"Tenho curiosidade em saber como vão receber o livro"

"Tenho curiosidade em saber como vão receber o livro"
Foto: D.R.

Orlando Muhongo vai lançar o seu livro "Os Angolanos que Libertaram Mandela - A desconstrução de um Mito" em Portugal, na próxima quinta-feira, dia 15. Segue-se o lançamento no Brasil desta obra que gerou discussão quando foi lançada em Luanda.

Como surgiu a possibilidade de editar em Portugal?
Sempre foi minha intenção expandir este livro para outros universos de leitores, inclusive traduzi-lo em outros idiomas. Enviei à Chiado Books as quatro obras que tenho até ao momento, nomeadamente: A Arte de Sentir, Maresia, Os Angolanos que Libertaram Mandela - A desconstrução de um Mito e O Impacto das Telenovelas Brasileiras nos Luandenses. Em resposta, a editora considerou que as quatro obras estavam em condições de serem publicadas com a sua chancela, no entanto, o seu principal interesse recaiu para o ensaio Os Angolanos que Libertaram Mandela - A desconstrução de um Mito, tendo a manifestação de interesse sido reforçada com a remessa de uma proposta de um contrato para publicação.

Quais são as expectativas para este lançamento naquele país?
Resume-se a um misto de realismo e curiosidade. Realista porque tenho a plena consciência de que não sou uma pessoa conhecida em Portugal e não foi feita nenhum tipo de campanha de marketing nos media locais. Vai ser um lançamento simples e singelo. Por outro lado, o facto do livro ser distribuído em Portugal e no Brasil, gera em mim uma curiosidade sobre a forma como os leitores receberão a obra.

O que o levou a escrever esse livro?
Tal como exprimo na nota introdutória a constatação de que Angola (seu povo, seus líderes e seus heróis) foram literalmente excluídos da narrativa histórica sobre as razões que estiveram na base do derrube do Apartheid e da libertação de Nelson Mandela, assim como da emancipação dos povos da África Austral, narrativas estas profundamente influenciadas pela política e pelos interesses do "mundo" anglo-saxónico, que dominam quase todas as fontes de informação do planeta, geraram no seio da minha tamanha pequenez, um profundo sentimento de indignação. Havia que acrescentar outros factos históricos à versão "oficial" dos acontecimentos. E como tal, é uma obra de reflexão que, não pretendendo esgotar o tema que aborda.

Qual foi a metodologia utilizada?
O livro Os Angolanos que Libertaram Mandela - A desconstrução de um Mito, é um ensaio. E como tal, é uma obra de reflexão em que não pretendendo esgotar o tema, caracteriza- se como sendo um livro opinativo, em que para sustentar algumas das linhas de pensamento nele defendidas ou referidas, faço o cruzamento com várias fontes de informação angolanas, cubanas, sul-africanas e ocidentais. Uso algumas ferramentas típicas da investigação científica, mas este livro deve ser visto como um ensaio.

Qual a mensagem que pretendia passar?
Em várias ocasiões históricas, é fácil perceber o quanto Angola foi, e ainda tem sido, vítima da grande frente do expansionismo capitalista, nas entranhas de uma África marcada por bases Marxistas-leninistas (ou pelo menos algo que se parecia com isso). Esta confrontação ideológica formada pela aliança Estados Unidos da América/ Europa Ocidental contra a antiga URSS e aliados do então terceiro mundo, cujo resultado acabou por favorecer a aliança ocidental, que viu a dissolução da URSS e a apropriação e exploração dos recursos minerais sul-africanos por interesses dos vencedores, levou à instauração de uma narrativa, que designo como Pop-ideológica, da história e dos factos, que transformou Nelson Mandela num "semideus", quase que numa divindade que se libertou a si próprio da prisão por meio de palavras bonitas e decisões milagrosas, um governador supremo do continente africano.

Esse é um pensamento diferente do discurso oficial...
Esta narrativa Pop-Ideológica instaurada por um paradigma que se fez dominante, ignorou todo um processo de construção de um personagem que convinha aos interesses económicos ocidentais e, fundamentalmente, esta narrativa eliminou dos factos históricos por si difundidos, o papel decisivo desempenhado pelo povo angolano. É assim que, a mensagem que pretendo passar é que, ao contrário do que foi sendo difundido e veiculado desde a última década do século XX, foi no território angolano que se definiu o fim do Apartheid e a libertação de Nelson Mandela. A defesa desta tese constitui a essência do referido Ensaio.

Quando foi lançado do em Luanda?
A "primeira edição" deste livro foi lançado em Luanda, em Dezembro de 2016 com a chancela da Mayamba Editora e com o patrocínio da Fundação Sindica Dokolo, mais concretamente, com o intermédio da Trienal de Luanda.

Que análise faz do impacto que teve em Angola?
Posso afirmar que também aqui houve um misto de percepções. Por um lado, em Luanda, estavam alguns dos "devotos" ferrenhos de Mandela que, se por um lado concordavam com os aspectos históricos defendidos pelo ensaio, por outro lado, "não admitiam" que o mesmo fizesse críticas contra Mandela, ao ponto de algumas figuras bem posicionadas na nossa sociedade, se terem demarcado da cerimónia de lançamento, outras manifestaram reservas quanto ao título do livro e evitaram, e ainda evitam, abordar publicamente sobre a tese nele contida, houve inclusive quem tivesse afirmado nas redes sociais que terei recebido dinheiro do partido MPLA, para a produção do referido trabalho. Mas, por outro lado, tive das maiores, senão a maior "enchente" em acto de lançamento de livros, onde estiveram muitas entidades da nossa sociedade, algumas pessoas próximas que residem em França, aperceberam- se do lançamento do livro através dos canais de televisão.

Que outras obras está a preparar?
Tenho já em paginação um texto de opinião sobre "A Identidade Angolana na era da Globalização e o papel dos Órgãos de Comunicação Social", que pretendo publicar sob a forma de um pequeno livro. Tenho em revisão um livro de crónicas autobiográficas. Estou também em fase de pesquisa com vista à produção de mais um ensaio, que pretendo iniciar em 2020, e tenho outras ideias em mente.


Um percurso com quatro livros publicados

Orlando Victor Muhongo, nascido em 1982, em Cangola, município de Alto Kauale,província do Uíge. É autor de quatro títulos, dois livros de poesia, A Arte de Sentir (2008) e Maresia (2014), de uma obra de cariz científico sobre O Impacto das Telenovelas Brasileiras nos Luandenses (2017), tendo publicado em 2016 a 1.ª Edição do Ensaio sobre Os Angolanos que Libertaram Mandela - A Desconstrução de um Mito. Em 2004 foi vencedor de um concurso de poesia sobre a Paz em Angola, organizado pela ex-Liga Africana. É licenciado em Relações Internacionais pela Universidade Privada de Angola, Mestre em Relações Interculturais pela Universidade Aberta (Portugal), Pós-Graduado em Direito das Migrações pela Universidade Autónoma de Lisboa.

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