A questão agrária na diversificação da economia
O crescimento da contribuição da agricultura no PIB deve ser saudado, mas não confundido com a conclusão do processo de diversificação económica. O verdadeiro desafio continua a ser transformar os ganhos agrícolas em industrialização, produtividade e emprego de maior valor acrescentado. É nesta perspectiva que a questão agrária passa a ser politicamente inevitável e deve ocupar um lugar central no debate sobre o futuro económico imediato de Angola.
As recentes alterações metodológicas introduzidas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) trouxeram mudanças relevantes na leitura da estrutura da economia angolana. Segundo as novas Contas Nacionais, o sector petrolífero passou a ocupar a terceira posição, com 15,8% do PIB, enquanto a agricultura assumiu a liderança, cf. Gráfico 1.
Rapidamente surgiu o discurso de que a histórica dependência do petróleo pertence ao passado e que Angola é hoje uma economia mais diversificada. Mas será realmente assim? Substituir a dependência de um sector primário pela dependência de outro constitui, por si só, um sinal de desenvolvimento? A história económica dos actuais países desenvolvidos recomenda prudência. É precisamente aqui que ganha importância a chamada questão agrária, um tema central na economia do desenvolvimento e que continua altamente relevante para Angola.
A questão agrária não se limita ao aumento da produção agrícola. Ela procura responder a questões fundamentais: quem possui a terra e como a adquiriu? Quem nela trabalha? Como são distribuídos os rendimentos gerados pela agricultura? Como evolui a produtividade? E, sobretudo, qual será o papel da agricultura no processo de industrialização do país? São perguntas que permanecem praticamente ausentes do debate público. O entusiasmo gerado pelos novos números do INE pouco nos diz sobre os factores que explicam este desempenho ou sobre a sua sustentabilidade.
Os novos dados mostram igualmente que, enquanto a agricultura ganha peso, a indústria transformadora recuou para apenas 6,2% do PIB e ninguém fala disso. Antes da revisão metodológica, este sector representava cerca de 8%, valor que já se encontrava abaixo da média africana, estimada em aproximadamente 10%. Esta evolução sugere que o crescimento da agricultura não está, pelo menos por agora, a traduzir-se numa maior dinâmica industrial, precisamente a ligação que historicamente permitiu a transformação estrutural das economias. A experiência internacional mostra que todos os países que passaram da pobreza ao desenvolvimento combinaram dois processos: um forte aumento da produtividade agrícola e uma rápida industrialização.
O crescimento da agricultura nunca foi um fim em si mesmo, mas antes uma plataforma para o desenvolvimento industrial. Em Angola, porém, os dados do Inquérito Contínuo Agro-Pecuário e Pescas (ICAPP 2024/2025) revelam que a preparação da terra continua a ser predominantemente manual, seguindo-se a tracção animal e apenas depois a mecanização. Isto significa que o país ainda possui uma enorme margem para aumentar a produtividade agrícola. Houve iniciativas para distribuir tractores montados localmente, mas os resultados ficaram aquém do esperado.
Na altura, cf. o nosso texto "Com visão e perspicácia, a montagem de tractores pode revolucionar o sector produtivo", defendemos que a sustentabilidade desse projecto dependeria da incorporação de conteúdo local e do desenvolvimento de uma cadeia nacional de manutenção e fornecimento de peças. Sem essa estratégia, o projecto perdeu continuidade e pouco se conhece hoje sobre os seus resultados.
Outro desafio é a produção nacional de insumos agrícolas. Num contexto de forte aumento dos preços internacionais dos fertilizantes, depender exclusivamente das importações limita a capacidade de elevar rapidamente a produtividade. Torna- -se, por isso, essencial concretizar os vários projectos anunciados para a instalação de fábricas de fertilizantes em Angola (nos últimos 2 anos falou-se do Bengo, Benguela e Soyo).
A agricultura só conseguirá desempenhar um verdadeiro papel transformador se existir uma política industrial capaz de produzir fertilizantes, equipamentos, máquinas e outros insumos necessários ao sector agrícola. Sem essa articulação, Angola corre o risco de substituir a dependência do petróleo pela dependência de outro sector primário.
Agricultura emprega mais, mas, gera menos divisas necessárias para fazer funcionar outros sectores da economia. A questão do acesso à terra continua igualmente por resolver. As estatísticas oficiais mostram que os homens continuam a dominar tanto as explorações familiares como as empresariais, evidenciando a necessidade de garantir maior acesso das mulheres à propriedade rural. Acresce a persistente falta de regularização fundiária, que impede milhares de produtores de utilizarem a terra como garantia para obter crédito bancário. Vinte e quatro anos após o fim da guerra, esta continua a ser uma limitação estrutural ao investimento privado.
Em suma, o crescimento da contribuição da agricu ltura no PIB deve ser saudado, mas não confundido com a conclusão do processo de diversificação económica. O verdadeiro desafio continua a ser transformar os ganhos agrícolas em industrialização, produtividade e emprego de maior valor acrescentado. É nesta perspectiva que a questão agrária passa a ser politicamente inevitável e deve ocupar um lugar central no debate sobre o futuro económico imediato de Angola.













