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Gestão

IA | O desafio não é tecnológico

CAPITAL HUMANO

A maior parte das empresas ainda não está preparada, nem tecnicamente, nem culturalmente, nem estrategicamente. Isto cria uma oportunidade, mas também um risco, porque quando a tecnologia acelera mais rápido do que a capacidade de adaptação, não vence o mais inteligente, vence o mais adaptável.

Nos últimos 100 anos, decisões estratégicas foram tomadas com base numa premissa simples: o futuro era relativamente previsível. As empresas investiam em pessoas, tecnologia, produtos ou mercados porque acreditavam que o mundo, embora incerto, mudaria de forma gradual. A Inteligência Artificial veio quebrar essa lógica.

Hoje, não é apenas difícil prever o futuro é difícil até perceber a velocidade a que ele está a mudar. Um recente artigo da Harvard Business Review descreve bem este momento: estamos numa espécie de "nevoeiro". Sabemos que algo grande está a acontecer, mas não conseguimos ver claramente o que vem a seguir.

Quando não conseguimos antecipar o futuro, deixamos de conseguir planear como antes. Carreiras, investimentos, modelos de negócio, tudo fica mais volátil. No meio deste "nevoeiro" acontece um erro típico: achar que já se atingiu o auge. Não atingimos e estamos apenas no início. Outro artigo recente da mesma publicação reforça uma ideia contraintuitiva: antes de apostar em soluções avançadas de IA, as empresas precisam de acertar no básico: dados organizados, processos claros, decisões consistentes. Isto é algo que já era fundamental com ou sem IA.
O futuro não vai premiar apenas quem adopta IA, mas sim quem está preparado para a integrar. E aqui está o ponto essencial: a maior parte das empresas ainda não está preparada, nem tecnicamente, nem culturalmente, nem estrategicamente. Isto cria uma oportunidade, mas também um risco, porque quando a tecnologia acelera mais rápido do que a capacidade de adaptação, não vence o mais inteligente, vence o mais adaptável.

A história mostra isso repetidamente. Quando a electricidade chegou às fábricas no final do século XIX, quase ninguém soube o que fazer com ela. Durante décadas, limitaram-se a substituir a máquina a vapor por um motor eléctrico, e a produtividade quase não mudou. Só uma geração depois é que alguém percebeu o óbvio: se a energia já não precisava de vir de um eixo central, as fábricas podiam ser redesenhadas de raiz. Foi aí que tudo mudou.

A lição é desconfortável: a tecnologia chegou primeiro, a imaginação chegou 30 anos depois. Com a IA, o cenário não parece ser muito diferente. Estamos a pegar na IA para fazer o que já fazemos, em vez de reimaginar o trabalho.

A IA não é apenas uma ferramenta para fazer o mesmo mais rápido. É uma mudança na forma como o trabalho é feito. E como em todas as grandes mudanças, o impacto inicial é subestimado e o impacto a médio prazo é brutalmente sobrestimado. Estamos exatamente nesse ponto: muito barulho no curto prazo e muito pouco entendimento real do que está a ser construído.

Ao contrário de muitos, não acredito que a IA seja um perigo para as empresas. O perigo é tomar decisões com excesso de confiança num momento em que a visibilidade é mínima. Há sempre dois tipos de gestor neste tipo de momento: o que age depressa para parecer moderno, que compra ferramentas, anuncia projectos, faz comunicados. E o que age devagar para parecer prudente, espera para ver, adia, deixa para o próximo orçamento.

Ambos costumam errar pela mesma razão: confundem actividade com estratégia. O que distingue quem vai sair bem desta década não é a velocidade da decisão. É a qualidade das perguntas que se faz antes de decidir. E a oportunidade? Construir organizações preparadas para um futuro que ainda não conseguimos ver. Porque desta vez, mais do que nunca, não vai ganhar quem prevê melhor o futuro. Vai ganhar quem melhor se adapta quando ele chegar.

Edição 874 do Expansão, sexta-feira, dia 01 de Maio de 2026

*ALEXANDRE TEIXEIRA, Director Financeiro da Easy People

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