Sem linha de chegada
A boa gestão não se mede apenas pelo que corre bem. Mede- -se também pela capacidade de assumir aquilo que não foi conseguido e explicar porquê. Um gestor que falha uma meta pode continuar a merecer confiança. Um gestor cujas metas nunca existiram dificilmente poderá ser verdadeiramente avaliado. E
Há uma pergunta simples que deveria acompanhar qualquer nomeação para um cargo de gestão, seja num ministério, numa empresa pública ou numa direcção-geral: "o que é exactamente suposto esta pessoa alcançar?"
No sector público desenvolveu-se uma sofisticada arte de governar sem metas suficientemente concretas para que alguém possa concluir, sem margem para dúvidas, se houve sucesso ou fracasso. Os objectivos são frequentemente apresentados em formato de "reforçar", "promover", "dinamizar", "consolidar", "impulsionar", "aprofundar". Verbos magníficos. Têm apenas um pequeno defeito, quase nunca podem ser medidos. Muitas vezes prefere-se uma formulação suficientemente elástica para sobreviver a qualquer resultado. Se os indicadores melhoram, mérito da governação. Se pioram, culpa da conjuntura internacional, das alterações climáticas, da guerra no Médio Oriente, da pandemia que já passou, da oposição, da herança recebida ou da falta de compreensão da opinião pública. Há sempre uma variável disponível para explicar aquilo que os objectivos nunca chegaram verdadeiramente a definir.
O curioso é que ninguém aceitaria esta lógica na sua própria vida. Imagine um pai perguntar ao filho pelas notas da escola e ouvir como resposta: "O meu objectivo era promover um ambiente favorável à aprendizagem." Ou um banco aceitar que um cliente deixe de pagar o empréstimo porque estava apenas a "consolidar uma estratégia financeira de longo prazo". A criatividade terminaria rapidamente. Mas na gestão pública essa elasticidade tornou-se quase uma disciplina olímpica.
Naturalmente, governar um país é incomparavelmente mais complexo do que gerir uma empresa. Existem factores externos, crises inesperadas, limitações orçamentais e prioridades sociais que não cabem numa folha de Excel. Seria absurdo exigir que tudo fosse reduzido a indicadores financeiros. Mas é precisamente por essa complexidade que os objectivos deveriam ser ainda mais claros, mais transparentes e mais quantificáveis. Não menos.
A boa gestão não se mede apenas pelo que corre bem. Mede- -se também pela capacidade de assumir aquilo que não foi conseguido e explicar porquê. Um gestor que falha uma meta pode continuar a merecer confiança. Um gestor cujas metas nunca existiram dificilmente poderá ser verdadeiramente avaliado. Enquanto continuarmos a confundir intenções com resultados, estratégias com realizações e discursos com desempenho, continuaremos também a viver num curioso campeonato onde quase todos ganham, quase todos são elogiados e quase ninguém consegue explicar exactamente qual era a meta da corrida. No fundo, talvez seja esse o segredo do sucesso. Quando não existe linha de chegada, é praticamente impossível perder.














