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Opinião

A guarda do cofre e o peso da espada | Angola no teatro da dívida externa e das reservas cambiais (2018–2025)

Convidado

A dívida consome reservas como a batalha consome munições. As reservas conferem credibilidade à dívida

Entre a dívida externa e as reservas cambiais estabelece-se um binómio estratégico indissolúvel, comparável à relação entre a frente de combate e a logística militar. A dívida consome reservas como a batalha consome munições; as reservas conferem credibilidade à dívida como a logística sustenta a ofensiva. A sustentabilidade externa não reside, pois, na supremacia de uma destas forças sobre a outra, mas no equilíbrio dinâmico e vigilante entre ambas - uma verdadeira arte de comando, em que cada decisão equivale a mover tropas, reforçar posições ou escolher, com prudência estratégica, quando avançar e quando consolidar.

I.2018-2019 A contenção prudente do equilíbrio externo "A estratégia não começa com o ataque, mas com o cálculo do fôlego." Carl von Clausewitz

A dívida pública externa, entre 2018 e 2019, cresce de forma comedida, passando de cerca de 47 mil milhões para 49,5 mil milhões de USD, mantendo-se ainda num rácio administrável face ao PIB. Este aumento não resulta de ímpeto ofensivo, mas da inércia dos compromissos herdados e das amortizações contratuais, mais do que de uma estratégia deliberada de expansão.

Em simultâneo, as reservas cambiais reforçam-se de forma discreta, ultrapassando os 17 mil milhões USD (cerca de 18% do PIB em 2019). Este nível funciona como retaguarda estratégica, oferecendo margem táctica limitada, mas crucial: amortecer choques de curto prazo, assegurar importações essenciais e preservar a credibilidade externa, suficiente para resistir a escaramuças financeiras, mas não a crises prolongadas.

Neste intervalo temporal, o binómio dívida-reservas apresenta-se operacionalmente equilibrado. A dívida avança, mas fá-lo sob a cobertura de um stock de reservas adequado, à semelhança de uma força que progride sem romper o vínculo vital com as suas linhas de suprimento. É um equilíbrio de vigilância sentinelar, prudente e contido, mais orientado para a estabilização e a defesa do que para a conquista. Contudo, sob esta ordem aparente subsistem fragilidades estruturais profundas, lembrando que a posição, embora estabilizada, assenta ainda em terreno friável e exige comando lúcido, leitura estratégica permanente do campo de batalha económico e preparação meticulosa para fases futuras de maior intensidade.

II. 2020-2021 A rutura sistémica do binómio externo "As crises não criam fraquezas; apenas as revelam." Nassim Nicholas Taleb

Em 2020-2021, o equilíbrio externo rompe-se: pandemia, petróleo e câmbio expõem fragilidades e elevam a dívida para cerca de 75% do PIB. Não por novo endividamento, mas pela contracção do produto e pela revalorização do passivo em moeda estrangeira.

Em paralelo, as reservas cambiais sofrem uma erosão pronunciada, descendo para níveis próximos dos 15 mil milhões USD. Embora ainda respeitáveis em termos absolutos, revelam-se progressivamente insuficientes para sustentar, em simultâneo, o serviço da dívida e as necessidades de financiamento externo de uma economia estruturalmente dependente de importações. A retaguarda adelgaça-se, os depósitos de munições escasseiam e a margem de manobra táctica reduz-se a movimentos defensivos de curto alcance.

O binómio dívida-reservas transmuta-se, assim, num desequilíbrio estrutural manifesto. A dívida ganha densidade, rigidez e inércia, enquanto as reservas passam a ser mobilizadas sobretudo como instrumento de sobrevivência cambial, não já como vector de estabilização estratégica. A sustentabilidade externa deixa, neste interregno, de ser uma questão meramente técnica ou contabilística e assume contornos inequívocos de risco estratégico para a soberania económica - um momento em que a economia nacional combate não para avançar, mas para evitar a ruptura das suas últimas linhas de defesa.

