O petróleo abriu uma janela para reformas |Estará a governação a desperdiçá-la?
O aumento do preço do petróleo deve ser encarado como uma oportunidade para acelerar reformas estruturais, e não como uma razão para adiá-las. As janelas de oportunidade em política económica são raras. Quando são desperdiçadas, a história nos ensina que as mesmas reformas acabam por ser impostas mais tarde, geralmente em circunstâncias muito menos favoráveis
O agravamento do conflito no Médio Oriente voltou a impulsionar o preço do petróleo, aproximando o Brent dos 100 dólares por barril. No nosso último artigo sobre este tema (Expansão, edição 871), questionámos se esta evolução representava uma oportunidade ou apenas mais uma ilusão para a economia angolana.
A resposta continua a depender menos do preço do petróleo e mais das decisões de política económica por parte da governação. À escala global, um petróleo mais caro tende a alimentar a inflação. Perante este cenário, bancos centrais como a Reserva Federal dos Estados Unidos e o Banco Central Europeu poderão manter ou mesmo aumentar as taxas de juro.
Para economias emergentes, como Angola, isso significa maior custo do serviço da dívida externa e condições de financiamento menos favoráveis. Enquanto produtor de petróleo, Angola beneficia do aumento das receitas fiscais, criando uma folga orçamental que pode financiar políticas públicas importantes. Contudo, o país continua fortemente dependente das importações de bens de consumo, equipamentos e matérias-primas, o que reduz parte desses ganhos.
A estratégia de promoção da produção agrícola também enfrenta novos desafios. O aumento do preço do petróleo tem pressionado os custos dos fertilizantes nos mercados internacionais. Como já referimos neste espaço, dados do Banco Mundial mostram que o preço da ureia subiu de 472 para 725 dólares por tonelada métrica, enquanto o cloreto de potássio passou de 372,5 para 380,63 dólares.
Assim, parte dos benefícios do petróleo poderá ser anulada pelo aumento dos custos de produção devido ao encarecimento dos bens de consumo intermédio e de capital importados. O petróleo mais caro também encarece os combustíveis. Este facto é particularmente relevante para Angola, que continua a importar uma parcela significativa dos combustíveis que consome. Entre 2021 e 2025, o país gastou, em média, cerca de 3 056,9 milhões de dólares por ano nessas importações.
Apesar disso, em Junho apenas o preço do gasóleo foi revisto, de 400 para 420 kwanzas por litro, mantendo-se a gasolina nos 300 kwanzas. O OGE 2026 prevê uma redução de 39,8% dos subsídios aos combustíveis face a 2025. Porém, perante o aumento inesperado das receitas petrolíferas, é legítimo questionar se essa meta será cumprida. Paradoxalmente, este poderá ser o momento mais favorável para avançar com essa reforma. As receitas extraordinárias permitem reforçar os programas de apoio às famílias mais vulneráveis, mitigando os efeitos negativos da eliminação gradual dos subsídios.
Além disso, num contexto em que a população acompanha diariamente as notícias sobre a subida dos preços internacionais da energia devido à guerra, torna- -se mais fácil explicar a necessidade de ajustar os preços internos. Se esta oportunidade for desperdiçada, a reforma poderá ter de ser implementada mais tarde, em condições económicas e sociais menos favoráveis. Enquanto a política orçamental parece hesitar, a política monetária segue uma direção expansionista. Desde Janeiro, o Banco Nacional de Angola tem vindo a reduzir as principais taxas de juro.
Na reunião de Julho, o Comité de Política Monetária reduziu a taxa BNA de 17% para 15,75%, acompanhada por cortes equivalentes (1,25pp) nas taxas de cedência e absorção de liquidez. É verdade que a desaceleração da inflação abre espaço para uma política monetária menos restritiva. Em teoria, taxas de juro mais baixas reduzem o custo do crédito e estimulam o investimento privado. Na prática, porém, o impacto poderá ser limitado.
O próprio BNA reconhece que grande parte do crédito continua a ser concedida ao abrigo do Aviso n.º 10, enquanto os bancos mantêm fortes incentivos para investir em títulos da dívida pública, em detrimento do financiamento da economia real, tal como noticiou o Expansão na edição 882. Esta opção contrasta com a recomendação do FMI, que nas Perspectivas Económicas Regionais para a África Subsariana aconselhou os países com inflação controlada a manter uma postura cautelosa perante a elevada incerteza internacional.
Em Angola os dados do INE mostram uma tendência descendente, o que é positivo, mas ainda assim em Junho a variação homóloga foi de 10,11%. Um nível que deveria recomendar prudência, especialmente num contexto internacional marcado pela subida do preço do petróleo e por renovadas pressões inflacionistas. O aumento do preço do petróleo deve ser encarado como uma oportunidade para acelerar reformas estruturais, e não como uma razão para adiá- -las. As janelas de oportunidade em política económica são raras.
Quando são desperdiçadas, a história nos ensina que as mesmas reformas acabam por ser impostas mais tarde, geralmente em circunstâncias muito menos favoráveis. Enfim, o choque petrolífero criou uma janela de oportunidade para acelerar reformas económicas, o Executivo e o BNA precisam seguir na mesma direção.
Edição 887 do Expansão, sexta-feira, dia 31 de Julho de 2026














