Porque é que o senhor administrador quer aprender inglês?
Se quisermos aprender inglês, podemos fazê-lo. Mas se não o fizermos, não seremos menos por isso. E se estivermos a aprender inglês: devemos usar o nosso conhecimento da língua à vontade. Se se rirem de nós, o problema está em quem ri, não está connosco. Continuemos o nosso caminho, aprendendo o que nos dá prazer e confiando nas nossas capacidades.
Há pessoas extremamente capacitadas, com valências mais do que comprovadas, em cargos de muita responsabilidade, que sentem que devem aprender a falar bem o inglês, e que não o fazer significa uma falha no seu percurso académico e profissional. Esta situação, muito mais comum do que se possa crer, permite várias leituras, mas vou cingir-me aos aspectos apresentados a seguir.
A hegemonia do inglês O inglês consolidou-se como a principal língua franca global, ponte entre nações, como um ponto de encontro, um idioma comum no mundo. Isso deve-se tanto ao colonialismo britânico como à ascensão económica e cultural dos Estados Unidos da América.
O idioma domina cerca de 85% das publicações científicas e 75% da comunicação internacional, tornando-se essencial para negócios, ciência e tecnologia. É verdade. Existe de facto uma hegemonia linguística do inglês no mundo: é a língua mais falada nos negócios e no TikTok. É a língua do Barack Obama e do Donald Trump, mas, por isso mesmo, há também muitas pessoas que o dominam. É fácil encontrar bons tradutores e bons intérpretes.
Pessoalmente, acredito que uma pessoa que conseguiu chegar a administrador, PCE, PCA não precisa necessariamente de falar inglês. Ele precisa de ter bons tradutores e bons intérpretes.
Hipótese Sapir-Whorf
Para quem pensa: "Ah! Mas devíamos todos aprender inglês. É um ganho!". Bem, o conhecimento de qualquer língua representa um ganho. A hipótese Sapir-Whorf explica--nos que a aprendizagem de uma língua significa uma mais--valia, uma nova visão do mundo, ou pelo menos uma visão mais rica e mais alargada. Com o domínio de uma nova língua, passamos a possuir uma forma distinta de perceber o mundo que nos rodeia, e acedemos a outros conceitos e sonhos. Seja essa nova língua o inglês ou o quimbundo.
O básico e a especialidade
Há habilidades básicas que a maioria dos adultos activos utiliza automaticamente ou se esforça por dominar, como a comunicação, a interacção social, o funcionamento no dia--a-dia, a maior independência e autonomia. Mas há também competências que implicam especialização, apesar de muitas vezes nos recusarmos a percebê-lo. Por exemplo: na expressão em língua portuguesa. Acreditamos que todos têm de escrever correctamente o português e que os revisores não são necessários. Ora bem, eu sou revisora (ou fui, por algumas décadas), mas encontrei dois erros num dos meus livros, em textos que eu já tinha lido dezenas de vezes. Porquê?
Porque a revisão é um trabalho à parte, que deve ser feito por alguém que não seja o autor do livro, já que o autor lê as ideias, os ideais, as hipóteses e soluções, as fantasias e resoluções, e o revisor se preocupa especificamente com a correcção linguística do texto (entre outros). Falar bem o inglês a ponto de poder traduzir e interpretar o inglês com correcção é um trabalho especializado. Tal como o é a revisão de textos em português. É irrealista acreditarmos que podemos ser especialistas só porque temos algumas habilidades no campo em apreço. Conhecimento básico e conhecimento especializado não são equivalentes. E está tudo bem. Síndrome do impostor
Há muitas pessoas que, apesar de estarem muito bem posicionadas, apesar de terem uma carreira brilhante, apesar de serem indiscutivelmente competentes e bem-sucedidas, não conseguem acreditar no seu mérito e na legitimidade do seu sucesso. Elas acreditam que são uma "fraude" e que conseguiram tudo por sorte ou, pior ainda, por engano. Isso faz com que se sintam sempre inseguras, esforçando-se por aprender mais, trabalhar mais, esforçar-se mais, para não serem "descobertas". Elas sofrem da síndrome do impostor.
A síndrome do impostor faz com que pessoas em posições de destaque e responsabilidade sofram - contrariamente a tudo o que o seu percurso demonstra - de uma inferioridade irrealista. Estas pessoas subestimam as suas capacidades e conhecimentos, acreditando, muitas vezes, que outros indivíduos - só porque falam inglês, ou porque se exprimem bem e fazem com que a audiência se ria - são superiores a elas e mais capazes.
Ao contrário das pessoas que sofrem do efeito Dunning--Kruger, que pensam que sabem muito mais do que de facto sabem, as pessoas que sofrem da síndrome do impostor acreditam que são muito menos competentes do que de facto são. É comum que por isso, sejam perfeccionistas, buscando uma excelência que nunca acreditam atingir. É preciso trabalharmos nas nossas inseguranças e percebermos a sua origem. Talvez resultem de comentários maldosos que ouvimos na infância ou na adolescência, na família ou na escola. Mas nós não somos inferiores a ninguém.
Se quisermos aprender inglês, podemos fazê-lo. Mas se não o fizermos, não seremos menos por isso. E se estivermos a aprender inglês: devemos usar o nosso conhecimento da língua à vontade. Se se rirem de nós, o problema está em quem ri, não está connosco. Continuemos o nosso caminho, aprendendo o que nos dá prazer e confiando nas nossas capacidades e no que já conquistámos até aqui.