Leia o artigo integral na edição 860 do Expansão, sexta-feira, dia 23 de Janeiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

Entre a dívida externa e as reservas cambiais estabelece-se um binómio estratégico indissolúvel, comparável à relação entre a frente de combate e a logística militar. A dívida consome reservas como a batalha consome munições; as reservas conferem credibilidade à dívida como a logística sustenta a ofensiva. A sustentabilidade externa não reside, pois, na supremacia de uma destas forças sobre a outra, mas no equilíbrio dinâmico e vigilante entre ambas - uma verdadeira arte de comando, em que cada decisão equivale a mover tropas, reforçar posições ou escolher, com prudência estratégica, quando avançar e quando consolidar.

I.2018-2019 A contenção prudente do equilíbrio externo "A estratégia não começa com o ataque, mas com o cálculo do fôlego." Carl von Clausewitz

A dívida pública externa, entre 2018 e 2019, cresce de forma comedida, passando de cerca de 47 mil milhões para 49,5 mil milhões de USD, mantendo-se ainda num rácio administrável face ao PIB. Este aumento não resulta de ímpeto ofensivo, mas da inércia dos compromissos herdados e das amortizações contratuais, mais do que de uma estratégia deliberada de expansão.

Em simultâneo, as reservas cambiais reforçam-se de forma discreta, ultrapassando os 17 mil milhões USD (cerca de 18% do PIB em 2019). Este nível funciona como retaguarda estratégica, oferecendo margem táctica limitada, mas crucial: amortecer choques de curto prazo, assegurar importações essenciais e preservar a credibilidade externa, suficiente para resistir a escaramuças financeiras, mas não a crises prolongadas.

Neste intervalo temporal, o binómio dívida-reservas apresenta-se operacionalmente equilibrado. A dívida avança, mas fá-lo sob a cobertura de um stock de reservas adequado, à semelhança de uma força que progride sem romper o vínculo vital com as suas linhas de suprimento. É um equilíbrio de vigilância sentinelar, prudente e contido, mais orientado para a estabilização e a defesa do que para a conquista. Contudo, sob esta ordem aparente subsistem fragilidades estruturais profundas, lembrando que a posição, embora estabilizada, assenta ainda em terreno friável e exige comando lúcido, leitura estratégica permanente do campo de batalha económico e preparação meticulosa para fases futuras de maior intensidade.

II. 2020-2021 A rutura sistémica do binómio externo "As crises não criam fraquezas; apenas as revelam." Nassim Nicholas Taleb

Em 2020-2021, o equilíbrio externo rompe-se: pandemia, petróleo e câmbio expõem fragilidades e elevam a dívida para cerca de 75% do PIB. Não por novo endividamento, mas pela contracção do produto e pela revalorização do passivo em moeda estrangeira.

Em paralelo, as reservas cambiais sofrem uma erosão pronunciada, descendo para níveis próximos dos 15 mil milhões USD. Embora ainda respeitáveis em termos absolutos, revelam-se progressivamente insuficientes para sustentar, em simultâneo, o serviço da dívida e as necessidades de financiamento externo de uma economia estruturalmente dependente de importações. A retaguarda adelgaça-se, os depósitos de munições escasseiam e a margem de manobra táctica reduz-se a movimentos defensivos de curto alcance.

O binómio dívida-reservas transmuta-se, assim, num desequilíbrio estrutural manifesto. A dívida ganha densidade, rigidez e inércia, enquanto as reservas passam a ser mobilizadas sobretudo como instrumento de sobrevivência cambial, não já como vector de estabilização estratégica. A sustentabilidade externa deixa, neste interregno, de ser uma questão meramente técnica ou contabilística e assume contornos inequívocos de risco estratégico para a soberania económica - um momento em que a economia nacional combate não para avançar, mas para evitar a ruptura das suas últimas linhas de defesa.

Leia o artigo integral na edição 860 do Expansão, sexta-feira, dia 23 de Janeiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas.

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