Fertilizantes: a chave para a soberania alimentar e económica de Angola
A entrada em operação de unidades de produção de ureia e fosfatos, o reforço das capacidades de blending, sobretudo fora do eixo costeiro, e a emergência de projetos logísticos e industriais criam condições reais para reduzir a dependência externa. Trata se não apenas de produzir fertilizantes, mas de criar uma cadeia integrada, eficiente e adaptada às condições dos solos e culturas nacionais.
A segurança alimentar deixou de ser apenas um tema agrícola: é hoje um fator crítico de estabilidade económica e social. Num mundo pressionado por choques geopolíticos, alterações climáticas e volatilidade dos mercados, garantir o acesso a alimentos tornou se uma prioridade estratégica. Para Angola, país com vastos recursos agrícolas ainda por explorar, a resposta passa inevitavelmente, também, pela construção de uma cadeia nacional robusta de insumos, nomeadamente de fertilizantes.
Os dados são claros. Angola dispõe de cerca de 34 milhões de hectares de terras aráveis, mas apenas 17% estão efetivamente cultivados. Produz perto de 4 milhões de toneladas de cereais por ano, quando seriam necessárias cerca de 10 milhões para garantir a autossuficiência. O défice é colmatado com importações, expondo o país à volatilidade cambial e aos ciclos internacionais de preços. Neste contexto, o uso de fertilizantes continua dramaticamente baixo: cerca de 7,9 kg por hectare, muito abaixo das médias internacionais e insuficiente para elevar a produtividade agrícola.
Ora, o mercado global de fertilizantes é altamente sensível a choques externos. Uma redução de 20% na oferta global de NPK, por exemplo, pode traduzir se num aumento de até 6% nos preços internacionais dos alimentos; uma segunda quebra consecutiva pode levar esse aumento para 13%. Angola conhece bem esta vulnerabilidade: só em 2024/25, os preços dos reais para reduzir a fertilizantes subiram entre 40% e 90%, colocando em risco o arranque de campanhas agrícolas e a renda dos produtores. Apesar disso, o momento é particularmente favorável. Pela primeira vez, conjugam se políticas públicas, investimento privado e projetos estruturantes capazes de alterar o paradigma.
A entrada em operação de unidades de produção de ureia e fosfatos, o reforço das capacidades de blending, sobretudo fora do eixo costeiro, e a emergência de projetos logísticos e industriais criam condições dependência externa. Trata se não apenas de produzir fertilizantes, mas de criar uma cadeia integrada, eficiente e adaptada às condições dos solos e culturas nacionais.
A transição exige, contudo, mais do que capacidade industrial. É essencial investir em laboratórios de solos, misturas de precisão, redes formais de distribuição e sistemas de financiamento adequados ao ciclo agrícola. Paralelamente, a reforma dos subsídios, a regulação da qualidade e a digitalização do acesso aos insumos são determinantes para evitar distorções e proteger o produtor.
A oportunidade é clara: desenvolver a cadeia nacional de fertilizantes significa aumentar a produtividade, reduzir a fatura das importações, criar emprego qualificado e fortalecer a balança comercial. Mais do que isso, é um passo decisivo para posicionar Angola como potência agrícola. Em última análise, falar de fertilizantes é falar do futuro económico do país. A autonomia produtiva começa no solo e o momento de agir é agora.
Edição 874 do Expansão, sexta-feira, dia 01 de Maio de 2026
*MAURÍCIO BRITO, Partner da PwC











