A promessa liberal e a geoeconomia do poder
Uma perturbação séria nos sistemas internacionais de pagamentos, nas relações de correspondência bancária ou na arquitectura sancionatória global pode produzir efeitos quase imediatos sobre o custo do capital, a liquidez em moeda forte e a estabilidade das operações. Angola não precisa de estar no epicentro do choque para sentir as suas consequências; basta estar suficientemente integrada numa arquitectura em tensão.
Como a interdependência deixou de ser apenas um motor de prosperidade para se converter num instrumento de coerção - e num novo factor de risco para os mercados africanos
"Juntando-se à OMC, a China não concorda simplesmente em importar mais os nossos produtos, mas também concorda em importar um dos mais queridos valores da democracia: a liberdade económica." Bill Clinton, Paul H. Nitze School of Advanced International Studies, Washington, 8 de Março de 200
A frase de Bill Clinton, proferida no momento em que os Estados Unidos apoiavam a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, condensa com rara nitidez o optimismo liberal do final do século XX. A convicção era simples: a abertura económica geraria convergência política, o comércio mitigaria rivalidades e a interdependência funcionaria como travão racional ao conflito.
A História seguiu, porém, outro rumo. A economia internacional não deixou de ser um espaço de integração - deixou foi de poder ser lida apenas nessa chave. O que durante décadas funcionou como arquitectura técnica da globalização - moeda, mercados de capitais, sistemas de pagamentos, cadeias logísticas, plataformas tecnológicas - passou a ser também estrutura de poder. E quando uma estrutura é poder, perde a neutralidade. Pode servir para coordenar ou para condicionar, para integrar ou para excluir. É esta a grande mutação estratégica do nosso tempo.
A diplomacia contemporânea reflecte essa mudança. Já não se exerce apenas nas chancelarias e nas cimeiras multilaterais. Faz- -se, com crescente intensidade, através de sanções financeiras, tarifas, controlos de exportação, restrições tecnológicas, política industrial e disputa pelos canais por onde o valor circula.
A política externa aprendeu a falar a linguagem da finança, da indústria e da tecnologia - e essa linguagem tornou-se central. O nó da questão é que a interdependência, outrora celebrada como antídoto da rivalidade, passou a ser lida como vulnerabilidade. Quem depende em excesso de uma moeda de reserva, de um sistema de pagamentos, de um fornecedor tecnológico dominante ou de um corredor logístico crítico fica exposto a decisões tomadas fora do seu controlo. Eficiência é também exposição estratégica. E quem ocupa os nós centrais dessas redes dispõe de um poder silencioso, mas formidável: pode vigiar, atrasar, constranger, sancionar e, no limite, estrangular. Os Estados Unidos continuam a ser a expressão mais acabada desta realidade.
A centralidade do dólar, a profundidade dos seus mercados de capitais e a influência sobre infra-estruturas críticas da finança global conferem a Washington uma capacidade singular de converter instrumentos aparentemente técnicos em instrumentos de política externa. O congelamento de activos, a exclusão de bancos, a restrição a pagamentos internacionais ou a imposição de custos sancionatórios deixaram de pertencer à periferia da acção diplomática - passaram ao seu centro. Seria ingénuo, contudo, imaginar que esta transformação se esgota no caso americano
. A China constrói margens de autonomia; a União Europeia fala de resiliência, autonomia estratégica e de-risking; outras potências ensaiam mecanismos alternativos de pagamentos, diversificação de reservas e redução de dependências críticas. O resultado não é o desaparecimento da globalização, mas a sua reconfiguração - uma globalização mais cautelosa, mais securitizada, mais regionalizada e visivelmente desconfiada da neutralidade das infra- -estruturas comuns. Para os mercados financeiros, esta inflexão tem implicações imediatas.
Durante muito tempo, o risco geopolítico foi tratado como variável exógena, quase periférica. Já não pode sê-lo. Hoje, a política externa produz efeitos financeiros directos e recorrentes. Uma sanção bloqueia pagamentos e eleva custos de compliance. Um controlo de exportação deteriora receitas e contagia carteiras bancárias. Uma ruptura tecnológica reprecifica activos e redefine sectores vencedores e perdedores.
A geopolítica já não paira sobre os mercados como ruído distante: entrou no centro da sua mecânica quotidiana. Estamos perante uma nova cartografia do risco. O risco de mercado intensifica-se com a volatilidade cambial e os choques sobre matérias-primas. O risco de crédito agrava-se quando empresas ficam expostos a cadeias interrompidas e a novos custos de financiamento. O risco de liquidez cresce quando o acesso a moeda forte ou a canais de pagamento tornam-se incertos. E o risco de compliance deixa de ser função de retaguarda para se converter em dimensão estratégica da sobrevivência institucional.
ÁFRICA E ANGOLA
Entre a exposição e a lucidez estratégica
Para os mercados africanos, esta transformação é especialmente sensível. A maioria das economias do continente não está no epicentro da rivalidade entre grandes potências, mas sofre os seus efeitos com intensidade desproporcionada. São sistemas frequentemente dependentes de moeda forte, de bancos correspondentes internacionais, de financiamento externo, de infra-estruturas globais de pagamentos e de receitas de exportação concentradas. Choques originados fora do continente podem repercutir-se com rapidez no custo do capital, na liquidez externa, na estabilidade cambial e na confiança dos investidores.
Angola oferece um exemplo eloquente. É uma economia estruturalmente ligada ao exterior, dependente de fluxos em divisas, de intermediação financeira internacional para o comércio e para os pagamentos, e exposta aos humores do mercado energético e à percepção do risco soberano. Uma perturbação séria nos sistemas internacionais de pagamentos, nas relações de correspondência bancária ou na arquitectura sancionatória global pode produzir efeitos quase imediatos sobre o custo do capital, a liquidez em moeda forte e a estabilidade das operações. Angola não precisa de estar no epicentro do choque para sentir as suas consequências; basta estar suficientemente integrada numa arquitectura em tensão.
O sector segurador acrescenta outra camada de vulnerabilidade. A dependência do resseguro internacional significa que disfunções geopolíticas podem repercutir-se na cobrança de prémios, no pagamento de sinistros, no custo da cobertura e, no limite, na robustez prudencial do mercado. Mas o quadro não se esgota no registo defensivo. A nova geoeconomia abre também espaço a reposicionamentos inteligentes.
Países africanos com previsibilidade regulatória, robustez institucional e visão estratégica podem beneficiar da reconfiguração de cadeias de abastecimento, da diversificação de parceiros e da emergência de novas plataformas regionais. Para Angola, isso exigirá capacidade de leitura geopolítica, reforço da supervisão, modernização dos sistemas de pagamento e maior articulação entre política externa, política económica e gestão de risco.
A frase de Bill Clinton permanece como um monumento verbal a uma ilusão de época. Presumia-se que a abertura económica importaria, quase automaticamente, liberdade. O que a realidade veio demonstrar é mais austero: a integração também importa dependência, assimetria e disputa pelo controlo das infra-estruturas que fazem funcionar a economia mundial.
A economia internacional continua interdependente. Mas essa interdependência já não é inocente. Está armada. E os mercados que não a compreenderem a tempo poderão descobrir, tarde demais, que a geopolítica já entrou na sala da tesouraria.
* Do programa de doutoramento em Relações Internacionais no ISCSP - Universidade de Lisboa, onde investiga risco geopolítico em instituições financeiras.














