Bancos | Protagonistas do desenvolvimento ou espectadores do crescimento?
A história económica demonstra que nenhuma nação alcançou desenvolvimento sustentado sem um sistema financeiro comprometido com a produção, a inovação e o investimento de longo prazo. O crédito representa uma das mais poderosas alavancas do crescimento económico. Num país que procura consolidar a sua base produtiva e reduzir desigualdades sociais, os bancos não podem assumir uma postura meramente passiva.
Fala-se com insistência em diversificação económica, crescimento sustentável e inclusão financeira. Multiplicam-se conferências, relatórios e compromissos institucionais. Contudo, há uma pergunta que raramente é feita com a frontalidade necessária: qual é, afinal, o verdadeiro papel dos bancos no desenvolvimento social e económico de um país?
Num contexto como o angolano, em que a economia procura reduzir dependências estruturais e fortalecer a produção interna, o sistema bancário não pode limitar-se a desempenhar funções operacionais. Os bancos não existem apenas para processar pagamentos ou conceder crédito ao consumo. Existem para financiar o futuro. O seu verdadeiro papel é ajudar pessoas e empresas a transformar projectos em realidade.
Quando um agricultor consegue financiamento para aumentar a produção, quando um empreendedor abre um estabelecimento comercial, ou quando uma empresa investe em novos equipamentos e cria empregos, o banco está a financiar o futuro. Ou seja, está a investir em algo que gera riqueza, oportunidades e desenvolvimento para toda a sociedade.
E financiar o futuro significa investir na produção, na indústria transformadora, na agricultura, na inovação e nas pequenas e médias empresas que constituem a base do tecido económico. A realidade, porém, impõe uma reflexão crítica. Grande parte do crédito disponível continua orientada para operações de menor risco e retorno mais imediato.
O financiamento produtivo - aquele que gera emprego, aumenta a capacidade produtiva e fortalece a economia nacional - continua, ainda, muito marginalizado, seja pela suspeita associada ao risco de não recuperar o crédito; sendo certo, por isso,que aquele é muitas vezes sujeito a taxas elevadas, exigências rigorosas de garantias e procedimentos burocráticos que desincentivam o investimento.
Para muitos empresários, sobretudo os de pequena e média dimensão, o acesso ao crédito permanece um obstáculo quase intransponível. Cria-se, assim, uma contradição preocupante: exige-se dinamismo ao sector privado, mas restringe-se o acesso ao principal instrumento que o torna possível - o capital. Importa reconhecer que os bancos são empresas privadas. Precisam de rentabilidade, liquidez e solidez patrimonial.
A estabilidade do sistema financeiro é um bem público que não pode ser colocado em causa (Cfr, o disposto no n.º 1, do artigo 100.º da Constituição, conjugado com a parte final do disposto no artigo 3.º, da Lei n.º 24/21 de 18 de Outubro, Lei do Banco Nacional de Angola). Contudo, a banca desempenha igualmente uma função estrutural na economia. Sem crédito produtivo, dificilmente haverá industrialização consistente. Sem financiamento acessível, dificilmente existirá mobilidade económica e social.
Inclusão financeira: expansão ou transformação?
A inclusão financeira é frequentemente apresentada como um dos maiores objectivos da banca moderna. Contudo, inclusão não se resume à abertura de contas bancárias ou à digitalização de serviços. A verdadeira inclusão significa proporcionar acesso efectivo ao crédito, promover educação financeira e criar condições para que pequenos empreendedores ingressem e permaneçam no sistema económico formal.
Uma perspectiva indispensável
Sempre que o crédito à economia produtiva é insuficiente, a reacção mais imediata consiste em apontar o dedo aos bancos. A crítica é compreensível, mas raramente alcança a raiz do problema. Há uma realidade frequentemente ignorada no debate público: os bancos não emprestam recursos próprios. Administram a poupança de famílias, empresas e investidores que lhes confiaram o seu património. Cada decisão de crédito transporta, por isso, uma responsabilidade que ultrapassa a relação entre credor e devedor.
Talvez, por isso, a pergunta mais importante não seja por que razão os bancos financiam menos a economia produtiva. A questão verdadeiramente decisiva é outra: que ambiente institucional estamos a construir para que financiar a produção seja uma decisão racional?
O papel do regulador: estabilidade e desenvolvimento
O Banco Nacional de Angola tem desempenhado um papel essencial na preservação da estabilidade do sistema financeiro (sendo sua missão, conforme se estabelece no n.º 1, do artigo 100.º da Constituição, conjugado com a parte final do disposto no artigo 3.º, da Lei n.º 24/21 de 18 de Outubro). Todavia, estabilidade não deve ser confundida com neutralidade estratégica.
O verdadeiro desafio não consiste em escolher entre lucro e desenvolvimento. Consiste em demonstrar que ambos podem coexistir e reforçar-se mutuamente. E de facto, o regulador tem feito a sua parte, visto que tem vindo, por via do Comité de Política Monetária, a reduzir a taxa do BNA e a taxa de cedência de liquidez, conforme se lê no último Comunicado da 127.ª Reunião do Comité de Política Monetária, de 14 de Janeiro de 2026.
Protagonistas ou espectadores?
A história económica demonstra que nenhuma nação alcançou desenvolvimento sustentado sem um sistema financeiro comprometido com a produção, a inovação e o investimento de longo prazo. O crédito representa uma das mais poderosas alavancas do crescimento económico. Num país que procura consolidar a sua base produtiva e reduzir desigualdades sociais, os bancos não podem assumir uma postura meramente passiva. Mas também não podem ser vistos como únicos responsáveis pelo dinamismo da economia.
No fim, os balanços revelam a saúde dos bancos; o desenvolvimento revela a saúde da economia. Quando ambos evoluem em conjunto, ganha o sistema financeiro, ganha o sector produtivo e ganha o país.
Conclusões e recomendações
A presente reflexão procurou evidenciar que o debate sobre o papel da banca no desenvolvimento económico não admite respostas simplistas nem a atribuição exclusiva de responsabilidades a qualquer dos intervenientes. O financiamento da economia produtiva resulta da conjugação de múltiplos factores: estabilidade macroeconómica, segurança jurídica, eficiência institucional, qualidade dos projectos empresariais, políticas públicas consistentes e um sistema financeiro sólido e comprometido com o desenvolvimento.
Esta reflexão não se esgota nas linhas deste texto. Pelo contrário, pretende abrir espaço para uma discussão mais ampla, plural e permanente sobre o papel que cada interveniente deve desempenhar na construção de uma economia mais dinâmica, inclusiva e competitiva.
O desenvolvimento económico é um projecto colectivo, cuja concretização depende menos da procura de culpados e mais da capacidade de construir consensos, fortalecer instituições e transformar desafios em oportunidades para Angola.













