"O mercado chinês vai ficar mais aberto e vamos investir mais no estrangeiro"

"O mercado chinês vai ficar mais aberto e vamos investir mais no estrangeiro"
Foto: Quintiliano dos Santos

A China quer mais eficiência na aplicação dos financiamentos a Angola olhando para um desenvolvimento mais sustentável do País. A segunda maior economia do mundo está a "abrir-se" e espera maior seriedade dos EUA na "guerra comercial".

A China continua a ser o principal parceiro comercial de Angola. Como estão as relações entre os dois países?
A China e Angola são países que fazem parte da Ásia e África, mas, apesar de separados por uma longa distância geográfica, temos relações muito fortes pela amizade e também pela cooperação. Em 1983, os dois países estabeleceram relações diplomáticas e, desde aquele momento, as relações oficiais desenvolveram- se sem entraves e levaram a bons resultados que trouxeram benefícios para ambas as partes. Em 2010, Angola e China estabeleceram uma relação de parceria estratégica, elevando as relações para um novo patamar.

Em que é que isso se traduziu?
A cooperação e benefícios múltiplos deram um grande salto e ficaram na primeira fila das relações entre a China e os países de África. Neste momento, a China é o primeiro parceiro comercial de Angola e Angola é o segundo parceiro da China em África, em termos de comércio. No ano passado, o Presidente João Lourenço foi à China duas vezes, uma para participar, em Pequim, na Cimeira de FOCAC, e outra foi por ocasião da vista de Estado. Os dois chefes de Estado encontraram-se várias vezes e deram um rumo às nossas relações para o futuro. Abriram uma nova página nas nossas parcerias.

O que caracteriza essa nova página?
É um novo capítulo de cooperação, baseado no espírito de igualdade, benefício mútuo e desenvolvimento comum. Angola e China estão a fazer esforços conjuntos para promover os resultados da cimeira de FOCAC, promover a iniciativa de "Uma faixa, uma Rota" e a política angolana de diversificação económica. Os dois países estão a explorar as novas oportunidades da cooperação, para que tenham mais qualidade e eficácia. Um novo modelo para levar melhores resultados e benefícios para os dois povos.

Qual é a diferença, nesta nova fase de cooperação entre Angola e China, em relação ao modelo anterior?
Esta fase é diferente. Tanto a China como a Angola encontram-se em novas fases do seus desenvolvimento. Hoje, a economia chinesa já não cresce aos níveis do passado, o nosso objectivo é transformar o modelo de desenvolvimento de forma a tornar-se mais qualitativo. Para além de promover as exportações vamos também procurar ter um maior consumo no nosso mercado interno. Ou seja, ter mais importações e uma economia com maior renovação. O mercado chinês vai ficar mais aberto e faremos mais investimentos no estrangeiro, estreitaremos contactos com o resto do mundo.

É por isso que surge a iniciativa "Uma Faixa Uma Rota"?
Sim. O objectivo é ter uma maior conectividade entre a China e os países da Ásia, África e Europa. Actualmente, o Governo angolano está a promover políticas de diversificação da economia, para melhorar o ambiente e atrair mais investimento, de forma a transformar, de maneira mais eficaz, os importantes recursos naturais e a riqueza e, assim, oferecer mais emprego à população. Face a estas mudanças entre os dois países e à conjuntura internacional, a cooperação entre Angola e a China vai encontrar novas oportunidades para além das já existentes. Vamos procurar ter novos investimentos e iniciativas privadas e, assim, os dois países podem aproveitar as suas vantagens e trabalhar em conjunto. Faz sentido uma nova fase nas nossas relações bilaterais.

A China está satisfeita com a forma como Angola geriu ou gere os financiamentos vindos do seu país?
A cooperação na área de financiamentos é muito importante para a nossa cooperação. Desde 2002, ano em que Angola começou a reconstrução do País, Angola e a China estabeleceram um mecanismo de cooperação de financiamento, assente na oferta de linhas de crédito para a execução de obras de infraestruturas, muitas delas danificadas durante a guerra civil, mas que precisavam de ser recuperadas para a revitalização da economia e da sociedade. Dentro deste mecanismo de cooperação, as empresas chineses vieram a Angola para participar na reconstrução.

Tem ideia onde é que esse dinheiro foi aplicado?
Por exemplo, no caso dos caminhos- de-ferro, segundo as nossas estatísticas, foram recuperados e construídos 2.800 quilómetros. Fizemos 20 mil quilómetros de estrada e construímos, mais ou menos, 100 mil apartamentos, mais de 100 escolas e mais de 50 hospitais. Nesta cooperação financeira, as instituições da China tiveram uma boa cooperação com a parte angolana. Esta cooperação sempre seguiu o princípio do mercado, as normas e práticas internacionais. É uma cooperação financeira de carácter comercial.

