Fuga de gás em botijas Fugir, justificar e nunca assumir
Uma instituição onde ninguém sabe, ninguém viu e ninguém responde pelos erros é uma instituição em que a responsabilidade pública se dilui, a autoridade perde força e o cidadão deixa de confiar no Estado.
No passado dia 7 de setembro de 2026, segunda-feira, se a memória não me atraiçoa, o programa Kiandando, da Rádio Luanda, apresentou uma interessante reportagem sobre o persistente problema das fugas de gás nas botijas cor de laranja, de 12 quilos, utilizadas no consumo doméstico.
Para abordar o tema, a Rádio Luanda destacou repórteres para diversos pontos da província de Luanda, enquanto, em estúdio, foram ouvidos alguns dos principais intervenientes na cadeia de fornecimento, desde a produção e o enchimento, sob responsabilidade da Sonangol, até aos distribuidores e revendedores que integram a rede comercial. Acompanhei este trabalho com particular interesse, não apenas como cidadão, mas também como consumidor directamente afectado pelo mau funcionamento desta cadeia de prestação de serviço público.
Confesso que não fiquei convencido. Não compreendi, nem fiquei minimamente satisfeito com as explicações evasivas e os argumentos desprovidos de consistência. Houve muita retórica, mas faltou aquilo que, num trabalho jornalístico desta natureza, deveria ser essencial: respostas claras, objectivas e convincentes. O trabalho expôs o problema, ouviu os intervenientes e levantou questões pertinentes. No entanto, não conseguiu esclarecer a quem cabe a responsabilidade pela fuga que coloca em risco a vida dos consumidores. O fabricante (Sonangol) aponta o distribuidor como responsável pelo mau manuseamento. O distribuidor, por sua vez, atribui a responsabilidade ao revendedor. Este, por seu turno, orienta o consumidor a devolver o produto e a deixar de o adquirir.
Enfim, ninguém assumiu a responsabilidade, nem ficou claro quem, afinal, tem a competência de fiscalizar. E, no meio desta cadeia de responsabilidades diluídas, permanece o consumidor exposto ao risco, sem sequer saber a quem recorrer. Não se apurou onde reside a falha, em que etapa da cadeia ocorre, nem quem deve responder pelos danos delas decorrentes. A diluição de responsabilidades não pode transformar-se numa cultura: transferem-se responsabilidades e, no fim, ninguém responde. Enquanto isso prevalecer, a cadeia continuará a funcionar com a mesma lógica: todos têm justificações, mas ninguém assume a responsabilidade. Aquela narrativa a que já nos habituámos parece estar a tornar-se transversal à sociedade: quando algo corre mal, todos ouvem, mas ninguém viu, ninguém sabe e, no fim, ninguém é responsabilizado.
Na Educação, quando os livros destinados às escolas aparecem no mercado paralelo ou nas ruas, vendidos à zunga, a pergunta impõe-se: de onde vieram e como foram parar ali? A resposta, quase invariavelmente, é: ninguém sabe. Nos hospitais, um doente entra para tratar um problema numa perna e, na sequência de um erro ou de uma falha que deveria ser rigorosamente apurada, sai com o braço amputado. Abre-se um inquérito, anuncia- -se uma investigação e, pouco depois, instala-se o silêncio.
O problema é que esta cultura de responsabilidades diluídas não é apenas uma questão administrativa. É uma ameaça à credibilidade do Estado e à confiança nos serviços públicos. Quando ninguém responde pelos erros, a impunidade deixa de ser uma excepção e passa a integrar o próprio funcionamento das instituições. Mais preocupante ainda é que, enquanto o Titular do Poder Executivo procura imprimir uma nova dinâmica à máquina do Estado, exigir resultados e melhorar a prestação dos serviços públicos, há sectores e alguns agentes que continuam a trabalhar em sentido inverso.













