Director Carlos Rosado de Carvalho

Será que o doente vai morrer da cura?

Será que o doente vai morrer da cura?

No primeiro semestre de 2018, o Produto Interno Bruto angolano a preços constantes de 2002 baixou de 6% face ao mesmo período do ano passado, passando de 782,6 mil milhões Kz para 735,6 mil milhões Kz. Traduzindo do "economês", a economia angolana afundou 6% na primeira metade do ano. O cenário mais provável é termos nova recessão em 2018, a terceira em três anos.

A má notícia comunicada esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística parece dar razão aos Keynesianos que questionam a actual política económica com receio que o doente morra da cura, isto é, que os remédios prescritos pela equipa económica para recuperar a economia acabem por matá-la.

Segundo as propostas do economista John Maynard Keynes, quando uma economia está em recessão, as autoridades do país devem adoptar uma combinação expansionista de políticas monetária e fiscal. No primeiro caso, baixando os juros, no segundo aumentando os gastos públicos. A ideia é estimular a procura e com ela a própria economia. Como fazem os Estados Unidos, por exemplo.

Em Angola está-se a fazer o contrário. Um pouco à moda da política de austeridade europeia.

Os juros subiram, o Kz baixou e os gastos públicos emagreceram. Ou seja, as políticas monetária e cambial e orçamental angolanas são pró-cíclicas, arriscando agravar ainda mais uma economia em recessão.

Apesar de as decisões das autoridades angolanas contrariarem aquilo que dizem os manuais de economia e o que outros países fizeram para combater a crise, não quer dizer que a política económica do Governo esteja errada. Acredito que não está.

As opções austeritárias do Governo, em matéria de políticas monetária e cambial e orçamental, podem parecer tanto mais estranhas quanto se sabe que Angola precisa, urgentemente, de diversificar a sua economia e isso passa por mais crédito e mais barato e mais investimento em infraestruturas.

Mas é só aparência. Se as autoridades utilizassem as políticas monetária, cambial e orçamental para ajudar a economia arriscavam pôr em causa a estabilidade macroeconómica do País - com agravamento das contas públicas, aumento da inflação e ainda uma maior desvalorização da moeda. E sem estabilidade macroeconómica não há crescimento sustentável.

O tempo dirá se Angola fez a escolha certa.


Editorial da edição n.º 495, de 19 de Outubro de 2018, já disponível em papel ou em versão digital com pagamento em Kwanzas. Saiba mais aqui.

Partilhar no Facebook

Comentários

Destaques

ios Play Store Windows Store
 
×

Pesquise no i