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Opinião

O crescimento da agricultura não compensa o recuo da indústria transformadora

MILAGRE OU MIRAGEM ?

Se as infraestruturas agrícolas financiadas pelo Estado não produziram o aumento sustentável da produção e a iniciativa privada continua limitada por dificuldades de financiamento e acesso a insumos, torna-se evidente que o impulso à industrialização deverá assentar na mobilização de capital e colocá-lo ao serviço de empreendedores nacionais através de mecanismos transparentes e orientados para o investimento produtivo.

O discurso político tem celebrado o facto de a agricultura ser, agora, o principal sector da economia em termos de participação no PIB nominal. Contudo, como alertámos no nosso último texto, esse entusiasmo ignora um aspecto fundamental: o recuo da indústria transformadora. Os dados das Contas Nacionais do INE mostram que, entre 2017 e 2025, a maior participação da indústria transformadora no PIB foi de apenas 7,4%, registada em 2023 (cf. Tabela 1). No primeiro trimestre de 2026, esse valor desceu para 6,18%, muito abaixo da média africana, estimada em cerca de 10%.

A situação torna-se ainda mais preocupante quando se observa que este sector emprega apenas 4,9% da população com 15 ou mais anos de idade, segundo o Inquérito ao Emprego em Angola. Apesar do optimismo do discurso oficial, a industrialização continua longe de representar um verdadeiro motor do desenvolvimento nacional. Em sentido inverso, a contribuição do sector agropecuário aumentou de 12,97% do PIB, em 2017, para 23,06% em 2025 (cf. Tabela 1), situando-se em 20,5% no primeiro trimestre de 2026.

Perante esta realidade, faria sentido tributar mais a agricultura para financiar a indústria transformadora, à semelhança do que ocorreu na Inglaterra do século XVIII? A resposta é negativa. Angola dispõe de outras fontes de receita, sobretudo os recursos minerais, enquanto a agricultura permanece num estágio ainda incipiente. Ser autossuficiente na produção de mandioca e ovos não basta para caracterizar um sector dinâmico.

O país continua a importar milho, um alimento básico da dieta nacional e essencial para a produção de ração animal, apesar das condições agroecológicas permitirem a sua produção em praticamente todo o território. Grande parte do que hoje é comercializado como "Feito em Angola" corresponde, na prática, a produtos apenas embalados no país.

Dados do BNA sobre a importação por classificação económica revelam que, entre 2021 e 2025, a participação das importações de bens de capital aumentou 3pp de 25% para 28% e a dos bens intermédios 4pp de 13% para 17%, enquanto os bens de consumo corrente diminuíram 7pp de 62% para 55%, mais em consequência das restrições às importações do que da expansão da produção nacional. É necessário incentivar não apenas a importação, mas sobretudo a montagem local de bens de capital, criando condições para expandir a produção de bens de consumo.

A experiência dos países hoje desenvolvidos demonstra que esta transformação não ocorre espontaneamente: exige uma intervenção activa do Estado. Mais importante do que celebrar os efeitos da recente alteração metodológica do INE é aumentar a produtividade do produtor nacional e mobilizar capital para desenvolver uma indústria transformadora capaz de sustentar esse crescimento.

Após vinte e quatro anos de paz e três Planos de Desenvolvimento Nacional (2013-2017, 2018- -2022, 2023-2027), a transformação estrutural da economia continua por concretizar, prevalecendo medidas pontuais e de carácter emergencial. Desde o fim da guerra civil foram reabilitados diversos perímetros irrigados com recursos públicos. No entanto, muitos permanecem subaproveitados devido a problemas de gestão.

O mesmo sucede com o projecto das grandes fazendas, financiado pela China para garantir a autossuficiência em cereais e leguminosas. Mais de uma década depois da instalação da Fazenda Pedras Negras (2011), em Malanje, e das fazendas do Manquete, no Cunene, e do Cuimba, no Zaire em 2014, os resultados continuam aquém das expectativas. Lembramos aqui a inauguração, com toda a cobertura mediática, do projecto de montagem de tractores com investimento dos Emirados Árabes Unidos, sobre o qual hoje existe pouca informação.

Nos últimos dois anos surgiram anúncios de fábricas de fertilizantes para o Bengo, Benguela e Soyo, mas a maioria destes projectos apenas parece ganhar impulso em ano pré-eleitoral, alimentando o cepticismo quanto ao compromisso com a transformação estrutural da economia.

Se as infraestruturas agrícolas financiadas pelo Estado não produziram o aumento sustentável da produção e a iniciativa privada continua limitada por dificuldades de financiamento e acesso a insumos, torna-se evidente que o impulso à industrialização deverá assentar na mobilização de capital e colocá-lo ao serviço de empreendedores nacionais através de mecanismos transparentes e orientados para o investimento produtivo.

As contas nacionais mostram que Angola caminha para uma economia com maior peso da agricultura e menor peso da indústria, precisamente o perfil das economias menos desenvolvidas. Se o objectivo é elevar o rendimento e a qualidade de vida dos angolanos, será inevitável acelerar a industrialização. A China levou cerca de três décadas para consolidar esse processo. Angola aproxima-se dos 24 anos de paz e os resultados da transformação estrutural da economia continuam por aparecer.

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