Refinaria de Cabinda
Talvez um dia a primeira gota de gasóleo chegue ao mercado. Quando chegar, será celebrada como vitória histórica. O detalhe de ter chegado anos depois do prometido será tratado como pormenor técnico. O tempo neste caso não é dinheiro, é apenas retórica.
Se Angola tivesse um campeonato de inaugurações prematuras, a Refinaria de Cabinda já estaria a disputar a final. Foi oficialmente inaugurada, com pompa, circunstância e retórica soberanista, mas seis meses e meio depois continua a não produzir uma única gota de gasóleo para o mercado. A concessão foi entregue há mais de seis anos e meio à Gemcorp, em parceria com a Sonangol. Seis anos e meio. Em qualquer outra geografia, esse período serviria para projectar, financiar, construir, testar, arrancar e começar a vender produto.
Em Angola, serviu para inaugurar antes do arranque e prolongar o "comis sionamento" até ao infinito administrativo. O investimento anunciado rondava os 473 milhões USD na primeira fase, depois corrigido para valores superiores a 900 milhões USD. A capacidade prometida: 30 mil barris por dia numa fase inicial, com ambição de chegar aos 60 mil. Tudo muito robusto no PowerPoint. Já no terreno, o único produto tangível continua a ser o optimismo oficial.
O argumento estratégico era irrepreensível: Angola importa cerca de 70% dos combustíveis que consome. Ou seja, exporta crude e importa gasóleo e gasolina - um modelo que, em teoria, a refinaria ajudaria a corrigir. A Refinaria de Cabinda seria o símbolo da nova era do downstream nacional. Seis meses e meio após a inauguração, o símbolo mantém-se, o gasóleo é que não.
A expressão "está em fase de testes" tornou-se um clássico. Em Angola, a fase de testes é uma categoria metafísica. Não tem prazo, não tem cronograma público transparente e não tem consequências visíveis. É um estado de espírito. A refinaria está sempre quase pronta - o que, no contexto nacional, significa estruturalmente atrasada. O mais fascinante é a normalização. Inaugurar antes de produzir deixou de causar escândalo, passou a ser procedimento. Primeiro corta-se a fita, depois trata-se da operacionalização. É uma inversão metodológica elegante: em vez de a obra justificar a cerimónia, é a cerimónia que tenta justificar a obra. A pergunta que fica não é técnica, é institucional: quem responde pelo calendário falhado? Quem assume publicamente os desvios? Quem explica porque mais de seis anos e meio depois da concessão e seis meses e meio após a inauguração ainda não há venda comercial? Perguntado aos responsáveis do sector, mantém-se um silêncio comprometedor e duas palavras apenas: "Em breve".
Talvez um dia a primeira gota de gasóleo chegue ao mercado. Quando chegar, será celebrada como vitória histórica. O detalhe de ter chegado anos depois do prometido será tratado como pormenor técnico. O tempo neste caso não é dinheiro, é apenas retórica.














