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Opinião

Tarifa-zero da China | Oportunidade para diversificar as exportações de Angola

MILAGRE OU MIRAGEM ?

O sucesso desta abertura comercial não será automático. Os países africanos que melhor se organizarem institucionalmente e criarem condições para aumentar a competitividade interna serão os maiores beneficiários desta abertura comercial. As notícias vindas da China mostram que o Quénia (com o abacate), a África do Sul (com maças), o Egipto (com laranjas), o Benin (com o abacaxi), o Ruanda (com pimentas secas) já estão a assumir a dianteira.

Desde 1 de Maio de 2026, a China passou a aplicar tarifa--zero às exportações provenientes de 53 países africanos, expandindo uma política que, em Dezembro de 2024, abrangia apenas 33 economias do continente. A medida representa um passo significativo no aprofundamento das relações económicas sino-africanas, mas também exige uma leitura estratégica por parte dos países beneficiários.

Nos dois últimos Fóruns Expansão Indústria, chamámos a atenção para o facto de a China ter anunciado a possibilidade de alguns países africanos, entre eles Angola, exportarem para o seu mercado com isenção de tarifas.

No último fórum, chegámos mesmo a desafiar o Executivo a assumir a liderança deste processo, uma vez que a história do desenvolvimento económico dos actuais países desenvolvidos e das economias emergentes, particularmente na Ásia, demonstra que quanto mais tarde uma economia inicia o processo de expansão e conquista de mercados externos, maior tende a ser a necessidade de apoio estatal.

Em África, e em Angola em particular, não faz sentido ignorar estas evidências empíricas nem tentar reinventar caminhos já amplamente testados pela experiência internacional.

A teoria económica ensina--nos que não existem "almoços grátis". Assim, é inevitável reconhecer que esta iniciativa não deixa de reforçar o chamado soft power da China em África, isto é, a sua capacidade de influência política e diplomática no continente. Num contexto internacional marcado por fortes tensões geopolíticas, desde o conflito entre Rússia e Ucrânia até à instabilidade no Médio Oriente, as grandes potências, sejam elas avançadas ou emergentes, procuram consolidar alianças e garantir apoio político nos principais fóruns de governação global.

É precisamente neste quadro que África ganha relevância estratégica para as grandes economias mundiais. Para Angola, esta iniciativa chinesa deve ser encarada como uma oportunidade para corrigir erros do passado. O País não conseguiu aproveitar plenamente programas semelhantes, como o AGOA, promovido pelos Estados Unidos. Uma das razões foi a ausência de uma estratégia pública clara de coordenação e estímulo à produção nacional.

Desta vez, o Executivo angolano precisa demonstrar que aprendeu a lição. Isso implica identificar rapidamente os sectores onde já existe capacidade produtiva instalada e produtores com experiência acumulada, capazes de responder à procura externa mediante incentivos adequados. O foco deve recair sobre produtos com potencial competitivo imediato, permitindo transformar esta abertura comercial numa verdadeira alavanca para as exportações.

Vista sob esta perspectiva, a tarifa-zero para exportações africanas à China pode representar para Angola o tão desejado "choque de exportação", semelhante ao que impulsionou a economia brasileira durante o período de reformas liderado por Fernando Henrique Cardoso, ou, em contexto histórico distinto, ao processo de transformação económica promovido por Otto von Bismarck na Alemanha do século XIX.

A evidência empírica mostra que os países que conseguiram transformar rapidamente as suas economias, como a própria China ou a Coreia do Sul, combinaram políticas de substituição de importações com estratégias agressivas de conquista de mercados externos através das exportações.

No caso angolano, um posicionamento estratégico permitiria diversificar as exportações e, consequentemente, as fontes de divisas. Entre os produtos com potencial destacam-se o café, o abacate, o gindungo, frutas tropicais, minerais e até produtos transformados, como os têxteis.

Esta iniciativa pode funcionar como um catalisador para atrair investimento directo estrangeiro, incluindo investimento chinês, destinado à produção local para exportação. Numa fase inicial, o foco seria o mercado chinês, podendo depois beneficiar da inserção de Angola na Zona de Comércio Livre Continental Africana e no espaço económico da SADC.

Contudo, o sucesso desta abertura comercial não será automático. Os países africanos que melhor se organizarem institucionalmente e criarem condições para aumentar a competitividade interna serão os maiores beneficiários desta abertura comercial. As notícias vindas da China mostram que o Quénia (com o abacate), a África do Sul (com maças), o Egipto (com laranjas), o Benin (com o abacaxi), o Ruanda (com pimentas secas) já estão a assumir a dianteira.

Importa reconhecer que por cá a chamada "paralisia por análise" continua a ser um obstáculo já que o excesso de estudos e diagnósticos acaba por atrasar decisões e impedir acções concretas. A janela de oportunidade está aberta, mas não permanecerá indefinidamente. Tal como aconteceu noutras iniciativas internacionais, nem todos os países africanos conseguirão transformar esta vantagem comercial em desenvolvimento económico sustentável. Para Angola, a diferença dependerá essencialmente da qualidade da liderança, da rapidez na execução e da capacidade de transformar visão estratégica em resultados concretos. Está lançado o desafio!

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