O que quer dizer com isso?
As condições de oferta de crédito, a maneira de crédito e as garantias de crédito são tomadas em conjunto entre as instituições bancárias da China e a parte angolana. O Governo de Angola, de acordo com as necessidades do País, investimento e desenvolvimento nacional define os projectos e a sua dimensão.

Haverá áreas privilegiadas?
A China vai continuar a desenvolver a cooperação de financiamento com a parte angolana e vamos dar maior ênfase aos projectos com mais capacidade de retorno, que têm maior capacidade de trazer eficácia e eficiência económica para um desenvolvimento persistente. Os órgãos responsáveis dos dois países vão trabalhar, em conjunto, nos estudos, análise e diálogo para a acessibilidade e eficácia económica dos projectos.

Os novos financiamentos vão estar virados para projectos com rentabilidade?
Sim. Estes financiamentos são um bom recurso e têm de ser bem aproveitados para trazer benefícios maiores. Ou seja, para criarem mais-valias.

A China disponibilizou um financiamento de 2 mil milhões de USD, assinado no ano passado, aquando da visita de Estado do Presidente da República João Lourenço. Esse dinheiro já começou a ser disponibilizado?
Por parte da embaixada, temos contactos com o Governo de Angola e instituições bancárias da China. São as instituições bancárias da China e a parte angolana os actores desta cooperação. Se eles tiverem esta informação a embaixada também vai ter.

O seu país está em condições de sair destas linhas de crédito Estado a Estado e passar para financiamentos entre investidores privados?
As linhas de crédito funcionam num mecanismo entre as instituições bancárias da China e a parte angolana, que definem as suas condições e depois procuram os projectos. Este mecanismo é funcional. Mas, evidentemente, os dois governos vão dar uma orientação política e prestar apoio.

O Presidente João Lourenço anunciou que pretende acabar com os financiamentos pagos com petróleo. Algum do crédito que vem do seu país é nestas condições. Como é que a China olha para esta orientação do Governo angolano?
Não consigo avaliar as políticas do Governo angolano. Serão as instituições bancárias da China e a parte angolana a definir as condições, porque esta cooperação segue o princípio de mercado. Se o mercado permite o funcionamento dos meios, as linhas de crédito vão funcionar.

À luz das linhas de crédito existe algum valor pré-definido a disponibilizar a Angola?
Valor definido é já uma coisa de planificação. Mas estes financiamentos funcionam com as regras do mercado. Como já referi, as duas partes vão trabalhar de acordo com as necessidades, olhando para aqueles projectos que promovem mais-valias.

Quanto é que a China já emprestou a Angola?
Não tenho o número exacto. Mas são aqueles projectos de financiamento que ocorreram ao longo dos 15 anos. Acho que o mais importante são os resultados. E vamos continuar a trabalhar para dar maior eficácia a esta cooperação financeira.

Foto: Quintiliano dos Santos

"Não queremos guerra comercial, mas também não temos medo da guerra"

A China e os Estados Unidos da América estão a viver um momento tenso devido às relações comerciais. A China vai continuar a negociar?
Em Março do ano passado, o governo americano provocou, de forma unilateral, esta fricção comercial, que obrigou a China a tomar medidas para enfrentar estes desafios e defender e salvaguardar os interesses do País e do seu povo. A China sempre persistiu no princípio básico de resolver os conflitos, contradições e polémicas entre os dois países, através do diálogo e de negociações. Nesta filosofia, as duas partes desenvolveram várias rondas de negociações para estabilizar as relações económicas e comerciais bilaterais. Mas a parte americana, durante as negociações, sempre teve uma prática de "comer palavras". Ou seja, às vezes, diz as coisas, outras vezes não. Uma prática sem credibilidade. E, por isso, as duas partes não conseguiram ter um acordo.

Isso resolve-se com consensos?
As medidas de limitação do comércio tomadas pelos americanos em relação à China não prejudicam apenas a China, mas também os Estados Unidos. A China afirma, de forma determinante e clara, que nós não queremos guerra comercial, mas também não temos medo da guerra. Se a parte americana quer negociações de igual para igual, com respeito e igualdade, a porta chinesa está sempre aberta. Se a parte americana insistir no aumento da fricção comercial, nós nos opomos firmemente e vamos resistir até ao fim. Esta é a filosofia. A cooperação é a única escolha entre as partes.

Tem de haver respeito mútuo?
Se uma parte não respeitar a soberania e os interesses da outra parte e só quer exercer pressão para obter resultados favoráveis a si próprios estas negociações não vão ter sucesso. Esperamos que a parte americana abdique das práticas incorrectas e trabalhe na mesma direcção e, assim, os dois países conseguem reforçar a cooperação com igualdade e benefícios mútuos.

Os EUA estão a agir de má-fé?
A justiça faz-se com a comunidade internacional.

