Opulência
O problema começa quando a ostentação se transforma numa prioridade e as necessidades básicas dos cidadãos ficam permanentemente na lista de espera. Quando se prefere impressionar quem visita o País a melhorar a vida de quem nele vive. A beleza é importante, mas não substitui a utilidade. E a memória colectiva também se honra construindo um futuro mais digno para os vivos. Mas talvez estejamos a ser demasiado exigentes.
Há quem insista que o desenvolvimento de um país se mede pela qualidade de vida dos cidadãos. Uma ideia ultrapassada, certamente inventada por quem nunca assistiu à inauguração de um edifício monumental em Luanda. Falta água, falta luz, os transportes não funcionam, os salários não chegam para as despesas, os hospitais têm dificuldades e as escolas sobrevivem como podem. Mas, em compensação, temos edifícios magníficos. É uma espécie de política de compensação estética: já que não conseguimos melhorar a vida das pessoas, pelo menos melhoramos a paisagem.
Luanda é um exemplo desta irresistível paixão pela opulência. Temos uma Assembleia Nacional imponente, uma estação ferroviária do Bungo de fazer inveja, empreendimentos luxuosos na Chicala e, agora, um monumento de homenagem às vítimas dos conflitos políticos. Tudo muito bonito, tudo muito solene, tudo muito caro. E, sobretudo, tudo muito fotogénico. O cidadão pode continuar sem água em casa, mas tem monumentos que dão excelentes fotografias.
Depois vem a outra grande obra nacional: a inauguração. Horas de televisão pública em directo, discursos inflamados, elogios aos visionários que tiveram a ideia, convidados importantes e imagens cuidadosamente escolhidas para mostrar ao País e ao estrangeiro. É a consagração do betão como instrumento de propaganda e do ego como critério de investimento público. E o benefício concreto para o cidadão comum? Fica para uma próxima oportunidade.
Imagine-se o que seria aplicar parte destes recursos num sistema ferroviário suburbano que funcionasse, num metro de superfície que aliviasse o trânsito de Luanda, numa rede eléctrica capaz de fazer chegar a energia já produzida às casas e empresas, ou no abastecimento regular de água. Ou, imagine-se a ousadia, pagar melhor aos professores e médicos, para que voltassem a ser profissões suficientemente atractivas para reter os melhores e todos os cidadãos pudessem ter acesso a condições mínimas de educação e saúde, sem terem de gastar uma parte importante dos seus orçamentos recorrendo a privados.
É tudo uma questão de prioridades. De opções. E porque não dizê-lo, de ego de quem decide e que na verdade não tem nenhum destes constrangimentos. São investimentos menos vistosos, é verdade. Mas têm uma vantagem quase inconveniente: melhoram efectivamente a vida das pessoas. E isso, aparentemente, ainda não constitui motivo suficiente para grandes celebrações nem dá horas de transmissão televisiva. Ninguém contesta a importância de construir edifícios públicos dignos ou de modernizar a cidade.
O problema começa quando a ostentação se transforma numa prioridade e as necessidades básicas dos cidadãos ficam permanentemente na lista de espera. Quando se prefere impressionar quem visita o País a melhorar a vida de quem nele vive. A beleza é importante, mas não substitui a utilidade. E a memória colectiva também se honra construindo um futuro mais digno para os vivos. Mas talvez estejamos a ser demasiado exigentes.
Afinal, um cidadão pode não ter água, luz, transportes ou salário digno, mas sempre pode consolar-se contemplando as maravilhas arquitectónicas que o Estado lhe oferece. E ter um local digno para tirar as fotografias no dia de um acontecimento tão importante para a sua vida, como é o dia do casamento. Se os seguranças do local não complicarem...














