudo, capacidade de decisão, análise económica e intervenção atempada, pois preservar empresas viáveis pode permitir recuperar mais valor, mas manter empresas inviáveis apenas adia perdas que, mais cedo ou mais tarde, acabarão por se tornar inevitáveis.
* Rui de Carvalho Afonso, Director geral AFRJ Consulting














