"Não trabalho para ser referenciada, mas para construir uma sociedade livre
A cineasta moçambicana Lara de Sousa conversou com o Expansão, na sede da Geração 80, explicando as engrenagens e os desafios do audiovisual em África, mas também fez a análise do actual momento de intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa. Defende o papel fundamental do cinema enquanto ferramenta de preservação histórica e transformação social.
Nesta sua primeira visita a Angola o que trouxe na bagagem?
Trouxe filmes, alguma experiência, muita curiosidade e, acima de tudo, uma vontade de me envolver num projecto, fazendo-o renascer, o que é sempre um desafio, mas que traz consigo muita esperança e muita vontade de fortalecer um espaço em África, dentro daquilo que é a geografia lusófona, se podemos assim dizer. Há sempre uma geografia inventada: somos PALOP, mas vivemos todos longe uns dos outros.
Esta é a 8.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Luanda, que regressa após onze anos, sendo que a assume a responsabilidade da programação. A que se deveu esse interregno tão longo?
Não conhecendo os contornos anteriores, não sou a mais indicada para explicar. Quem o pode fazer é a ANICC, Agência Nacional das Indústrias Culturais e Criativas, como promotora do evento. O que posso confirmarr é que, de 28 de Outubro a 2 de Novembro, os amantes de cinema poderão assistir a cerca de uma centena de filmes, durante seis dias, em aproximadamente oito salas distribuídas pela capital.
Qual é a percepção que tem do evento?
O FIC Luanda é um projecto com muito potencial, principalmente no contexto cultural cinematográfico africano, onde há uma grande necessidade de construir um espaço industrial e de ver cinema nos países de língua portuguesa.
Veio como programadora e pode parecer óbvio, mas explique-nos: o que faz uma programadora num festival dessa natureza?
Escolhe filmes, pensa com a direcção artística quais são as apostas, quais são as linhas temáticas, tanto do que se vai ver como daquilo que se vai mostrar em termos do potencial do País, de abertura e de interacções com outras geografias. Uma das grandes funções de uma programadora externa é exactamente poder fazer um trabalho muito imparcial.
E que relações foram estabelecidas a nível internacional?
Este ano, por exemplo, estamos a estabelecer relações profissionais e de negócios no cinema com o Brasil e com a Nigéria. Então, a função é contribuir para o pensamento estratégico e, acima de tudo, trazer filmes internacionais para uma audiência local e escolher os filmes nacionais que estarão em competição e nas exibições paralelas.
Como é que funciona o processo de selecção para os filmes que serão apresentados?
Este ano, a competição internacional foi escolhida internamente por nós, muito com base nos nossos conhecimentos e na nossa circulação, minha e do Jorge Cohen, por festivais internacionais, durante este ano e o anterior. A competição nacional foi feita através de uma open call, em que recebemos oitenta e oito filmes, dos quais escolhemos aproximadamente trinta. Já as mostras paralelas são definidas de acordo com os eixos temáticos da programação.
Com que orçamento se vai produzir o festival?
Há um orçamento público de cento e sessenta milhões que foi adjudicado. No final, o organizador apresenta o relatório.
Quais são as maiores dificuldades com que se está a deparar?
Não se pode chamar dificuldades. Realizar um festival depois de onze anos é reactivar estruturas. A sua realização vem acompanhada da reabertura de salas, o que significa que há um pensamento paralelo, há uma vontade de abrir estes espaços de cultura ao público. Aproveitar o FIC Luanda para marcar a reinauguração dessas salas de cinema, que são tão emblemáticas, é uma mais-valia e vai trazer desafios novos. Se olharmos para Luanda, na verdade, quase não temos salas de cinema.
Como se colmata esse défice para um cineasta que precisa de apresentar os seus trabalhos?
Custa-me um pouco falar da realidade de Luanda, porque a conheço pouco. Posso falar do contexto de Moçambique, onde a inexistência de salas faz com que o nosso trabalho fique pela metade... Não há cineasta que não queira ver o seu filme numa sala de cinema. A reabertura destas salas, para mim, demonstra uma valorização do cinema nacional e uma vontade de que comecem a circular obras, tanto nacionais como internacionais, dentro destes espaços. Quem faz cinema gosta de cinema, e quer ver-se em exibição nas salas.
Como olha para as novas plataformas, como o streaming: ameaça ou impulsionador?
Pode ter sido inicialmente uma ameaça e continuar a sê-lo, em certos contextos, mas faz parte de um ecossistema. Temos de aceitar e lutar para que exista regulação, protecção dos direitos de autor e protecção do conteúdo nacional. Creio que o streaming "ameaça" mais a televisão.
Porquê?
São conteúdos diferentes, são formas de consumo diferentes, são formas de olhar para o mundo diferentes, e teriam de ser complementares.
