"É importante que os projectos combinem bem com os fundos"

Angola e a China assinaram, no ano passado, um acordo para o desenvolvimento do projecto "Uma faixa, uma rota". Em que é que isso se traduz concretamente?
A iniciativa "Uma faixa, uma rota" inclui cinco pontos: combinação de políticas, conectividade de infraestruturas, comércio livre, oferta de recursos financeiros e intercâmbio entre as populações. São estes pontos que vão ajudar as diferentes partes que participam nesta iniciativa a ter maior cooperação. E também vão ajudar a reforçar a cooperação entre a China e Angola. É este o espirito da iniciativa "Uma faixa, uma rota" e, por isso, a cooperação sino-angolana vai continuar a seguir este espírito e vai também aproveitar o palco desta iniciativa para trazer mais e melhores resultados.

Como é que Angola pode aproveitar esta iniciativa?
Angola e a China podem aproveitar as oportunidades que esta iniciativa traz para elevar e melhorar a qualidade da nossa cooperação. E especialmente aproveitar bem os bons resultados das infraestruturas para ajudar o desenvolvimento da indústria, agricultura, turismo, exploração das minas e, assim, conseguir a diversificação da economia angolana.

A iniciativa "Uma faixa, uma rota" tem o Fundo da Seda para financiar projectos. Angola já apresentou algum projecto a solicitar financiamento a este fundo?
É preciso maior conectividade das políticas e do intercâmbio das pessoas para se ter melhores conhecimentos sobre os recursos disponíveis e depois procurar utilizá-los o melhor possível. Existe o Fundo da Seda. É preciso maior divulgação de "Uma faixa, uma rota" para as sociedades angolana e chinesa, na base de projectos que apresentem, procurarem recursos. Mas é importante que os projectos de cooperação combinem bem com os fundos.

Qual é o valor disponível no Fundo da Seda e de onde vêm?
O Fundo da Seda tem recursos financeiros que vieram de diferentes partes da China. Parte é em reserva de moeda internacional e também capital das instituições bancárias da China, como o Banco de Desenvolvimento Nacional e o Banco de Importação e Exportação da China. E também uma empresa limitada de investimento da China. São várias as fontes de recursos para a criação deste fundo. O fundo foi estabelecido no final de 2014 e, em 2017, durante a primeira edição do "Fórum Faixa e Rota", a China fez uma nova injecção de recursos com o valor de 100 mil milhões de yuan. Actualmente, a dimensão deste fundo é de 40 mil milhões USD e 100 mil milhões de yuan. É um fundo que vai ajudar as partes que participam nesta iniciativa "Uma faixa, uma rota".

Qual é o interesse da China em desenvolver esta iniciativa?
Estamos a viver numa era de globalização. Tanto a China, como os países da Ásia, África, Europa e até da América Latina estão cada vez mais interligados e muitos países destas regiões têm uma grande necessidade de melhorar as suas infraestruturas, além de uma maior procura de trocas comerciais com o exterior e atracção de mais investimento. É esta a ideia da iniciativa "Uma faixa, uma rota". Tirarmos proveito das diferentes vantagens de cada um. Todos nós fazemos parte do planeta. É uma casa onde todos vivemos juntos e temos de ter cooperação.

Há um período definido para a implementação do projecto?
Não vemos as coisas desta maneira. É uma iniciativa chinesa, mas que pertence a todo o mundo. Precisamos que, passo a passo, todos os países consigam ter mais conhecimento sobre esta iniciativa e, assim, vamos ter mais cooperação entre uns e outros, fazendo com que esta iniciativa ande para a frente e traga mais benefícios para todos.

Qual é o futuro das relações entre Angola e a China?
Vamos ter um futuro brilhante. São dois países amigos, irmãos. São parceiros naturais, porque, apesar de estarmos distantes, temos vantagens que têm um carácter complementar. Angola encontra-se numa fase muito importante do seu desenvolvimento. A China vai acompanhar e trabalhar em conjunto com o governo e parceiros empresariais. Temos um grande potencial que vale a pena explorar. A China tem muita vontade de trabalhar com Angola. Um País rico com potencial, mas precisamos de trabalhar tanto da parte chinesa como a angolana para procurar soluções para uma cooperação que contribua para o desenvolvimento dos dois países, com benefício para os dois povos.

Ao serviço da diplomacia

Quintiliano dos Santos

Gong Tao nasceu em 1970 e é mestre em economia. Desempenhou várias funções no governo chinês, onde ingressou na década de 1990 como funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China.

Passou pelo departamento para a Europa Ocidental do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, foi terceiro secretário da Embaixada da China em Portugal, chefe da divisão adjunto do departamento para a Europa Ocidental do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, conselheiro da embaixada da China no Brasil e, em Portugal, conselheiro do departamento para a América Latina e Caribe e director adjunto do Departamento para a Europa do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China.

No ano passado, foi nomeado embaixador extraordinário e plenipotenciário da República Popular da China na República de Angola. É casado e pai de um filho.

(entrevista publicada na edição edição 529 do Expansão, de sexta-feira, dia 21 de Junho de 2019, disponível em papel ou versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui)

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