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Opinião

Quem controla a nuvem? Infra-estrutura, dados e soberania digital na África Subsaariana

CONVIDADO

Nem toda a infra-estrutura precisa de ser nacional; mas nenhuma economia que aspire a soberania pode ignorar inteiramente onde os seus dados repousam, quem os processa, sob que jurisdição circulam e a que preço recupera a inteligência extraída deles. A nuvem, afinal, tem chão. E esse chão possui proprietários, contratos, jurisdições, custos, cabos, energia e fronteiras.

A nuvem tem chão «Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para as "nuvens"?» (At 1,11)

A palavra nuvem encerra uma ilusão semântica. Evoca leveza, ubiquidade, quase imaterialidade. Todavia, por detrás de cada modelo de Inteligência Artificial (IA) subsiste uma ossatura tangível: cabos submarinos, centros de dados, semicondutores, servidores, electricidade e capital.

A IA não paira num éter tecnológico; repousa sobre uma geografia material, onerosa e intensiva em infra-estrutura. Por isso, a pergunta decisiva da Economia Política da Transformação Digital e da IA já não é apenas quem concebe os algoritmos mais sofisticados. É também quem detém os lugares onde esses algoritmos aprendem, são alojados, circulam, inferem, acumulam dados e produzem valor. Controlar a infra-estrutura é participar no governo invisível da inteligência.

O Índice de Preparação dos Governos para a IA 2025 apreende essa materialidade no pilar Infra-estrutura de IA. A Oxford Insights distingue três fundamentos: Capacidade computacional, Infra-estrutura técnica de suporte e disponibilidade de dados suficientes, fiáveis, acessíveis e susceptíveis de circular em segurança. Não se trata de um apêndice técnico da IA. Trata-se do seu substrato material.

Sem energia estável, conectividade robusta, cloud, centros de dados e informação utilizável, a estratégia digital transforma-se em arquitectura sem alicerces. É por isso que o relatório inscreve estas matérias na crescente disputa em torno da «soberania da IA»: Estados e regiões procuram preservar graus de autonomia sobre elementos do conjunto de camadas tecnológicas, porque a infra- -estrutura digital deixou de ser simples equipamento. Tornou-se poder económico, jurisdicional e geopolítico.

África | conectada, mas ainda sem músculo computacional

«A fraqueza leva-nos a entregar [...] a nossa própria independência nacional nas mãos daqueles que nos superam em poder» ( Friedrich List)

Na África Subsaariana, a penúria mais funda encontra-se precisamente na capacidade computacional. Entre os 48 países analisados, a média regional é de apenas 3,48 pontos em Capacidade computacional, perante 43,08 em Infra-estrutura técnica de suporte e 47,13 em Qualidade dos dados. O pilar agregado de Infra-estrutura de IA alcança 31,23 pontos. A dissonância é eloquente. O continente dispõe já de conectividade, sistemas digitais e património crescente de dados; contudo, a potência computacional avançada continua rarefeita, concentrada e escassa. A Oxford Insights identifica precisamente a infra- -estrutura de IA como uma das fracturas estruturais da região.

A distribuição regional confirma esta assimetria infra- -estrutural. A África do Sul lidera com 60,05 pontos, conjugando 29,64 em capacidade computacional, 75,14 em infra- -estrutura técnica e 75,36 em qualidade de dados. As Maurícias alcançam 48,72, o Gana 46,12, enquanto Quénia e Nigéria rondam os 39 pontos. A arquitectura digital africana é, portanto, mais robusta na transmissão do que no processamento; mais apta a fazer circular sinais do que a concentrar a força computacional exigida para treinar, adaptar e executar sistemas avançados.

O Banco Mundial estrutura a economia da IA em quatro fundamentos - conectividade, capacidade computacional, contexto e competências - destacando o papel central dos centros de dados e da nuvem na adopção, adaptação e inovação Esta desigualdade não é neutra. Países sem infra-estruturas robustas de cloud e dados tornam-se compradores de capacidade externa, sujeitos a preços, protocolos, regimes jurídicos e arquitecturas tecnológicas definidos fora das suas fronteiras. O risco é uma hipóxia cerebral colectiva: depender de fora para transformar os próprios dados em inteligência.

Angola | Uma vantagem que pode iludir

Os dados podem ser angolanos e o poder de os transformar continuar estrangeiro (FXP)

Angola ocupa uma posição singular. Regista 30,77 pontos em Infra-estrutura de IA, praticamente coincidentes com os 31,23 da média regional, e situa-se no 22.º lugar entre 48 países. Porém, a decomposição do índice revela uma particularidade mais significativa. Em Capacidade computacional, Angola alcança 6,59 pontos - quase o dobro da média subsaariana e correspondente ao 6.º lugar regional. Já em infra-estrutura técnica apresenta 40,69, abaixo da média de 43,08; em Qualidade dos dados, 45,04, igualmente aquém dos 47,13 regionais.

O dado exige parcimónia interpretativa. 6,59 pontos continuam a traduzir uma capacidade computacional exígua. O resultado não revela abundância, mas a profundidade da escassez regional: quando quase todos possuem pouco, possuir ligeiramente mais pode criar uma ilusória dianteira estatística.

É acintoso pedir a uma população famélica que se contente com migalhas computacionais. Uma vantagem relativa não garante soberania digital, autonomia na cloud ou capacidade própria para operar na fronteira da IA. O Quadro de Política de Dados da União Africana aponta para um espaço africano de dados seguro e harmonizado. Porém, os dados só geram valor quando encontram computação, capital, investigadores, empresas e instituições. Sem essa cadeia, podem nascer em África, ser processados no exterior e regressar sob a forma de serviços e algoritmos vendidos ao próprio continente. É uma forma contemporânea de exogenia produtiva.

Soberania sem autarcia

A questão é mais subtil: que segmentos da cadeia tecnológica devem permanecer sob capacidade doméstica, quais podem ser organizados regionalmente e em que pontos a dependência externa se torna economicamente perigosa? Centros de dados, cloud pública, interconexão, energia, cibersegurança, investigação e regras de circulação de dados não devem ser pensados como compartimentos estanques. Formam uma única tessitura de soberania tecnológica. Uma política consequente terá, por isso, de distinguir dependência tolerável de dependência estratégica.

Nem toda a infra-estrutura precisa de ser nacional; mas nenhuma economia que aspire a soberania pode ignorar inteiramente onde os seus dados repousam, quem os processa, sob que jurisdição circulam e a que preço recupera a inteligência extraída deles. A nuvem, afinal, tem chão. E esse chão possui proprietários, contratos, jurisdições, custos, cabos, energia e fronteiras.

Na velha economia, controlar o porto significava dominar a passagem das mercadorias. Na nova economia, controlar computação, dados e cloud significa participar na definição das condições sob as quais o conhecimento circula, a decisão é automatizada e o valor é apropriado. África não conquistará soberania digital encerrando os seus dados atrás de muralhas. Conquistá-la-á quando possuir capacidade suficiente para que os seus dados não tenham de emigrar para se transformarem em inteligência.

*Francisco Xavier Pedro, Economista

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