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Opinião

Inteligência Artificial

EDITORIAL

O risco não é que a Inteligência Artificial pense igual. O risco é que nós deixemos de pensar diferente. A crítica, a dúvida, a criatividade e até o erro fazem parte da condição humana

A Inteligência Artificial é uma daquelas invenções que nos deixam divididos entre o entusiasmo e um ligeiro arrepio na espinha. Sobretudo para quem já viu chegar o fax, o computador, a Internet, os telemóveis, as redes sociais e agora assiste a uma máquina que escreve textos, responde a perguntas, faz contas, cria imagens, resume livros e, se lhe dermos confiança suficiente, ainda nos diz como devemos organizar a vida. Convenhamos: para uma geração que passou décadas a aprender que era preciso pensar antes de falar, é estranho ver uma caixa luminosa responder a tudo em poucos segundos, quase sempre com um ar de quem tem a certeza absoluta.

A comodidade é, afinal, a maior arma da Inteligência Artificial. O que antes demorava horas faz-se agora em segundos. Aquilo que exigia equipas inteiras cabe hoje numa janela de conversa. É difícil resistir a uma tecnologia que nos devolve tempo. E a história mostra que a humanidade raramente rejeita aquilo que lhe facilita a vida. Pelo contrário, adopta-o, integra-o e, pouco depois, já nem consegue imaginar como vivia sem ele. Mas quando começamos a deixar de pensar porque a resposta aparece automaticamente no ecrã, então a questão deixa de ser tecnológica para passar a ser civilizacional.

Depois existe um pequeno pormenor que raramente entra na conversa. A maior parte destas plataformas é desenvolvida por empresas dos Estados Unidos e da China. Durante anos discutimos quem controlava o petróleo, os diamantes ou as terras raras. Afinal, o verdadeiro recurso estratégico pode ser controlar as respostas que biliões de pessoas recebem todos os dias. Quem molda a informação acaba, inevitavelmente, por influenciar a forma como o mundo pensa. O risco não é que a Inteligência Artificial pense igual.

O risco é que nós deixemos de pensar diferente. A crítica, a dúvida, a criatividade e até o erro fazem parte da condição humana. Se, por preguiça ou comodidade, aceitarmos todas as respostas produzidas por uma máquina como se fossem verdades reveladas, talvez um dia a maior inovação tecnológica da História acabe por produzir o mais antigo dos problemas: uma sociedade que deixou de questionar.

Ao mesmo tempo, há um fenómeno curioso e inquietante. Cada vez mais pessoas conversam diariamente com a sua Inteligência Artificial. Começam por pedir ajuda para um relatório, acabam a desabafar sobre problemas familiares, angústias amorosas ou crises existenciais. Está a nascer uma geração que encontra numa plataforma tecnológica o confidente que antes procurava num amigo, num familiar ou, simplesmente, numa longa conversa consigo própria. É difícil imaginar maior ironia, nunca estivemos tão ligados digitalmente e, ao mesmo tempo, nunca houve tanta gente a sentir-se sozinha.

Ninguém deseja acordar um dia e descobrir que foi substituído por um chatbot ou por um robô. Mas talvez a verdadeira substituição aconteça muito antes disso. Acontecerá no dia em que deixarmos de usar a Inteligência Artificial como uma ferramenta e passarmos a entregar-lhe o privilégio de pensar por nós.

E quanto ao velho medo de que as máquinas um dia ganhem vontade própria? Talvez isso nem seja necessário. Se continuarmos a entregar-lhes todas as decisões, elas nem precisarão de mandar em nós. Bastará que nós deixemos, alegremente, de mandar em nós próprios. E, convenhamos, seria profundamente irónico passarmos milhares de anos a lutar pela liberdade de pensamento... para a entregarmos voluntariamente a uma caixa de texto.

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